João Matos sempre colocou o Sporting acima da própria carreira — Foto: RUI RAIMUNDO
João Matos sempre colocou o Sporting acima da própria carreira — Foto: RUI RAIMUNDO

O Sporting é eterno. São Leões como João Matos que lhe dão alma

João Matos foi muito mais do que um extraordinário jogador. Foi uma referência de caráter, de profissionalismo, de disciplina, de compromisso e de liderança. O Mundo Sabe Que é uma rubrica de opinião quinzenal da responsabilidade de Nuno Saraiva, consultor e sócio do Sporting Clube de Portugal

Há coincidências que parecem escritas pelo destino. No mesmo momento em que o Sporting Clube de Portugal celebra 120 anos de uma história ímpar, despede-se das quadras um dos atletas que melhor soube representar aquilo que o Clube tem de mais valioso. João Matos terminou a sua carreira desportiva, mas entra definitivamente na galeria dos símbolos eternos do Sporting.

Num tempo em que a velocidade do desporto moderno parece reduzir tudo ao imediato, em que os contratos mudam de cor ao sabor das oportunidades e em que tantas vezes o eu se sobrepõe ao nós, João Matos escolheu um caminho diferente. Vestiu uma única camisola. Defendeu um único símbolo. Construiu uma carreira inteira ao serviço de um único Clube.

Mais de quatro dezenas de títulos em 21 épocas como profissional, ajudam a explicar a dimensão competitiva do capitão do futsal leonino. Mas os troféus, por mais importantes que sejam, não chegam para medir o seu legado. Porque João Matos foi muito mais do que um extraordinário jogador. Foi uma referência de caráter, de profissionalismo, de disciplina, de compromisso e de liderança. Foi, sobretudo, a prova viva de que o lema 'Esforço, Dedicação, Devoção e Glória' não é apenas uma inscrição na história do Sporting. É uma forma de viver.

Há atletas que vencem campeonatos. Há outros que ajudam a construir instituições. João Matos pertence, sem hesitação, ao segundo grupo. Sempre colocou o Sporting acima da sua própria carreira, acima da sua notoriedade e até acima da inevitável vontade de prolongar mais uma época aquilo que todos gostaríamos que nunca terminasse.

Saber sair é uma das maiores virtudes dos grandes campeões. E João Matos soube fazê-lo no momento certo, pensando primeiro no futuro da equipa e do Clube que tanto ama. Esse gesto diz tanto sobre o homem como os inúmeros títulos conquistados.

Talvez por isso a sua despedida aconteça na semana em que celebramos os 120 anos do Sporting. Porque a verdadeira história de um grande Clube não é feita apenas de datas, nem apenas de vitórias. É feita das pessoas que, geração após geração, transformam valores em exemplos e exemplos em património coletivo.

Desde 1906, milhares de homens e mulheres fizeram crescer esta extraordinária instituição. Dos fundadores aos dirigentes, dos treinadores aos funcionários, dos atletas mais consagrados aos menos mediáticos, todos contribuíram para erguer um Clube verdadeiramente singular. Um Clube eclético, onde brilham lendas como Francisco Stromp, Joaquim Agostinho, Carlos Lopes, Fernando Mamede, Rui Jordão, Manuel Fernandes, Vítor Damas, os nossos Cinco Violinos (Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano), José Morais, Hilário da Conceição, Luís Figo, Cristiano Ronaldo, Viktor Gyokeres, Nélson Pereira, Tiago Ferreira, Rui Patrício, Bruno Fernandes, Beto Severo, Pedro Barbosa, Balakov, Iordanov,  João Benedito, Erick Mendonça, Zicky Té, Cardinal, Alex Merlim, Caio Japa, os irmãos Paçó, Naide Gomes, Patrícia Mamona, Ana Capeta, Rita Fontemanha, Joana Marchão, Ana Borges, Fátima Pinto, Tatiana Pinto, Inês Pereira, Diana Silva, Catarina Potra, Ângelo Girão, João Pinto, o 'Cinco Maravilha' (Ramalhete, Rendeiro, Sobrinho, Chana e Livramento), Pedro Gil, Nolito, Miguel Maia, Kelton, Carlos Galambas, Carlos Ruesga, Ricardo Andorinho, Carlos Carneiro, Carlos Silva, Pedro Portela, Bessone Basto, Kiko Costa, Pedro Solha, Ivan Nikcevic, Nuno Dias, Paulo Freitas, Hugo Canela, Ruben Amorim, Augusto Inácio, Paulo Bento, Leonardo Jardim, entre tantos e tantos outros que, em dezenas de modalidades, entregaram corpo, alma e suor pelo símbolo do Leão.

É nesta diversidade de modalidades, de gerações e de campeões que o Sporting Clube de Portugal se fez a maior potência desportiva nacional, cumprindo o desígnio de José Alvalade, escrito nas pedras da história: «Queremos que o Sporting seja um grande clube, tão grande quanto os maiores da Europa.» Poucas instituições conseguem afirmar uma identidade tão forte em tantas frentes competitivas, formando atletas, cidadãos e exemplos para sucessivas gerações.

João Matos pertence agora, por direito próprio, a esse património humano que nenhuma vitrine consegue guardar. Será sempre um dos nossos. Como os heróis míticos que fizeram do Sporting muito mais do que um clube vencedor: uma escola de caráter.

Os 120 anos do Sporting celebram-se olhando para o futuro, mas sem esquecer aqueles que nos trouxeram até aqui. E se quisermos explicar às novas gerações o verdadeiro significado de Esforço, Dedicação, Devoção e Glória, talvez não seja preciso recorrer a discursos elaborados. Basta contar a história de um rapaz que, vindo de um pequeno clube de Carnaxide, entrou de Leão ao peito, nunca deixou de o honrar e saiu exatamente da mesma forma: de cabeça levantada, com a consciência tranquila e com um lugar garantido na eternidade verde e branca.

Porque há campeões que conquistam títulos. E há homens que ajudam a construir a alma de um Clube. João Matos pertence, para sempre, aos dois.

Evoco o nosso primeiro presidente, Alfredo Holtreman e o saudoso João Rocha, e dirijo-me ao presidente atual, Frederico Varandas, para agradecer a todos aqueles que nos lideraram e contribuíram para que o Sporting Clube de Portugal fosse aquilo que é. Parabéns a todos nós, Sporting Sempre!

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