O professor do secundário que espanta o Japão e eliminou Conceição da Champions
Esta história já se viu. Mas no FM ou no CM não conta tanto como na vida real, certo?
O Machida, que há pouco mais de dez anos estava na 3.ª divisão japonesa e que só se estreou no primeiro escalão nipónico em 2023, apurou-se para as meias-finais da Champions asiática, à custa do Al Ittihad, treinado por Sérgio Conceição.
Mas se a história da ascenção meteórica do Machida já parece digna de filme, espera só até conhecer o homem responsável por estes três anos de sonho. Go Kuroda.
Go Kuroda é um treinador de 55 anos que até 2023 nunca tinha trabalhado no futebol profissional. Nem como jogador, e muito menos como treinador.
Até 2022, Kuroda era professor de educação física e treinador da equipa da escola secundária Aomori Yamada. Um cargo que ocupou durante 28 anos, e que lhe permitiu lançar jovens jogadores como Gaku Shibasaki e Kuryu Matsuki, que chegaram à seleção principal do Japão.
Mas além desse trabalho na base da formação desses dois internacionais, Kuroda fez da escola Aomori Yamada uma potência do futebol escolar, num país onde o desporto jovem é levado a sério e tem campeonatos pensados para serem a base das seleções do futuro.
E foram os oito títulos que conquistou entre 2016 e 2022 no futebol escolar japonês, ao comando da escola que partilha a cidade com o Machida, que serviram como o mais forte argumento forte para entregar a Kuroda o comando do clube da terra.
E de repente, aquela equipa que parecia ter-se fixado na segunda metade da 2.ª divisão nipónica, sagrou-se campeã e subiu pela primeira vez ao principal escalão na estreia de Kuroda no futebol profissional.
Depois, se a história já parecia um conto de fadas, o que se seguiu fez crescer a lenda do treinador e do Machida. Na estreia na J-1 League, o clube liderou o campeonato até à 30.ª jornada, perdendo depois fulgor nas últimas oito rondas para acabar no terceiro lugar. O sonho ficou curto, ainda assim, valeu o apuramento para a Champions Asiática ao técnico que – temos de repetir! - dois anos antes nunca tinha passado do desporto escolar.
Perfil pouco apreciado
Apesar do sucesso que alcançou com o Machida, que depois do 3.º lugar terminou a segunda época no 6.º lugar, mas venceu a Taça do Imperador, Go Kuroda está longe de ser um nome consensual entre os adeptos do futebol nipónico.
Tudo porque, num país com um código de conduta tido como irrepreensível, Kuroda foge bastante a esse estereótipo.
Ao ponto de algumas das suas condutas já terem sido discutidas como temas nacionais – como o facto de cuspir recorrentemente do banco para dentro do relvado - , e a razão pela qual o Machida é considerado pelos adversários uma equipa suja, por colocar em prática algumas das manhas do técnico.
Ainda assim, há quem arrisque apontar o nome de Kuroda para a seleção, ainda que o estilo de futebol do técnico esteja nos antípodas do estilo que tem vindo a solidificar-se na equipa nacional.
Kuroda promove um futebol muito mais pragmático do que técnico. Baseado na solidez defensiva, intensidade nos duelos e transições rápidas.
Bate Conceição… com um lançamento lateral
Foi com uma ideia quase de escola que o Machida venceu o super-favorito Al Ittihad por 1-0 para garantir uma vaga nas meias-finais da Champions. Foi o próprio treinador que revelou após o encontro a forma como pensa ter surpreendido o experiente treinador português.
«Os lançamentos laterais longos são uma das nossas táticas. É algo que trabalhamos todos os dias. É uma coisa pouco comum no mundo do futebol, talvez tenha surpreendido o nosso adversário e teve um impacto grande no jogo porque marcámos assim», disse.
«Sabíamos que não íamos ter muitas oportunidades, por isso criámos algumas ocasiões e mantivemos a baliza a zeros. Este é o nosso tipo de jogo e estou muito orgulhoso da equipa», acrescentou.
Agora, o Machida e Kuroda terão muitos mais olhos em cima. E segue-se mais um treinador português no caminho: Paulo Sousa.
Será frente ao Al Ahli dos EAU, treinado pelo antigo médio internacional português, que o Machida vai disputar o acesso à final da Champions.
Até onde pode ir esta história de sonho?