Jogadores do Tottenham frustrados com a má forma esta época
Jogadores do Tottenham frustrados com a má forma esta época - Foto: IMAGO

O prejuízo milionário que o Tottenham arrisca por uma despromoção da Premier League

'Spurs' estão apenas com mais um ponto do que o Nottingham Forest, de Vítor Pereira, e do West Ham, de Nuno Espírito Santo, e a ameaça é bastante real

Quem diria? O vencedor da UEFA Europa League da época passada está em perigo de descer. A despromoção de um dos seis clubes mais ricos da Premier League parecia ser um cenário quase impossível, mas o Tottenham enfrenta um risco real que pode ter consequências financeiras devastadoras, estimadas em perdas de 300 milhões de euros, aponta a BBC.

A dez jornadas do fim do campeonato, os Spurs encontram-se apenas um ponto acima da linha de água, ocupada pelo West Ham, de Nuno Espírito Santo, em igualdade pontual com o Nottingham Forest, de Vítor Pereira, e atravessam uma péssima fase. Desde 14 de dezembro, a equipa somou apenas 7 pontos em 14 jogos, o pior registo de toda a Premier League nesse período.

Embora as equipas dos treinadores portugueses e o Leeds também estejam na luta pela permanência, e com Wolverhampton e Burnley praticamente condenados, o risco para o Tottenham é agora enorme. Uma eventual descida ao Championship teria um impacto brutal nas finanças do clube, que no ano passado registou receitas de quase 800 milhões de euros, o nono valor mais alto da Europa, segundo dados da UEFA.

A quebra nas receitas seria sentida em várias frentes. A bilhética, que rendeu 150 milhões de euros na época passada (a quinta maior da Europa), sofreria um golpe significativo. O preço médio de 87 euros por bilhete, um dos mais caros do continente, seria insustentável em jogos do segundo escalão contra equipas como o Lincoln City. A aposta em bilhetes de hospitalidade e pacotes empresariais, uma estratégia central desde a construção do novo estádio de mil milhões de euros, seria igualmente afetada, prevendo-se também uma quebra na afluência de público.

As receitas televisivas também caíriam a pique. O clube perderia o acesso aos lucrativos contratos da Premier League, que no ano passado permitiram que o Ipswich Town, por exemplo, ganhasse mais com direitos de transmissão do que o Barcelona. As dezenas de milhões provenientes da UEFA Champions League desapareceriam, a menos que o clube vencesse a competição, o que garantiria a sua presença na prova na época seguinte, mesmo estando no Championship. A equipa de João Palhinha defronta o Atlético Madrid nos oitavos de final.

No plano comercial, o rendimento recorde de 310 milhões de euros estaria em perigo. Contratos de patrocínio importantes, como os da Nike e da AIA, que juntos valem cerca de 80 milhões de euros anuais, contêm cláusulas de despromoção que reduziriam drasticamente o seu valor.

«Em caso de descida? Seria um projeto de vários anos...»

Kieran Maguire, especialista em finanças do futebol, alerta para a gravidade da situação: «Para um clube com as ambições e a escala financeira do Spurs, a despromoção não seria apenas um revés desportivo a curto prazo. A economia do futebol inglês torna a recuperação um projeto de vários anos», disse à BBC.

Apesar de uma descida de divisão implicar uma redução na folha salarial — estima-se que os salários dos jogadores baixem 50%, o que poderia transformar a despesa recorde de 317 milhões de libras em 158 milhões —, muitas outras despesas manter-se-iam ou poderiam até aumentar. O clube, que no ano passado teve prejuízos de 148 milhões de libras, enfrentaria custos operacionais crescentes.

No ano passado, os custos operacionais do Tottenham foram os terceiros mais altos da Europa, atingindo os 300 milhões de libras, um aumento de 31 milhões em relação ao ano anterior. Despesas como eletricidade, transportes e administração não diminuem com a mudança de escalão, pois o custo para iluminar o estádio para um jogo contra o Norwich City no Championship é o mesmo que para um jogo contra o Newcastle na Premier League. Além disso, o clube contava com 877 funcionários a tempo inteiro, o 12.º maior número na Europa, após um aumento de 57 pessoas no último ano.

A gestão financeira dos londrinos, embora elogiada pela sua sustentabilidade, é agora apontada como uma das razões para o perigo de despromoção que o clube enfrenta. Uma eventual descida ao Championship obrigaria o clube a continuar a pagar salários de topo europeu sem as receitas da primeira divisão inglesa, a menos que ocorra uma dispensa em massa de jogadores.

Bale: «É aquele tipo de aposta que não estão dispostos a fazer»

O início de época sob o comando do novo treinador, Igor Tudor, tem sido desastroso, com duas derrotas nos dois primeiros jogos, resultando em seis golos sofridos e apenas dois marcados. Nos últimos anos, os Spurs têm recebido tanto elogios por serem um dos clubes mais bem geridos da Europa, como críticas por parte dos adeptos devido à relutância em investir mais das suas receitas em salários mais elevados. Alguns acreditam que a atual situação de risco se deve precisamente a essa falta de audácia financeira.

Gareth Bale, antigo extremo do clube, partilha desta opinião. Em declarações ao podcast The Overlap, o galês não teve dúvidas quando questionado sobre o motivo pelo qual o clube corre um risco tão grande de despromoção. «Eu diria que é o dinheiro», afirmou Bale. «Olhem para a massa salarial, é mais baixa [do que a de outros clubes com grandes ambições]. Parece que compram sempre jogadores jovens na esperança de que se tornem algo maior, o que funcionou no passado comigo e com alguns outros jogadores, mas agora são um clube estabelecido.»

O antigo jogador sublinhou que o clube possui todas as infraestruturas necessárias para competir a um nível mais alto e que a estratégia de contratações precisa de mudar. «Têm o estádio, o centro de treinos, a massa adepta. Precisam de comprar jogadores de maior calibre, talvez pagar um pouco mais. É aquele tipo de aposta que talvez seja preciso fazer e que, do ponto de vista empresarial, eles não estão dispostos a fazer», explicou.

Para Bale, a principal questão é a falta de investimento em jogadores já formados e prontos a render de imediato. «Para mim, esse é provavelmente o maior problema: não contratam o jogador acabado. Um jogador de 50 milhões de euros já não é o que era. Agora é preciso gastar 80, 90, 100 milhões de euros só para ter um bom jogador. Parece que precisam de arriscar um pouco mais, outros clubes estão mais dispostos a correr riscos financeiros», concluiu.