Benfica: mural da esperança ou da resignação?
Cumprindo uma tradição antiga, fui ver a final da Liga dos Campeões, com um grupo de amigos, desta vez em Budapeste. Grande estádio, grande organização e grande ambiente. O jogo propriamente dito não foi um dos melhores espetáculos a que já assisti. Mas, ainda assim, venceu a melhor equipa.
Aproveito sempre estas finais para tirar uma foto ao mural onde estão expostas as camisolas dos clubes vencedores da Liga dos Campeões. Mais concretamente, aproveito para tirar uma foto à camisola do meu clube, o Benfica, que ganhou por duas vezes a competição, em sete finais disputadas.
Dois sentimentos me invadem ao olhar para aquele mural. Em primeiro lugar, um orgulho e admiração pelos dirigentes e jogadores dessas épocas. Que audácia, que competência e que determinação foi preciso existir para termos conquistado o que conquistámos!
O segundo sentimento é quão longe, hoje, como sócio e adepto, me sinto desse mural e quão longe me sinto, também, de um dia voltar a chegar próximo de uma final da Liga dos Campeões. E acho que este é o sentimento dominante entre a maioria dos sócios e adeptos do Benfica. Mas será que tem de ser mesmo assim?
Muitas vezes penso o que seríamos hoje se os nossos dirigentes dos anos 60, 70 e 80 se tivessem resignado ao facto de sermos um país pobre, fechado e pequeno e terem aceite ficar pelo fácil, pelo apenas possível e não ousar conquistar o que parecia verdadeiramente impossível.
Mas, felizmente, não aceitaram essa fatalidade, não se resignaram e encontraram soluções para ser grandes, mesmo vindos de um país (geograficamente) pequeno, e deixar-nos um legado imenso! É verdade que o futebol mudou muito, sobretudo após a Lei Bosman e a chegada do capital bilionário, que veio mudar as regras do jogo.
Também é verdade, porém, que as oportunidades neste novo mundo global e aberto aumentaram muito em relação aos anos 60, 70 e 80, em especial para as organizações com a marca, a dimensão e a massa adepta do Benfica.
Ao contrário de outros clubes mais pequenos, a nossa dimensão permite-nos ter opções, fazer escolhas e aproveitar as oportunidades que nos permitam ter novamente esperança de competir ao mais alto nível.
Com a mesma fórmula e também com a mesma organização dos anos 60? Não! Daquela maneira, infelizmente, não é mais possível. Precisamos urgentemente da atitude, da coragem e, em especial, da competência e do inconformismo dos sócios e dirigentes desses anos gloriosos.
Há hoje uma aceitação geral entre nós, sócios, que nos foi incutida e imposta, e que passa por termos de nos resignar a ser um mero entreposto de jogadores, um clube formador dos grandes europeus que ganham títulos, restando-nos ficar a assistir, com nostalgia, ao João Neves e ao Gonçalo Ramos a serem bicampeões europeus com uma camisola de outro clube, ao ponto de já não sabermos se somos sócios do Sport Lisboa e Benfica conquistador de títulos ou se somos sócios do Sport Lisboa e Benfica agente de jogadores.
O facto é que conseguimos ser a Academia mais lucrativa do Mundo nos últimos 10 anos, com quase €600 milhões de vendas de jovens extraordinários formados em casa, mas em termos de títulos ficámos longe dos melhores da Europa e nem sequer fomos o mais ganhador em Portugal nos últimos 10 anos.
Podemos dizer que o SLB agente tem sido mais competente que o SLB clube ganhador de títulos, o que deve levar a uma reflexão sobre o modelo seguido.
Será que tem mesmo de ser assim? Será que não há outras soluções? Claro que há! Só é assim porque vender jogadores é a solução mais fácil. Só funciona assim porque vender jogadores é a solução mais fácil, mais simples e mais conveniente para o mercado em geral. É que vender o João Neves pelo preço a que foi vendido abaixo da cláusula de rescisão não é tarefa difícil e até um adolescente o faria. Basta uma boa comissão ao agente e a qualidade inegável do João Neves faz o resto.
O nosso legado é maior é tudo isto a que assistimos. Precisamos de muito mais. Precisamos de dirigentes que não se limitem a ser compradores/vendedores de jogadores, mas que encontrem soluções económicas e financeiras que nos permitam ter um projeto desportivo estável, consistente e duradouro. Que consigam montar um modelo económico ao serviço do modelo desportivo e não um modelo desportivo ao serviço do modelo económico. No fundo, que nos devolvam a esperança de andar de forma consistente entre os melhores e, eventualmente, ganhar.
Para isso acontecer precisamos de dirigentes que tragam visão e competência das suas vidas profissionais. Que tragam visão estratégica, conhecimento e saber fazer.
Ser presidente ou dirigente do Sport Lisboa e Benfica não pode ser um espaço de experimentalismo ou de aprendizagem assentes em ambição pessoal sem qualquer sustentação de capacidade profissional. Precisamos dos melhores, entre nós, também fora do campo. Os títulos começam a ganhar-se aí, sobretudo num mundo supercompetitivo e cheio de interesses paralelos como é o atual.
Mais uma vez chegamos ao início de época com um novo treinador. Com a época a iniciar mais cedo, com um novo play-off (desta vez da Liga Europa) e, como sempre, na expectativa da entrada e saída de inúmeros jogadores na vaga esperança de que a chegada dos novos milagreiros venha resolver os nossos problemas. Onde é que já vimos isto?
O atual presidente e respetiva Direção estão mais do que legitimados para continuar e não devem ser postos em causa. A bem da estabilidade é isso que deve acontecer. Mas têm de refletir seriamente sobre o passado recente e tirar conclusões sobre o caminho para onde estão a levar o clube. E, mais importante, fazer um exame de consciência e concluir se têm capacidade e energia para alterar o rumo.
Na final da Liga dos Campeões do próximo ano, em Madrid (onde espero voltar a estar presente), gostaria de olhar para aquele mural das camisolas com esperança e não com resignação. Mas tenho consciência de que muita coisa precisa de mudar para voltarmos a ser o clube da superação e dos feitos (quase) impossíveis. Para isso, haja esperança, visão e determinação.