O pós-Luz é só mais um passo na evolução
Podemos ver isto pelo lado positivo: há 40 anos, ouvir cânticos assumidamente racistas era normal num estádio de futebol na Europa; há 20 anos, já soava estranho nalguns lados; atualmente, isso dá direito a paragem de jogo – o protocolo a que assistimos no Estádio da Luz já foi ativado várias vezes na sequência de comportamentos dos adeptos.
Há 40 anos, era normal ouvirmos cânticos sexistas das claques num estádio quando uma mulher surgia integrada no corpo policial; há 20 anos, isso já soava estranho nalguns lados; atualmente, já temos mulheres a dirigir jogos das principais ligas do Velho Continente.
Há 40 anos, era norma que a seguir a qualquer pontapé de baliza de chutão para a frente se ouvisse um longo impropério dirigido a uma espécie de mãe coletiva; há 20 anos, já se ouvia menos e a UEFA aplicava multa de 500 euros a cada batida de bola com direito a banda sonora; atualmente, o ritual está datado e a maior parte das equipas sai a jogar a partir de trás.
Há 40 anos, os treinadores fumavam no banco de suplentes, os jogadores fumavam no balneário, adeptos fumavam nas bancadas e nos pavilhões fechados; há 20 anos, poucos jogadores fumavam, um ou outro treinador fumava no banco e em alguns países já era proibido fumar nas bancadas (no Reino Unido, por exemplo). Atualmente, é totalmente proibido fumar em qualquer parte local de um estádio de futebol.
Talvez um dia olhemos para o conjunto de reações que se seguiram ao caso Vini Jr/Prestianni como uma memória vaga de algo que já fomos, tal como me recordo, por exemplo, de em criança andar na parte de trás de um carro sem cinto de segurança. Era giro, mas todos sabemos que era errado. E perigoso.
Daqui a uns anos, não sei quantos, o quarto árbitro dirá para o juiz principal «aquele gajo de casaco verde» quando quiser referir-se ao treinador adjunto do Basaksehir e não «o negro», tal como aconteceu num jogo da Champions em 2020 quando Pierre Webó pisou a linha e necessitava de ser admoestado.
Diz o povo que há duas situações em que o ser humano se torna verdadeiramente sincero: quando embriagado e quando irado. Daqui a uns anos, não sei quantos, quando um jogador branco quiser ofender um negro numa disputa verbal em qualquer campo de futebol puxará do vernáculo que usa para atingir outro branco e nunca usará a questão racial como ofensa. Talvez aí, e só aí, tenhamos atingido um plano de igualdade: alguém de cabeça quente vai às mais profundas entranhas e na sua inconsciência já não encontra qualquer réstia de pretenso sentido de superioridade.
ELEVADOR DA BOLA
Gyokeres, avançado do Arsenal
O Tottenham está em crise, mas o que Gyokeres fez ao rival mostrou a versão mais próxima do que mostrou no Sporting. E com um extra: jogar bem de costas. Não tem números brilhantes, mas o sueco é o melhor marcador ao Arsenal na Premier League (10 golos).
Hakimi, jogador do PSG
Ir a julgamento por causa de um suposto caso de violação é das acusações mais abjetas para um homem. Mas é preciso esperar: o caso de Benjamin Mendy mostrou-nos o perigo das sentenças populares.
John Textor, empresário norte-americano
Steve Jobs também foi despedido da Apple, mas é irónico ver o empresário americano afastado do grupo que ele próprio criou para comprar o Lyon, Botafogo e parte do Crystal Palace. E pensar que Paulo Fonseca esteve quase a ir para a segunda divisão...