Renato Coimbra, treinador do Vila Real, não ficou satisfeito com a goleada aplicada ao Salto - Foto: ZecaSportShots
Renato Coimbra, treinador do Vila Real, não ficou satisfeito com a goleada aplicada ao Salto - Foto: ZecaSportShots
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Ganhou 21-0 e lamenta: «Foi um dia triste...»

Afinal, golear pode ser «desagradável», mesmo quando é o «respeito a levar a isso». Um estranho misto de emoções foi vivido no balneário do Vila Real no último fim de semana

«No nosso balneário, ninguém ficou contente» — foi a garantia deixada, a A BOLA, por Renato Coimbra, treinador do Vila Real, que no último fim de semana venceu o Salto por 21-0, em jogo da quarta jornada da Associação de Futebol vila-realense.

O técnico de 29 anos explica por que motivo esta é uma «sensação desagradável», tanto para vencidos, como para vencedores: «Quando estamos numa competição, aquilo que se valoriza é ninguém saber o resultado à partida. Gostamos todos da Premier League porquê? Porque os resultados são imprevisíveis. Quando acontecem resultados destes, não há competitividade, não há emoção, não há nada. Foi um dia triste para toda a gente.»

21-0 foi mesmo algo que os adeptos alvinegros nunca tinham visto, explica, ao nosso jornal, o autor de quatro tentos, Gonçalo Vidazinha: «Foi o jogo com mais golos de sempre na história do Vila Real. O recorde anterior era de 15-0 ou 14-0. Conseguir um 21-0 entra para a história e dificilmente será ultrapassado.»

«Tantos golos só quando ia jogar a Chaves, nas camadas jovens, mas aí era eu a perder 10 ou 11 [risos]. Ganhar por esta margem nunca tinha acontecido», revela o extremo, que, depois de Abambres, Vila Real e Chaves, chegou a jogar nos juniores e sub-23 do Vitória de Guimarães, onde partilhou balneário com Alberto Costa, Luís Esteves e Dani Silva.

Gonçalo Vidazinha foi o máximo goleador do encontro com o Salto - Foto: Vila Real

Sobre a goleada ao Salto, o jogador de 24 anos afirma ter sido aplicada em sinal de… respeito e explica porquê: «Ao jogar seriamente estávamos a respeitá-los. Tínhamos o nosso trabalho para fazer, fomos encontrando os espaços e as oportunidades surgiram. Não é por estarmos a ganhar 5-0 que temos de abrandar. Demos o nosso melhor em cada lance e acabámos por marcar muitos golos. As coisas aconteceram naturalmente. Repito, abrandar é que seria uma forma de não respeitar o adversário ou de o menosprezar.»

«Respeitar é jogarmos a sério e estarmos focados durante todo o jogo. Tivemos sempre seriedade e esse respeito levou a um número de golos muito exagerado», concorda Renato Coimbra, acrescentando que lhe restou enaltecer aos derrotados pela «atitude exemplar» que demonstraram: «A única coisa que disse aos jogadores do Salto foi para continuarem, porque têm toda a legitimidade. Ao intervalo já estava 13-0 e seria muito mais fácil chegarem à segunda parte e começarem a magoar ou a perder a cabeça, mas nunca o fizeram. Tiveram uma atitude exemplar em campo e tentaram jogar.»

Renato Coimbra assumiu nesta temporada o comando técnico do Vila Real - Foto: ZecaSportsShots

«Deixo também uma palavra de apreço ao Salto, que nunca virou as costas ao jogo nem tirou o pé, mantendo uma atitude séria e tentando sempre dar o melhor. Podiam ter abandonado o campo ou não querer jogar. É um clube que se está a reorganizar e desejo-lhes que continuem o seu trabalho e não desistam», encoraja Gonçalo Vidazinha.

No fim, os próprios jogadores do Salto retribuíram e ‘agradeceram’ ao Vila Real por não ter parado. «Fizeram o trabalho deles, não têm de abrandar. Claro que da nossa parte ninguém levou a mal», garante, em entrevista A BOLA, o capitão dos montalegrenses, Tiago Pinho.

«Grande parte dos golos foram falhas nossas. De marcação, de experiência… O jogador mais velho era eu, com 32 anos», refere.

Sem treinador, mas com equipa «para justificar o sintético»

Tiago Pinho é o capitão do Salto — a equipa que representa as 20 aldeias da freguesia com o mesmo nome — e até aqui também tem sido… treinador. «Para já, sou eu e mais um jogador, que veio dos veteranos, que temos tentado agilizar as coisas e orientar a equipa», explica.

Tiago Pinho é dos mais experientes da equipa do concelho de Montalegre - Foto: Salto

O dono da braçadeira revela também que o clube não competia no distrital (de onde nunca saiu) desde 2019 e a decisão de voltar a entrar na contenda se prendeu, principalmente, com uma… obra: «O clube tinha acabado por falta de jogadores. Antigamente, o campo era pelado e era muito difícil arranjar atletas para jogar ali. Agora, temos relvado sintético e, para justificar o sintético, criámos a equipa. É tudo muito recente, por isso é normal que os resultados sejam estes.»

«Metade do plantel veio do futsal e muitos ainda são juniores. É muito complicado: tínhamos apenas um jogador no banco, sem treinador e a treinar duas vezes por semana, enquanto eles treinam todos os dias e têm outro andamento… Estamos a reerguer-nos, acredito que a meio da temporada já devemos estar melhor», antevê.

Tiago Pinho deu ainda uma notícia, em primeira mão, ao nosso jornal: «É complicado gerir o grupo sem uma equipa técnica, mas, a partir desta semana, já vamos ter treinador e vai ser diferente.» 

«AF Vila Real não pode permitir isto»

Numa análise mais profunda ao significado do 0-21 — que, na perspetiva do Salto, se seguiu de outras goleadas de 0-7, 0-6 e 2-5 —, o treinador do Vila Real apela a uma mudança dos quadros competitivos da Associação.

«Não faz sentido haver uma goleada destas. Queremos competitividade e jogos equilibrados. Este tipo de resultados faz com que a nossa Associação não seja respeitada, o que enfraquece a competição», lamenta Renato Coimbra, acrescentado, ainda assim, que «há muito bom valor na AF Vila Real — bons treinadores e jogadores —, mas a disparidade entre algumas equipas é tão grande que acaba por ser descredibilizada.»

Alvinegros partilham a liderança do campeonato distrital com o Régua (dez pontos) - Foto: ZecaSportShots

A solução? «Com duas divisões, mesmo que com nove equipas cada, ficaria mais motivante, mesmo para as equipas do meio da tabela. Num campeonato corrido de 18 equipas, qual é a motivação de quem está em 8.º ou 14.º ou último? Ficam sem objetivos, o que leva ao desleixo. Com duas divisões e subidas e descidas em jogo, as equipas lutavam até ao fim», aponta o timoneiro de 29 anos.

«A Associação não pode permitir este tipo de resultados, pois é quem mais fica a perder. Se tivermos em conta as principais distritais do país — AF Porto, Braga ou Lisboa — não há tantos resultados desnivelados», compara, afirmando que «quem tem o poder de decisão deve agir para valorizar o futebol regional». 

Apesar de somar três cabazadas seguidas (21-0, 7-1 e 4-1), o Vila Real escorregou com o Régua (2-2), na primeira ronda. Estão ambos na liderança (dez pontos) e são fortes candidatos à subida ao Campeonato de Portugal.

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