O futebol real não é tão bom como o futebol ideal
Foi-se um anel, ficaram os dedos. A saída de Rodrigo Mora foi um choque de realidade. Ou, dito de outra forma, foi um choque entre a realidade financeira comum à maioria dos clubes portugueses e a paixão ardente que um talento nosso desperta entre os adeptos. Num mundo ideal, o Rodrigo Mora continuava no Porto, jogava todos os dias e marcava dois golos por jogo, pelo menos.
E abria o desfile dos Campeões nos Aliados, todos os anos, empunhando a bandeira azul e branca do FC Porto. Esse seria o mundo ideal sonhado por adeptos como eu, que ainda acreditam que o amor move montanhas. Infelizmente, este amor não move montanhas. Este amor resigna-se às vicissitudes do mercado, do jogo e das tesourarias. Mas também temos de olhar para o outro lado do futebol.
E a verdade é que Rodrigo Mora não conseguiu impor o seu talento nem tornar-se indispensável para Francesco Farioli. Um jogador, por mais talentoso que seja, não pode ficar à espera que um treinador construa a equipa à volta dele. Quando tem talento — como Rodrigo Mora — um jogador entra no modelo de jogo, faz a diferença, transporta para a equipa a sua qualidade e destaca-se.
O que lamento, com genuína sinceridade, é que o miúdo não tenha conseguido dar todo o seu génio à equipa, não tenha conseguido dizer ao treinador «tens de contar comigo porque eu faço isto e aquilo e muito mais». Também lamento que Farioli não tenha conseguido retirar de Mora tudo aquilo que ele podia dar à equipa.
E como nós precisávamos de toda esta genialidade e talento!
O futebol real
Convém não esquecer que há pouco mais de dois anos o clube estava de rastos, com dinheiro no cofre que mal chegava para pagar um jantar no Gambrinus.
Hoje, já respiramos, mas devagarinho, sobretudo depois do gigantesco esforço da época anterior, que pagou uma equipa quase nova, mas vencedora.
Foi um esforço hercúleo, compensado pelos milhões da Champions. Mas isso não chega. O FC Porto precisava — e precisa — de vender para pagar despesas e ordenados. É a vida dos clubes portugueses que não têm investidores estrangeiros diletantes.
Vender para sobreviver.
O que custa mais, nesta venda, é ter sido o Rodrigo Mora. O nosso Rodrigo Mora, um miúdo sempre de sorriso aberto, que viveu grandes dias no FC Porto e que deu grandes alegrias a milhares de adeptos.
E tal como antes tinha acontecido nos relvados, Mora voltou a ser decisivo. Não com golos ou assistências, mas com um negócio de €50 milhões. O miúdo voltou a salvar o FC Porto.
Devemos estar gratos. Sentir como nosso tudo o que fez por nós e retribuir com amor e saudade o portismo que a vida lhe deu.
Rodrigo Mora, não te conheço, puto, a não ser vestido de azul e branco, de brasão abençoado ao peito, mas gostava de poder dar-te um abraço e agradecer-te. Tens a vida pela frente, muita vida para brilhar e conquistar. Prepara-te para as glórias com a mesma humildade com que deves receber os desaires e as frustrações. A vida não é cor de rosa. Mas, para ti, será sempre azul e branca.
O exemplo vem de cima
Exorto o FC Porto, investido das armas de campeão, a ser o paladino da transformação do futebol português, na direção da modernidade, rivalidade saudável e intensa, respeito recíproco, urbanidade e sustentabilidade. Será assim tão difícil?
André Villas-Boas foi eleito porque os sócios do FC Porto queriam uma mudança no Clube. E o novo presidente prometeu que iria tudo fazer para modernizar o futebol português. AVB conhece muito bem o futebol europeu. Treinou em Inglaterra, treinou em França, treinou na Rússia e treinou em Portugal — com um estrondoso sucesso. Também conheceu o futebol chinês. Toda essa experiência poderia ser utilizada para ajudar a catapultar o futebol português para um nível mais competitivo e, sobretudo, mais civilizado e competente.
Temos (muitos) jogos da primeira Liga com menos de 2 mil espectadores. Porquê?
Temos árbitros de qualidade muito duvidosa. Porquê?
Temos dirigentes que se envolvem em quezílias inúteis, contraproducentes e grosseiras. Porquê?
As regras do futebol são as regras dos clubes de futebol. São eles que decidem e aprovam os regulamentos que os protegem. De preferência, contra os mais pequenos e indefesos.
Talvez não fosse má ideia reformar profundamente os alicerces do futebol, de modo a torná-lo mais competitivo, competente, exigente e transparente.
Exorto, por isso, o jovem presidente do FC Porto, André Villas-Boas, a empunhar de novo a bandeira da sua candidatura e liderar, pelo exemplo, pela experiência e pela sabedoria, essa reforma do futebol português. Será fácil? Longe disso. Será possível? Se todos quiserem…
Narciso
O documentário da Netflix sobre José Mourinho é um testemunho muito interessante. Ou, para ser mais rigoroso, um verdadeiro hino a Narciso, uma personagem da mitologia grega com uma história que viajou através de todos os tempos até à atualidade. Conta a lenda que Narciso se enfeitiçou pela sua própria imagem, cujo reflexo contemplava de forma obsessiva na água. Narciso rejeitou todos os amores para poder amar-se apenas a si próprio e acabou tristemente definhado, a admirar a sua imagem, que se sobrepunha a tudo na sua vida.
Eis Narciso, vítima da sua vaidade.
Lembrei-me desta história mitológica quando vi o tal documentário sobre José Mourinho.
A Pirâmide Invertida
O futebol é muito mais do que pontapés na bola e rasgos individuais. Hoje, o futebol é um jogo tático, uma espécie de xadrez em movimento. Eu, confesso, não sou grande apreciador do rigor tático nem dos jogos presos por esquemas desenhados em quadros ou tablets. Mas tenho de reconhecer que hoje a tática tem um papel decisivo em muitos momentos do jogo.
Recomendo, por isso, o livro de Jonathan Wilson, um jornalista inglês que escreveu 'A Pirâmide Invertida'. O livro explora a tática do futebol desde o início, onde reinava o caos, até aos dias da atualidade, com jogos preparados a régua e esquadro. Wilson escreve, com magnífica agilidade, sobre os segredos do Barcelona de Guardiola, sobre o excitante futebol inglês, sobre o rigoroso catenaccio italiano e sobre muitas outras histórias que ajudam a perceber, por exemplo, porque é que antes se jogava com cinco atacantes e agora se utiliza apenas um ponta de lança.
Uma viagem pelas ideias, métodos, estilos e estratagemas dos grandes treinadores de futebol, que modelaram o jogo.