Rodrigo Mora chegou, viu e estreou-se logo a titular na Roma. Promete... - Foto: IMAGO
Rodrigo Mora chegou, viu e estreou-se logo a titular na Roma. Promete... - Foto: IMAGO

Não perdem pela de Mora

A saída do jovem prodígio do FC Porto para a Roma reforça que a arte ainda resiste no futebol moderno, apesar da ditadura da tática e do físico

O futebol moderno trava uma guerra silenciosa — e em grande parte vitoriosa — contra a magia pura da imprevisibilidade. O rasgo de génio foi substituído pela métrica, a vertigem da rua cedeu o seu lugar à geometria rígida das entrelinhas e a arte dobrou-se perante o músculo.

Nas escolinhas de formação, o prazer do drible e a total liberdade de inventar dão cada vez mais cedo lugar a modelos táticos pré-formatados e a obsessivas dinâmicas de transição. É a era do atleta-modelo, do jogador de laboratório.

As melhores imagens da estreia de Rodrigo Mora pela Roma:

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No entanto, por mais que tentem mecanizar o jogo, haverá sempre quem procure o rasgo humano da beleza, quem deseje a cor no meio da ditadura cinzenta do rigor físico e quem esteja disposto a pagar peso em ouro para juntar pérolas a um jogo cada vez mais dominado por androides.

Em Portugal, o guião é antigo e de sobra conhecido. Os países mais ricos e dominantes do topo da cadeia alimentar encontram sempre forma de levar o nosso ouro. Vimos essa inevitabilidade repetir-se ao longo de décadas com Luís Figo, Rui Costa, Ricardo Quaresma, Cristiano Ronaldo, Bernardo Silva, Vitinha ou João Neves. Todos voaram cedo porque o seu futebol exigia palcos maiores e o poder financeiro dos colossos tornava qualquer resistência inútil.

O caso da transferência de Rodrigo Mora para a Roma encerra, contudo, contornos ligeiramente diferentes. A sua saída do FC Porto não resultou apenas da pressão habitual do mercado, mas de um puro choque de identidades desportivas.

Mora simplesmente não contava nem encaixava no ideário tático de Farioli — um treinador que prioriza o futebol físico, seguro, desenhado pela certa e preciso como um relógio suíço. E não há aqui lugar para julgamentos morais: foi precisamente com esse futebol pragmático e sem floreados que o técnico italiano chegou e se sagrou campeão nacional sem apelo nem agravo no ano de estreia.

O talento rebelde de Mora era, porém, um corpo estranho nesse sistema desenhado ao milímetro.

A resposta do prodígio, essa, não tardou. Chegado à capital italiana, entrou direto para o onze titular no primeiro jogo frente à Fiorentina e deixou de imediato a sua assinatura inconfundível: uma jogada de pura genialidade, um futebol fora da lei culminado num remate em arco perfeito que só não deu golo devido a uma defesa monumental do enorme De Gea. Ficou o registo inquestionável de que a poesia do jogo recusa ser enjaulada.

O negócio acabou por ser bom para todas as partes envolvidas, mas sobretudo para os apaixonados pelo futebol-arte e pelo inesperado. Ganhou o FC Porto, ganha a Roma, ganha o jogador e ganha Portugal, que em breve poderá voltar a vê-lo em ação na Seleção Nacional. Assim Jorge Jesus nele aposte — o mesmo Jesus que, ironicamente, outrora não apostou em Bernardo Silva e o deixou sair por tuta e meia...

O futebol tem esta memória curta e cheia de contradições. Mas uma coisa é garantida para os amantes do belo jogo: não perdem pela de Mora.

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