Ronaldinho regressa aos relvados para tentar ajudar o Ravenna, da Serie C italiana, a subir de divisão - FOTO:Imago
Ronaldinho regressa aos relvados para tentar ajudar o Ravenna, da Serie C italiana, a subir de divisão - FOTO:Imago

O eterno feitiço que vence até a Reforma

O caso do regresso de Ronaldinho para defender o Ravenna é apenas mais um numa história em que grandes lendas mostram que a paixão pode mudar tudo e que o retângulo verde é onde se sentem felizes

O mundo abriu a boca de espanto com a notícia de que Ronaldinho Gaúcho regressaria aos relvados, agora ao serviço do Ravenna. E assim se reabre um fascinante capítulo na história do futebol mundial: o dos génios que voltam a sentir o famoso cheiro de balneário.

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Histórias de lendas, de alguns dos maiores ídolos do futebol, fazem com que na literatura encontremos frases que falam de um vício incurável como referência ao futebol. E a bombástica notícia é a prova mais recente disso mesmo e chega-nos da Romagna, em Itália.

Numa das maiores e mais inesperadas surpresas do mercado de transferências, Ronaldinho Gaúcho, o eterno camisola 10 que encantou o planeta com a magia que levou para Barcelona, Milan ou a Seleção do Brasil, decidiu voltar a calçar as chuteiras. Aos 46 anos, o astro brasileiro abraça sem medo o desafio de vestir a camisola do Ravenna, emblema que milita na Série C italiana, acumulando as funções de jogador com as de investidor do clube. A missão é clara: subir de divisão, iniciar a caminhada em direção à Serie A.

Embora a sua utilização em campo vá ser gerida com pinças e moldada para momentos de exibição, a verdade é incontornável: o perfume do craque e o seu sorriso inconfundível estão de volta ao futebol europeu. Que volte a magia que o mundo do futebol não esquece.

Em declaração reproduzida pela Gazzetta dello Sport, o internacional brasileiro falou de peixão: «Novas cores, o mesmo sorriso. Mal posso esperar para voltar a dançar com a bola e escrever uma nova história ao lado de Ignazio e de toda a família Cipriani. O futebol sempre foi uma fonte de alegria para mim, e quero levar esse mesmo espírito para Ravenna.»

Roberto Carlos, Legends Charity Game, - Foto: Pedro Bispo

O ROMANTISMO BRASILEIRO

Este fenómeno de resistir à reforma e regressar aos relvados está longe de ser inédito. Cruza gerações, continentes e alimenta-se sempre do mesmo combustível, a paixão que não deixa que a chama se apague.

O mundo espanta-se que a vontade de um gaúcho fazer a diferença e ajudar o Ravenna a crescer, nem que para isso vá buscar as chuteiras que tinha pendurado e não pensava voltar a usar em situação que não fosse simplesmente de lazer, de puro prazer.

E esse é hábito que no Brasil não é de todo estranho. Se recuarmos no tempo, lendas como Roberto Rivelino, o mestre do elástico e campeão do mundo em 1970, testaram os limites da longevidade ao espalharem magia no futebol saudita quando muitos já anteviam o fim.

Mais recentemente, o exemplo mais flagrante e mediático foi o de Romário. O ‘Baixinho’, com 58 anos e na qualidade de presidente do America do Rio de Janeiro, inscreveu-se oficialmente nas competições em 2024. O tetracampeão mundial foi movido por um duplo desejo: ajudar financeiramente o clube do coração através do impacto mediático e realizar o sonho de partilhar o relvado de forma oficial com o seu filho, Romarinho.

«Não vou disputar o campeonato inteiro, mas o meu objetivo é bem claro: quero jogar alguns minutos com o meu filho e ajudar o meu clube. Para quem marcou mais de mil golos, a bola é como respirar», afirmou Romário ao justificar o inesperado regresso.

Recuando um pouco mais o genial doutor Sócrates atravessou o oceano e também ele interrompeu a reforma competitiva.

O lendário camisa 8 da Seleção Brasileira de 1982 tinha dito adeus aos estádios em 1989, mas em 2004 (com 50 anos), aceitou um convite considerado bizarro à época e assinou contrato de um mês como jogador e treinador do Garforth Town, clube semiprofissional da 10.ª divisão da Inglaterra.

E na história do clube resiste o dia em que o clube defrontou o Tadcaster Albion. Uma multidão foi ao estádio, nunca se tinha visto nada assim. Sócrates jogou 12 minutos, havia mais gente fora do que no modesto recinto e o recorde resiste até hoje.

E sim, a hstória pode repetir-se e assim foi com Roberto Carlos, um dos melhores laterais-esquerdos da história do futebol mundial, que no Real Madrid foi muito feliz ao lado de Cristiano Ronaldo.

Em 2015 abandou, foi homenageado pela carreira incrível, mas em 2022, com 48 anos, um clube amador de ‘futebol de domingo’ (Sunday League) chamado Bull in the Barne United (nome de um pub em Shropshire) venceu uma rifa beneficente no eBay chamada Dream Transfer (Transferência dos Sonhos).

O prémio era ter Roberto Carlos a jogar uma partida oficial por eles. O craque viajou, jogou, marcou um golo de penálti e ainda foi com os companheiros comemorar no pub.

Paul Scholes com 11 títulos: Premier League - 11
Paul Scholes com 11 títulos: Premier League - 11

CRUYFF, SCHOLES, ROBBEN…

O Eterno Nelson Rodrigues, cronista, dramaturgo e jornalista brasileiro dizia que no seu país o futebol é… muito mais do que futebol.

«O brasileiro joga futebol como quem dança. Ele bota uma ginga, uma malandragem que nenhum europeu tem. O futebol no Brasil não é esporte, é drama, é paixão, é religião», esta frase, assim mesmo, em português com açucar mostra bem esta ideia.

Mas na Europa, a tentação de regressar após o adeus também já seduziu alguns dos maiores nomes da história do futebol, muitas vezes para resgatar os clubes do coração em momentos de aflição.

Johan Cruyff, após anunciar o adeus aos relvados aos 31 anos resistiu e assim o génio neerlandês — dos maiores que o mundo já viu… — ainda disse sim a convite dos Estados Unidos e, mais tarde, regressou à Europa para ser campeão pelo Ajax e pelo rival Feyenoord.

De Inglaterra história de outro nome grande, de Paul Scholes, muito mais que um fantástico médio, alguém que lia o jogo com a mestria de poucos ao longo da história. Em 2012, Sir Alex Ferguson convenceu o "Ruivo" a deixar a reforma a meio da época para salvar o meio-campo de um Manchester United, fustigado por uma crise de lesões.

«Sempre fui muito claro, desde que parei de jogar, que sentia falta disto. Estou muito feliz por o treinador sentir que ainda posso dar um contributo para a equipa e estou ansioso por fazer a minha parte para tentar trazer mais sucesso a este grande clube». Afirmou Paul Scholes sobre o célebre regresso a Old Trafford.

«É fantástico que o Paul tenha tomado esta decisão. É sempre triste ver grandes jogadores terminarem as suas carreiras, especialmente quando o fazem cedo. Mas ele manteve-se em excelente forma e sempre senti que ele tinha mais uma época dentro dele. É maravilhoso tê-lo de volta», afirmou dias mais tarde o lendário treinador do Manchester United, Alex Ferguson.

Arjen Robben, que foi jogador de José Mourinho no Chelsea, estava já reformado quando em 2020 o Groningen, clube onde deu os primeiros passos. Mergulhou numa profunda crise acelerada pela pandemia do Covid-19. O extremo canhoto disse presente e lá voltou aos relvados com a camisola de sempre.

Wojciech Szczesny de 35 anos é guarda-redes do Barcelona, esta época disputou 10 jogos pelo clube espanhol FOTO: IMAGO

SZCZESNY, UM CASO DIFERENTE

Se o regresso de Ronaldinho encerra um acidente romantismo, há casos em que o regresso é ditado por necessidades do futebol de elite. Foi assim com Szczesny, prestigiado guarda-redes polaco tinha anunciado o fim definitivo da carreira no verão de 2026, logo após rescindir contrato com a Juventus, mas não resistiu ao apelo de um gigante como o Barcelona.

A grave lesão de Ter Stegen obrigou o clube catalão a procurar soluções imediatas e de garantias no mercado de jogadores livres. Confrontado com o apelo institucional de um colosso europeu, Szczesny não conseguiu dizer que não, muito pressionado pelo compatriota e amigo Robert Lewandowski.

«Eu estava feliz na minha reforma, mas há convites aos quais é humanamente impossível dizer não. O Barcelona é uma daquelas instituições que, quando te chama, tu simplesmente tens de arrumar as malas e ir», palavras que usou para explicar a reviravolta na vida e na carreira.

Comum a todas estas lendas é a evidência de que o retângulo verde é o único lugar no mundo onde o tempo parece, de facto, trazer a mais firme felicidade.

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