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O estatuto de Ronaldo, a nova posição de Félix e Leão e a discórdia com Luis Enrique: tudo o que disse Jesus

Selecionador nacional apresentou a sua primeira lista de convocados sem grandes novidades em relação ao Mundial e a Roberto Martínez

— Há quatro novidades nesta sua lista. Gostava de perguntar porquê estes nomes: Samuel Soares, Nuno Tavares, João Palhinha, Fábio Silva? O que é que podem trazer e se são uma ajuda para podermos ver já a colocar o seu próprio cunho nesta seleção de Portugal?

— Nestes primeiros jogos é um pouco as duas questões. Primeiro, dos quatro, o Fábio Silva foi o único que não trabalhou comigo. Os outros três já trabalharam comigo: Samuel Soares, João Palhinha e Nuno Tavares. Portanto, são jogadores que já me conhecem e que eu também já conheço. Para além disso, são jogadores na faixa dos 20 e poucos anos. Quer dizer que em 2030 são jogadores que ainda não chegaram aos 30 anos. São jogadores do presente e do futuro e, principalmente, pelo aquilo que neste momento estão a fazer nos seus clubes.

— Quando foi apresentado, disse que esta seria uma Seleção bastante diferente da que até aí existia com Roberto Martínez. Pergunto se vai privilegiar, do ponto de vista tático, o 4x4x2 com um atacante/enganche no apoio ao ponta de lança, como utilizou quase sempre nas suas equipas. E relativamente a Cristiano Ronaldo, ele está convocado: conta com ele para a Final Four da Liga das Nações ou ainda olha mais para a frente também?

— A minha ideia, como é óbvio, cada treinador tem as suas ideias de jogo e, como é normal, eu tenho as minhas para a gente poder ter as nossas ideias de jogo.

António Silva ficou de fora novamente da convocatória. O que é que falta a este jogador para poder integrar este leque? E, em relação ao Fábio Silva, se tem sido a prestação no Dortmund que o catapultou agora para esta Seleção Nacional?

— Tem vários fatores, mas vamos começar pelo António: como vocês viram, só convoquei quatro centrais. O António poderia ser um dos quatro, mas optei por dar continuidade aos mesmos. Dois dos quatro centrais já trabalharam comigo, o que é muito importante para mim: o Tomás Araújo e o Rúben Dias. Os outros dois são jogadores que vão começar a trabalhar comigo. O António [Silva] também seria um desses jogadores, portanto optei por dar continuidade aos outros dois que já estavam na seleção. Quanto ao avançado, o Fábio Silva tem características e umas condições diferentes de todos os outros avançados. O Gonçalo Ramos, até o próprio Cris [Ronaldo], são jogadores que — se calhar o que vou dizer tecnicamente você não vai perceber — não sabem puxar o jogo. Entre os outros dois avançados que também podiam ser, como o André [Silva] e o [Gonçalo] Paciência, ele é um dos jogadores que tem características completamente diferentes. Além disso, tem 24 anos, então pode vir a ser titular. Todos os que estão convocados podem ser titulares.

— O João Palhinha foi convocado e recordo-me que o João Mário, quando jogou pela Seleção no Estádio de Alvalade, foi muito assobiado. O que é que diz aos portugueses que vão estar em Alvalade? Teme que o jogador seja assobiado? Já agora, foi noticiado que tentou convencer Rafa [Silva] a voltar à seleção. Confirma?

— Eu estou a convocar os jogadores para a Seleção portuguesa, não estou preocupado se eles jogam no Benfica, no Sporting ou em qualquer clube. Aquilo que os caracteriza em relação à minha escolha é a qualidade do momento e a qualidade do jogador. A que clube pertencem não é importante para mim. Eles estão lá para representar Portugal. Relativamente ao Rafa: os 25 jogadores que estão convocados foram aqueles em quem pensei. Não tive conversa com nenhum jogador particularmente sem ser com aqueles que fizeram parte da Seleção no último Campeonato do Mundo. Portanto, não tive conversa nenhuma com o Rafa.

Jorge Jesus, selecionador nacional - foto: A BOLA

«Se não tiver rendimento, Cristiano Ronaldo não joga»

— Que papel é que espera do capitão da Seleção? Sempre que corre algo mal, como no Mundial, a culpa é do Cristiano Ronaldo. Como é que consegue fazer com que isso não aconteça agora?

— O desempenho dele, como o de todos, e o passado não conta em termos do historial que tem — conta, mas o desempenho é que me vai dizer quais as decisões que tenho de tomar nos jogos e nos treinos. Nesta convocatória estão 13 jogadores que já trabalharam comigo. Isso ajuda porque a equipa vai começar a jogar e esses jogadores foram importantes para a minha escolha. Voltando ao Cris: o Cris é um jogador como todos os outros. Tem rendimento, joga; não tem rendimento, não joga. É assim que faço com todos. Não é por ser o Cris. Agora, o Cris tem um estatuto diferente, tem cinco Bolas de Ouro, mas isso conta para as minhas decisões? Não conta nada, zero.

— Quando é que vamos poder ver a Seleção a jogar à sua imagem? E que diagnóstico faz ao futebol português após ter visto vários jogos ao vivo?

— A consciência que tenho é de que tenho de acelerar o processo para que os jogadores se possam identificar mais facilmente com aquilo que quero. Acelerar o processo tem várias componentes, não é só o treino de campo: eu tenho treino de campo e treino de sala. Não faço palestras com os jogadores, faço treino de sala e treino de campo. Depois acredito muito na inteligência e qualidade dos jogadores. Em relação a analisar jogadores ao vivo, a ideia foi exatamente em função daquilo que pudemos ver e dos ajustamentos que acho que posso fazer com estes jogadores em função das minhas ideias.

— Esta convocatória parece muito semelhante à do Mundial, apenas com quatro novidades. O que é que se passa com jogadores jovens como Rodrigo Mora, Flávio Gonçalves ou Mateus Fernandes? Parece que não quer uma renovação.

— É verdade que há quatro novidades em relação à última convocatória, mas o facto de estarem a grande maioria dos mesmos jogadores não tem nada a ver com a ideia que o treinador anterior tinha. Uma ideia era a dele, eu tenho outra completamente diferente. Tenho falado várias vezes com o meu colega da seleção Sub-21, o Luís Freire, e achei por bem que, neste momento, para esses jogadores mais jovens ainda não é a oportunidade deles. O que me interessa é o presente e o futuro.

— Como é que vai gerir o meio-campo? Nas suas equipas costuma usar um 4x4x2 com um '6' mais posicional. João Neves consegue fazer essa posição ou Palhinha entra de caras para o 11?

— Não vou dizer quem vai jogar, senão fica a saber primeiro do que os jogadores. As minhas equipas normalmente têm um médio mais posicional que tem de ter conhecimento do jogo nas duas fases, ofensiva e defensiva, e tem muita responsabilidade tática. Falou aí do Palhinha e não falou do Rúben Neves, que é um jogador que também faz essa posição e bem. Tens de ter um modelo de jogo, um modelo de jogador e depois outro modelo que é o modelo de treino.

— Teve muitas dúvidas para construir esta primeira lista e olhou para a lista do Mundial para procurar respostas?

— Olhei para a lista que esteve no Mundial e olhei também para a qualidade dos jogadores que Portugal tem presentemente. Olhei para aqueles que não estiveram no Mundial e quem poderia escolher que entrasse dentro das características e da ideia de jogo que pretendemos para a Seleção.

Jorge Jesus, selecionador nacional de Portugal - foto: A BOLA

«O João Félix, comigo, até pode ser primeiro avançado. Mas nunca será para uma ala»

— O que é que jogadores como João Félix e Rafael Leão podem acrescentar e se podem ter outro protagonismo no seu modelo?

— O João Félix tem mais características que entram dentro da minha ideia de jogo. O João Félix comigo não é para jogar numa ala. O João vai ser sempre um segundo avançado ou um primeiro avançado. Aliás, com o tempo, o João Félix vai ser um primeiro avançado, não tenho dúvidas nenhumas: tem muita qualidade de finalização e criação em espaços curtos. O Rafael Leão, enquanto fui treinador dele, nunca jogou numa faixa, jogou sempre como primeiro avançado. Lancei-o no Sporting contra o FC Porto como primeiro avançado. Isso ajusta-se às características destes dois jogadores, onde posso fazê-los jogar em posições diferentes.

Gonçalo Inácio e Rafael Leão não têm tido muitos minutos ou atravessam momentos menos bons. O que o fez mantê-los? E como viveu estes meses a trabalhar na Federação sem treinar em campo? E falou com Roberto Martínez?

— Não falei com o meu colega Roberto Martínez. A mudança para a seleção não é complicada para mim porque continuo todos os dias aqui na Federação a trabalhar com a minha equipa técnica a criar ideias. Quanto ao Rafael Leão, é um jogador que conheço perfeitamente. Em relação ao Gonçalo Inácio: vocês dizem que ele não está num período bom, mas a minha opinião é diferente. Eu caraterizo os jogadores pela qualidade. Acredito nas características do Inácio e acredito que ele comigo vai jogar bem.

— O que é que Jorge Jesus já trouxe e vai trazer de novo a esta Seleção? E o facto de ver jogos da Liga portuguesa com apenas dois ou três jogadores portugueses em campo é preocupante?

— Não é muito preocupante ter dois ou três portugueses em campo porque o grande problema seria se não tivesses qualidade na formação, e Portugal tem muita qualidade de formação. Se não jogam no campeonato português, jogam fora. Quanto ao que vou trazer: vou tentar que a seleção consiga ter alguma modificação de ideias de jogo dentro deste espaço de tempo. Vamos ter de saber corrigir com os jogos, faz parte do processo.

— Não sentiu a necessidade de falar com João Palhinha ou com Cristiano Ronaldo antes de divulgar a convocatória?

— Decidi aquilo que acho que é o melhor para a Seleção. Quanto ao João Palhinha, achei que não tinha nada de falar com ele e não falei, já foi meu jogador. O Cris é um jogador com quem também não preciso de falar muito porque ele conhece as minhas ideias e eu conheço as dele, trabalhámos um ano juntos. Não havia razão para falar particularmente com nenhum dos dois.

— As suas equipas caracterizam-se por laterais muito ofensivos. Com Nuno Tavares e os restantes convocados, essa tendência é para manter?

— Temos quatro laterais ofensivamente muito fortes. Mas não se pode olhar para o jogo só para a frente, a maior parte do tempo os jogadores estão sem bola. Por exemplo, o Nuno Mendes no PSG não é usado como lateral ofensivo, é o terceiro jogador que dá o equilíbrio à equipa e só ataca em momentos concretos porque o treinador dele, o Luis Enrique, pensa assim. Eu já vejo o jogo de uma maneira diferente e com o mesmo jogador. Tem tudo a ver com a ideia do treinador.

— Como compara a qualidade do futebol jogado em Portugal com o da Arábia Saudita neste momento?

— A grande maioria dos convocados não joga no campeonato português. Quanto mais qualidade de jogadores tens, mais fortes são os campeonatos. Tivemos ontem um exemplo: o Torreense, da Segunda Divisão, ganhou a uma equipa da Noruega. Isto transmite que a qualidade do nosso futebol é muito forte. Mas como selecionador nacional, tenho de estar preocupado é com a Seleção.