O espírito da letra (e mais)
O futebol, por ser um jogo de pouca memória (ou talvez melhor: de uma memória seletiva, por vezes a deixar-se resgatar pelo sortilégio súbito de um sopro divino…), embrulha-se, amíude, em injustiças assim: ao falar-se da Argentina que Maradona levou a campeã do mundo (no México-1986) através da mão de Deus - é de Maradona que se fala, quase sempre, tão só. OK, de Jorge Valdano também não deixa de falar-se mas pelo do encantamento com que ele vai transformando o seu futebol de agora em poesia, nas crónicas em que faz com a palavra o que Maradona fazia com a bola. E assim vão os demais campeões sendo cobertos por, mais ou menos, diáfanos véus de esquecimento. É o caso do Borghi, o Bichi Borghi que, amiúde, abria bocas de espanto em passes de letra - os passes de letra que, certa dia, explicou assim, desconcertante (ou se calhar não):
— Fazer um passe de letra não é um luxo raro, nem é demonstração de alta qualidade, é simplesmente eu estar a declarar assim que a outra perna não serve para nada.
A frase (ao melhor jeito de Jorge Valdano) tornou-se (pelo menos para mim) metáfora do que o futebol deve ser para ser um futebol melhor: deixar que os jogadores tenham, com a sua esperteza (ou a sua malícia) uma perna sempre pronta a soltar-se da sua cabeça - não para mostrarem num passe de letra (mesmo não sendo um passe de letra) que a outra perna não lhes servia para nada mas para mostrarem que há sempre, ao seu dispor, forma de encontraem a perna que lhes sirva para tudo...
Vendo isso no Nuno Santos, contra o Boavista (tendo-o visto, contudo, já por outras vezes em iguais enlevos) - naquele golo que lhe pode vir dar o Puskas, vi-lhe mais. Vi-lhe o luxo raro e a demonstração de alta qualidade (sem que lhe visse,obviamente, o declarar de que a outra perna não lhe serviria para nada) - e o que ainda mais lhe vi, o que ainda mais fascinante lhe vi, foi uma outra coisa (para além do Borghi): o Panenka a insinuar-se em si.
Aconteceu na na final do Euro-76, entre a Checoslováquia e a RFA, no desempate por penáltis: com Sepp Meier a cair, impotente, para dentro de inferno a abrir-se à sua esquerda, Panenka pôs-lhe, picada, a bola a fugir-lhe, por cima dos dedos, para dentro de imortalidade feita de um instante de assombro. Esse penálti à Panenka, mais do que um pontapé provocador e sublime tornou-se, para mim, metáfora ainda mais arrebatante do que a do Borghi - a mais perfeita metáfora (para o futebol e a vida) do génio em ousadia, sinal e espírito do esplendor e da audácia a saltitar do ilusionista que só alguns jogadores têm dentro das chuteiras, em fervor - como ele, o Nuno Santos. E por ser assim é que ele fez, claro, o que fez ao Bracali…
Sim, o Nuno Santos fez o que fez ao Bracali por ter no seu espírito o Panenka a tentá-lo, a iluminá-lo. E por, sobre isso, ele, o Nuno Santos, nunca deixar de viver, no campo, com duas daquelas ideias que Jorge Valdano lança (polvilhadas com a sua poesia em prosa) a bailar-lhe dentro da sua cabeça (da cabeça que não tira dos pés em flor) sempre que entra num campo de futebol. Uma é aquela em que Valdano afirma:
— Ganhar todos nós queremos, mas apenas os medíocres não aspiram à beleza também...
e, a outra é aquela em que Valdano ainda puxa mais por aquilo que não se deve perder do sentido do jogo para que o jogo tenha melhor sentido:
— ... no futebol, é sempre sinal de banalidade um jogador fazer sempre aquilo que parece que vai fazer...
Fuga à banalidade foi, claro, o que Nuno Santos fez quando fez o que fez ao Bracali -sem sussurro sequer a declarar que foi por achar que a outra perna não lhe serviria para nada). Aspirar à beleza do gesto ou do golpe foi igualmente o que Nuno Santos fez no que fez ao Bracali. E fê-lo porque é como é: por ter no espírito da sua letra, o espírito malandro do Panenka - fê-lo porque tem, nos seus prodígios, o craque que se faz das principais virtudes que os poetas têm: a criatividade, a fantasia e o coração. E tem piada: antes de lhe ver esse golo (que lhe pode dar o Puskas) já eu o imaginara assim...