A literatura epidemiológica atual não estabelece uma relação causal entre a implementação do VAR e a incidência de lesões — Foto: IMAGO
A literatura epidemiológica atual não estabelece uma relação causal entre a implementação do VAR e a incidência de lesões — Foto: IMAGO

Impacto fisiológico das interrupções VAR: uma perspetiva médica emergente

'Mito ou Realidade' é o espaço de opinião de João Espregueira-Mendes, presidente da Sociedade Mundial de Traumatologia Desportiva (ISAKOS), e Jóni Nunes, ortopedista da Clínica Espregueira — Dragão

A introdução do Vídeo Assistant Referee (VAR) constituiu uma evolução relevante na precisão das decisões arbitrais e na proteção disciplinar dos atletas. Contudo, a análise do impacto destas interrupções no contexto fisiológico do jogo permanece escassa, apesar de existirem fundamentos teóricos que justificam a reflexão científica.

O futebol é caracterizado por um padrão intermitente de esforços de elevada intensidade, exigindo repetidas ações de sprint, aceleração e desaceleração, frequentemente, próximas dos limites funcionais do sistema músculo-tendinoso. A eficiência destas respostas depende da manutenção de um estado contínuo de ativação neuromuscular, no qual a temperatura muscular, o recrutamento motor e as propriedades mecânicas tendinosas desempenham um papel determinante.

A evidência fisiológica demonstra que reduções modestas da temperatura intramuscular podem comprometer a capacidade de produção de força e potência, além de alterar a rigidez musculotendinosa e a eficiência do ciclo alongamento-encurtamento. Paralelamente, períodos de inatividade são associados a diminuição transitória da excitabilidade neural e da coordenação intermuscular, fatores reconhecidos na modulação do desempenho explosivo e, potencialmente, na suscetibilidade a lesões.

As revisões VAR introduzem pausas competitivas que podem prolongar-se por vários minutos, frequentemente, após sequências de elevada exigência metabólica e emocional. Durante estas interrupções, verifica-se uma redução progressiva dos parâmetros fisiológicos de ativação, criando uma transição abrupta entre estados de esforço máximo e reinício competitivo, frequentemente, sem oportunidade formal para reativação muscular estruturada.

Estudos sobre estratégias de aquecimento e re-aquecimento em modalidades intermitentes demonstram que breves períodos de atividade neuromuscular, durante interrupções competitivas, podem atenuar perdas funcionais transitórias. No futebol, contudo, a aplicação sistemática destas estratégias é condicionada pelo enquadramento regulamentar e pela imprevisibilidade temporal das decisões VAR.

Contudo, importa salientar que a literatura epidemiológica atual não estabelece uma relação causal entre a implementação do VAR e a incidência de lesões. Ainda assim, a plausibilidade biomecânica e fisiológica sugere que este fenómeno merece investigação prospetiva, particularmente, num contexto em que a densidade competitiva e as exigências físicas do jogo continuam a aumentar.

A evolução do futebol tem sido marcada pela integração de inovação tecnológica orientada para a justiça desportiva. A incorporação de conhecimento fisiológico na análise destas alterações regulamentares poderá representar um passo adicional na promoção da segurança e sustentabilidade do rendimento atlético.