José Mourinho, treinador do Benfica (foto: Imago)
José Mourinho, treinador do Benfica - Foto: IMAGO - Foto: IMAGO

«O Benfica é maior do que qualquer jogador, treinador ou presidente…»

A frase que dá título a esta crónica pertence a José Mourinho, e foi dita na última sexta-feira. Nela está uma verdade que muitos querem esquecer, fazendo de conta de que os cemitérios não estão cheios de insubstituíveis. Com ‘Mou’, tudo indica, a caminho de Madrid, a ‘criança’ está nos braços de Rui Costa

No passado dia 1 de março, José Mourinho declarou-se disponível para prolongar o vínculo com o Benfica durante vários anos, afirmando que o dinheiro não seria problema.

A resposta que recebeu dos encarnados foi um silêncio ensurdecedor, que contrasta com a proposta que o clube da Luz fez, recentemente (a desoras), ao técnico de Setúbal.Portanto, o que podia ter sido uma decisão estrutural da SAD do Benfica de embarcar num projeto consistente de médio prazo, acabou por não passar de uma mão cheia de nada.

A partir de agora, Rui Costa entra na fase mais difícil da sua presidência, a necessitar, como nunca, de resultados desportivos, num momento em que, na verdade, os títulos conquistados não foram tantos (num clube de ecletismo extraordinário) como noutras ocasiões.

Quanto a José Mourinho, alguns considerandos. Na conferência de imprensa de antevisão do jogo com o Estoril, o ‘Special One’ afirmou que «o Benfica é muito maior do que eu. Não há comparação possível. O Benfica é maior do que todos: maior do que qualquer treinador, maior do que qualquer jogador, maior do que qualquer presidente. O Benfica é maior do que qualquer um (...) e nunca se deve preocupar se alguém fica ou se alguém parte.» Esta é uma verdade que todos sabem, mas muitos fazem por esquecer, o que cria situações perversas, para os próprios, e para o clube. Fez bem Mourinho em trazê-la à colação.Provavelmente, os benfiquistas ficarão para sempre com a dúvida daquilo que José Mourinho seria capaz de fazer no clube, se pudesse escolher o plantel e preparar a equipa de raiz. Porém, no futebol não há ‘ses’ e a realidade é que ‘Mou’ vai rumar a outras paragens. E que paragens são essas? Para azia de todos os que procuraram ver no treinador setubalense um produto fora do prazo de validade (o inesquecível António Medeiros tinha, sobre os aprendizes de feiticeiro, uma frase não só lapidar, mas sobretudo impublicável…), o regresso de Mourinho ao maior clube do Mundo, onde o espera uma tarefa hercúlea, como em 2010, aliás, que passa por arrumar a Casa Blanca, talvez os leve a serem mais comedidos, evitando confundir estrutura com conjuntura. José Mourinho é um dos melhores treinadores do futebol mundial, estatuto que possui não em função de um discurso fluente (que o diferencia), mas de resultados palpáveis (que o imortalizam). Bom, como os cemitérios estão cheios de insubstituíveis, a vida continuará, na Luz, já de olhos postos no próximo homem do leme.

Dizem notícias de várias fontes que tenho por credíveis, que Marco Silva é uma possibilidade que terá pernas para andar. Curiosamente, há muitos anos, ainda Marco treinava o Estoril, o Vítor Serpa e eu tivemo-lo como convidado da ‘Quinta da Bola’, na BOLA TV, e no fim do programa recordo-me perfeitamente de lhe ter dito: «Marco, tens tudo para ser o ‘Special Two’». Mas a carreira de Marco Silva acabou por mostrar-nos que ele foi capaz de criar a sua própria identidade, sem copiar fosse quem fosse, chave para um sucesso que o mantém há várias épocas na Premier League. Aguardemos, pois, pelo fumo branco que há de sair da chaminé da Catedral, anunciando o novo Papa.

Até lá, se Rui Costa quiser passar pelas Assembleias Gerais de 27 de junho com danos mínimos, deverá trabalhar bem e depressa, e chegar a esse momento, que praticamente coincide com o regresso aos treinos da equipa principal de futebol, com a casa arrumada, e na posse de argumentos que mantenham acesa a chama do entusiasmo dos adeptos. 

TERMINOU mais uma edição da Liga, com o FC Porto a conquistar o seu 31.º título de campeão nacional. De forma clara, ao ser a equipa mais regular da competição, embora sem atingir nota artística elevada, algo que continua a ser sobrevalorizado por alguns espíritos mais românticos. Estava já a época a decorrer quando tive oportunidade de conversar com Jordan Henderson, figura incontornável do Liverpool (370 jogos, e ainda 89 pela seleção inglesa), que em 2024/25 foi jogador de Farioli no Ajax. Falou-me da excelente impressão pessoal que tinha do técnico transalpino, e da eficácia do seu futebol, atributo que privilegiava relativamente ao espetáculo. O retrato feito por Henderson foi confirmado pelo FC Porto que vimos em 2025/26, prático, resultadista, e absolutamente italiano na filosofia pragmática que colocou dentro das quatro linhas. A competência com que a época foi preparada teve como justo prémio o título nacional.Também o Sporting deverá considerar positiva a temporada que realizou: apurou-se (diretamente, muito provavelmente) para a Champions, é largamente favorito a vencer a Taça de Portugal, e chegou, pela segunda vez desde 1957, aos quartos-de-final da Taça/Liga dos Campeões. Neste final de temporada, para lá do que jogou e das dificuldades por que passou, fica a imagem de um clube com músculo financeiro (30 milhões por Zalazar e o que mais se verá), a querer continuar a subir degraus na escada da ambição.Do Benfica, para já, não valerá a pena falar mais, enquanto que o SC Braga, sem ter feito uma Liga regular (longe dos três grandes, mas suficiente para manter o quarto lugar na hierarquia nacional), teve um comportamento europeu superlativo, revelando um crescimento que raramente se viu dentro de portas. Boas épocas de Gil Vicente e Famalicão (César Peixoto continua a crescer e o futebol de Hugo Oliveira permite pensar que está destinado a voos mais altos), sem esquecer a proeza do errático, na condução, Vitória SC, de Guimarães, ao vencer a Taça da Liga.Na parte de baixo da tabela, o AFS, ex-Vilafranquense, acordou tarde, o mesmo sucedendo ao Tondela. O desenraizado Casa Pia, que irá defrontar no play-off um Torreense com identidade bem própria, não tem por certo continuar entre os maiores. Uma palavra para Petit, que voltou a ser boia de salvação de um clube, desta feita o Santa Clara. E os parabéns ao regresso de Marítimo e Académico de Viseu ao convívio dos maiores.

FALTA falar da arbitragem, que não teve um ano positivo. É minha convicção, - esta fase que o setor vive, não me faz alinhar em teorias da conspiração - que Luciano Gonçalves quis dar um passo maior do que a perna ao promover, de forma demasiado rápida, uma mudança geracional, ao atribuir a árbitros e VAR responsabilidades para as quais não estavam preparados. Provavelmente, a prazo, perceber-se-á que o crescimento desses elementos foi real, mas os custos, em 2025/26, foram maiores do que os benefícios. Também no que respeita à transparência, apesar das classificações serem reveladas, não foi vista, nas nomeações subsequentes, qualquer relação substancial causa-efeito, o que esvaziou as intenções benévolas subjacentes. Creio que este é um tema que deve merecer reflexão dos responsáveis pela arbitragem. Porque o balanço, a meu ver, ficou aquém do que esperava.       

GOSTARIA ainda de deixar uma palavra para o que se segue, o Mundial de 2026. Para resistir aos oito jogos, feitos sob temperaturas absurdas, que os finalistas e semi-finalistas deverão realizar, não chegam onze bons jogadores, será campeão do Mundo quem tiver, entre os 26 convocados, pelo menos duas dezenas de futebolistas de calibre aproximado. A lista que Roberto Martinez vai apresentar terá qualidade e não deverá comportar surpresas, mas mentiria se não confessasse que fiquei impressionado pelos nomes revelados por Didier Deschamps. Principal favorito (num lote de oito seleções, onde está Portugal, que podem sonhar com o ‘caneco’), a França.  

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