«Não temos o dinheiro dos outros, mas sabemos de onde viemos»
O FC Thun sagrou-se campeão da Suíça na época em que subiu de divisão. Da equipa técnica faz parte um português, Nélson Ferreira. Em entrevista a A BOLA, o antigo jogador do clube e agora treinador-adjunto fala de um momento histórico no futebol suíço.
- A conquista do campeonato suíço foi algo que tinham como objetivo ou foi uma surpresa para vocês?
— Quando subimos para a primeira divisão, a nossa ideia foi sempre lutar pelos primeiros seis lugares. Ganhámos os primeiros três jogos e aí o pessoal começou logo a ver que sim, alguma coisa havia nesta equipa. Começámos a acreditar nos jogadores e por isso estamos agora onde estamos.
- O que significa para si este título?
- Significa muito. Nós começámos em 2001, 2002, subimos de divisão e começámos a lutar pela Liga dos Campeões. Fomos à Liga dos Campeões e depois vieram anos difíceis, em que descemos de divisão. Havia pouco dinheiro, não sabíamos se o clube ia continuar porque não havia dinheiro. Foram anos difíceis que passámos, mas agora estamos no topo. Sabemos de onde é que viemos.
- O FC Thun é um dos clubes que tem o menor orçamento na liga suíça. O que tem esta equipa de especial para conseguir destronar os grandes orçamentos?
- Isso foi sempre a nossa motivação e o nosso foco no FC Thun, Não temos jogadores individualistas, temos uma equipa. O Young Boys ou o Servette têm muito dinheiro, são clubes grandes, mas nós somos um clube pequeno, sabemos de onde viemos e somos uma equipa. É isso que nos faz fortes.
- Com este título é inevitável falar do que pode ser uma viragem de chave para o clube. Quais são os próximos passos?
- Claro, estivemos focados nesta época, mas quem viu há 15 anos o estádio com cinco, seis mil espectadores — e nós estávamos na primeira divisão — e quem vê este ano o estádio cheio... Estamos a ganhar muitos espectadores para o futuro, podemos fazer com que as pessoas apoiem mais o FC Thun do que o Young Boys.
- Fez mais de 300 jogos pelo FC Thun. O que é que o fez ter uma carreira tão longa no clube?
- Foi um clube que me ajudou, que me abriu a porta para ser profissional, e que continuou comigo durante muitos anos. Tive momentos que foram difíceis e o clube sempre acreditou em mim. Foi assim que saí uma vez, fui jogar para o Luzerne durante quatro anos, e fui sempre com a ideia de regressar ao FC Thun, porque foi o clube que me ajudou, com o qual continuei a crescer. Foi o clube que me levou à Liga dos Campeões e pelo qual ganhei títulos. Gostaria de continuar a trabalhar e dar aos jogadores coisas que o clube me deu a mim quando era jogador. Por isso eu estou no FC Thun, com muito orgulho.
- Participou na Champions como jogador ao serviço do FC Thun e que marcou a história do clube. Como é que foi ter ido de uma segunda divisão a uma Champions?
- Foi um contraste muito grande, porque a Suíça toda acreditou em nós na Liga dos Campeões. Nós até fomos jogar ao estádio do Young Boys, quando o estádio novo abriu, e fomos a primeira equipa que encheu o estádio do nosso rival. Aí viu-se que o FC Thun fez feliz a Suíça toda.
- Jogou a sua carreira inteira na Suíça. Em algum momento pensou atuar em Portugal? Houve alguma proposta?
- Estive perto de ir para Portugal em 2006 quando joguei a Champions. Lembro-me que tinha a Académica, estavam interessados, fizeram-me um convite, mas nunca foi o clube que eu quis ir em Portugal. Se viesse um clube grande não dizia não, mas nunca veio um clube grande para eu dizer ‘Agora vou para Portugal jogar futebol’.
- Sente alguma mágoa por não ter jogado no FC Porto, o seu clube do coração?
- Uma pessoa sabe o que é que pode e o que não pode, eu nunca fui um jogador desse calibre, eu fui um jogador bom, mas nunca fui um jogador para jogar no FC Porto, gostaria sempre de ter tido a oportunidade de ir para clubes maiores, mas nunca houve oportunidade de sair para um clube maior.
Entrevista de Rafael Pires