Jogadores do Sporting festejam a vitória, por 33-30, na Dragão Arena no último sábado - Foto: Sporting CP
Jogadores do Sporting festejam a vitória, por 33-30, na Dragão Arena no último sábado - Foto: Sporting CP

Não há amoníaco que chegue para tanta sujidade

Devo confessar, contudo, que não consigo perceber como é que a decisão do delegado ao jogo foi a de não cancelar a partida de andebol entre o FC Porto e o Sporting realizada no sábado. 'Verde à vista' é o espaço de opinião de Carmen Garcia, enfermeira, sportinguista, autora do blogue 'Mãe Imperfeita'

Há uns anos, era eu uma miúda, bateram à porta de um vizinho e disseram-lhe que a filha tinha sido apanhada a roubar numa loja dos trezentos. A filha, pouco mais velha do que eu, devia ter uns doze anos naquela altura e o roubo, segundo acusava o dono da loja, tinha sido de meia dúzia de batons. Nada de muito valioso, é certo, mas, ainda assim, um roubo. E numa terra pequena e onde toda a gente se conhecia, o dono da loja, por respeito à família, tinha preferido ir avisar directamente os pais a chamar a GNR. Acontece que o meu vizinho, mal ouviu a acusação, saltou em defesa da filha com gritos de «tenho a certeza absoluta de que a minha filha era incapaz de roubar fosse o que fosse» e, a partir daí, gerou-se o caos. Aliás, só graças à intervenção dos vizinhos que acabaram por vir à rua alertados pela gritaria, é que as coisas não escalaram para o confronto físico.

Quando o dono da loja foi embora, o meu vizinho quase espumava de fúria. E fez questão de avisar a vizinhança de que era melhor que ninguém se atrevesse a falar daquele assunto com a miúda. A verdade é que ainda hoje, trinta anos depois, ninguém sabe se a Cláudia pré-adolescente terá ou não roubado a meia dúzia de batons. Mas o que todos sabemos foi que, naquele dia, o pai teve uma atitude absolutamente miserável.

Reparem, o problema nunca foi defender a filha — até porque essa é uma das funções naturais dos pais. O problema foi a recusa em permitir sequer que se investigasse ou que a filha fosse questionada. Porque uma coisa seria dizer «eu não acredito que a minha filha tenha feito uma coisa dessas, mas vou falar com ela sobre isso« ou «só acredito que a minha filha tenha feito tal coisa se me apresentarem provas». Mas o que esta pai fez foi escolher a posição mais confortável da negação sem perceber que a lealdade não pode jamais transformar-se em cegueira.

E o que vimos estes dias por parte da maioria dos adeptos do Futebol Clube do Porto foi, para mim, um déjà-vu deste episódio de infância. Porque se é verdade que a primeira tendência de qualquer adepto é defender o clube, não é menos verdade que a defesa cega é sempre sinónimo de cegueira voluntária. É que uma coisa é acreditarmos na inocência à partida, outra, completamente diferente, é nem sequer nos questionarmos ou inquietarmos com os factos denunciados. Porque eu posso ter dificuldade em acreditar, mas tenho de deixar, pelo menos, um espaço para o mas: «eu não acredito, mas quero que se investigue porque, a ser verdade, é muito grave.»

Se houvesse acusações de roubo a um dos meus filhos, garanto-vos que a minha reacção instintiva seria não acreditar. Ainda assim, podem ter a certeza de que investigaria tanto quanto pudesse e que, a ser verdade, seria eu a primeira a castigá-los exemplarmente. O mesmo aconteceria com o Sporting: houvesse uma acusação com a gravidade das que o Futebol Clube do Forto tem neste momento em cima da mesa e podem ter a certeza de que seria eu a primeira a exigir que o culpado fosse encontrado e punido com a expulsão do clube.

Reparem, eu acredito totalmente que, neste caso, a direcção do clube possa não ter conhecimento de nada do que se passou. Tanto quanto sabemos até pode ter sido um funcionário do clube, de forma totalmente isolada, a fazer a gracinha com o amoníaco ou produto similar. Mas a direcção do Futebol Clube do Porto tinha de, pelo menos, informar que iria avançar com uma investigação interna e que, a existirem culpados, estes seriam exemplarmente punidos.

Alguém, no seu perfeito juízo, acredita mesmo que a equipa sportinguista, num jogo tão importante para a conquista do tricampeonato, ia pura e simplesmente inventar uma narrativa para entrar em campo sem o treinador no banco e sem um dos seus jogadores? E acham mesmo que a delegada da Federação de Andebol simulou também a crise hipertensiva, os olhos vermelhos e a coriza? Alguém acha mesmo que isto é plausível? Às tantas é como a história da mãe que, no juramento de bandeira do filho, o vê marchar em sentido contrário ao pelotão e diz para a senhora do lado «olha lá, só o meu menino é que vai bem».

De verdade que o amoníaco usado no balneário, sabe Deus com que intenção, devia era ser utilizado para limpar a sujidade que vai contaminando o desporto português. E sim, no contexto actual, perante os últimos acontecimentos, não resta ao Sporting outra alternativa que não seja pedir a intervenção da Ministra da Cultura, Juventude e Desporto. Imagino que as provas existam e, perante elas, alguma coisa terá necessariamente de ser feita.

Já disse, e reitero, que quero muito acreditar que, em relação a esta situação do andebol em particular, a direcção do Futebol Clube do Porto tenha sido apanhada de surpresa. Não imagino, não consigo mesmo imaginar, um monte de homens adultos e teoricamente bem-formados, sentados numa sala de reuniões a fazerem um brainstorming sobre as diferentes formas de prejudicar fora de campo uma equipa adversária. O cenário em que um sugere roubar toalhas ao guarda-redes, outro sugere ligar o ar condicionado na temperatura máxima e outro atira para o ar um «e se os intoxicássemos com amoníaco no balneário?» é de tal forma surreal que não tem cabimento sequer num filme de Buñuel. E é também por isto que ainda me espanta mais como é que o próprio clube não vem a público dizer que vai abrir uma investigação interna.

Enfim, apesar de tudo, dentro de campo, como era de esperar, o Sporting venceu e ficou com o tricampeonato na mão. Aliás, nesta temporada, o Sporting nunca perdeu com o FC Porto na modalidade e já lá vão cinco jogos disputados. Mesmo sem o treinador no banco, mesmo com um jogador ausente e mesmo com a tentativa de condicionamento evidente.

Devo confessar, contudo, que não consigo perceber como é que a decisão do delegado ao jogo foi a de não cancelar a partida. Mas talvez, no final, até tenha sido bom para o Sporting que o jogo se tenha realizado — é que, de outra forma, poderíamos sempre ter de ouvir um «só ganharam porque inventaram e o jogo não foi realizado». Assim, mesmo debaixo de fogo, os jogadores sportinguistas mostraram a raça e deram mais uma prova de que não há par para eles no campeonato português de andebol. Querem uma superequipa? Metam os olhos nesta, por favor.

Agora, parece-me que a federação da modalidade faria bem em realizar uma pausa nas competições e uma reflexão muito séria sobre os acontecimentos do último fim de semana. Porque não há como não sentir que, depois de tudo o que aconteceu, este campeonato de andebol se vai passar a jogar em cima de princípios tão sujos que nenhum amoníaco pode sequer começar a remover.

No pódio
O Comité Olímpico Internacional decidiu finalmente aquilo que há muito se impunha: apenas mulheres biológicas poderão participar nos Jogos Olímpicos de 2028, a realizar em Los Angeles. E isto é uma coisa tão óbvia que é quase surreal que tenha demorado tanto a ser decidida. Porque independentemente da vontade individual de cada um, a verdade é que nascer do sexo masculino dá uma vantagem competitiva em todos os desportos que dependam de força, potência e resistência. E negá-lo é negar a ciência e toda a evidência que a sustenta.
Na bancada
Se Martim Costa agrediu um adepto do Futebol Clube de Porto, tal como acusa o clube azul e branco, então é bom que a Federação e o próprio clube tomem medidas. Porque independentemente das provocações que possam ter existido, absolutamente nada legitima a violência física. E sim, jogadores profissionais têm de saber lidar com a pressão sem resvalar para este tipo de comportamentos que só diminuem o desporto português. E isto vale para todos, independentemente da cor da camisola que envergam.