«Não andamos à procura de investidores para pôr dinheiro no Benfica»
O Benfica apresentou o Relatório e Contas respeitante ao exercício 2025/26, compreendido entre 1 de julho de 2025 e 30 de junho de 2026, e apresentou um resultado líquido positivo de €19,1 milhões.
Nuno Catarino, vice-presidente do Conselho de Administração da Benfica, SAD e vice-presidente do clube, não escondeu a satisfação, em entrevista à BTV.
— Que leitura faz, em termos gerais, dos números apresentados pela Benfica SAD no exercício de 2025/26?
— Eu começaria por destacar aquele que é o principal número, que é termos um resultado líquido positivo de 19,1 milhões de euros. Realço que é o terceiro ano em quatro em que temos resultados líquidos positivos. É o segundo consecutivo em que temos resultados líquidos positivos, o que é sempre uma prova de força e de vitalidade do ponto de vista económico de uma sociedade. Em particular, até num contexto em que começámos a época passada e em que houve um compromisso do presidente de que, apesar do forte investimento que tinha sido feito no mercado passado, íamos ter um resultado tendencialmente positivo, e acaba por ser bastante positivo. Temos aqui um conjunto de resultados recorrentes, aquilo que é mais corrente numa sociedade, em que continuamos, em várias linhas de receita, a bater recordes anuais. Vou começar pelo matchday, que tem um crescimento, sobretudo da componente corporate, bastante expressivo, e continuamos a ter bastante procura no domínio do corporate pelo nosso espetáculo. Temos também crescimento em várias outras linhas de negócio, algum crescimento também na parte dos direitos televisivos, que ainda decorre do contrato anterior que tínhamos com a NOS e que vai continuar com o novo contrato. Ou seja, na parte daquilo que é mais recorrente, temos aqui um resultado bastante sólido.
— Falou do matchday. Esse valor situa-se nos 45,2 milhões de euros. Isso significa que há uma capacidade do Benfica para atrair espectadores de uma perspetiva mais abrangente do que apenas em relação aos jogos em casa.
— Nós também temos aqui vários efeitos. Um: temos tido mais jogos. Isto traz várias pressões nas nossas equipas, mas também temos tido mais jogos nos últimos anos, e não necessariamente no ano passado, que até tivemos menos. Tivemos mais pré-eliminatórias, mas não tivemos oitavos de final. Os oitavos de final, em princípio, valem mais do que as pré-eliminatórias. Mas, em média, tem havido mais jogos. Também tem havido um alargamento do Estádio. Não nos podemos esquecer que já alargámos o Estádio em três mil lugares na época passada, o que se traduziu em maiores assistências, apesar de este aumento de lugares ter sido em lugares de valor económico bastante mais baixo do que a média. Mas tem alguma importância. E depois temos aquilo a que eu já tinha feito referência na introdução. Temos um crescimento no domínio do corporate bastante forte. Também estamos a procurar melhorar o serviço, diferenciar o serviço e, com isso, vamos crescer. Hoje o corporate representa mais de metade da receita.
— A tendência é que, nos próximos exercícios, essa preponderância do corporate continue a crescer?
— A preponderância do corporate vai aumentar porque nós temos... Por exemplo, neste ano, uma grande percentagem dos Red Pass, nomeadamente o Red Pass Total, não tiveram aumentos. Depois houve aumentos nos Red Pass normais, de 2,5%, acompanhando a inflação, e houve algumas reclassificações nas zonas do Estádio, o que para alguns sócios com Red Pass são valores diferentes. Mas, em média, 70% ou 80% dos Red Pass não tiveram sequer aumento. Ou seja, é uma estabilização dessa receita. Do lado do corporate, temos tido crescimento em número, bastante reduzido, porque ainda não tem havido uma expansão significativa das áreas corporate. Isso é uma fase posterior do nosso projeto de expansão. Quisemos começar pelos sócios e por essas zonas, começámos por aí. Mas vamos continuar a ter crescimento e vai haver preponderância, como é normal noutros mercados. Isto não é específico do Benfica. O Benfica é um produto do povo, essencialmente, e, se queremos fazer crescer a receita, temos de procurar alternativas para a fazer crescer.
— O resultado líquido é positivo, são 19,1 milhões de euros. Depois o resultado operacional positivo é de €32,4 milhões. Como é que pode explicar-se esta diferença dos números?
— O resultado operacional que é apresentado é o resultado operacional com direitos de atletas. Ou seja, é o resultado antes de duas componentes importantes: uma que são os resultados financeiros e a segunda que são os impostos, neste caso apenas o IRC. Os outros impostos já apareceram muito antes nestas contas. É também uma componente importante: os nossos custos financeiros têm baixado todos os anos e temos melhorado a nossa posição financeira, não só pela estabilização, neste ano até com uma redução da dívida líquida, mas também por taxas moderadamente mais baixas. Agora é um caminho que neste ano provavelmente vai inverter-se, porque as taxas têm vindo a subir de uma forma bastante significativa. Mas, até ao ano passado, tínhamos conseguido financiar-nos cada vez em condições mais vantajosas,o que faz com que, de facto, tenhamos aqui resultados positivos, olhando de todas as formas e feitios.
— O que deixa os responsáveis da SAD num estado de relativa tranquilidade?
— Sim. A tranquilidade de uma sociedade como a do futebol vê-se sobretudo pelos capitais próprios. O Benfica está com 135 milhões de capitais próprios. Subiram e já no ano passado tinham subido. É o segundo valor mais alto da história do clube e o primeiro foi na sequência de uma venda recorde de 120 milhões, já há muito tempo, em que, de facto, nessa altura, fez com que os capitais próprios estivessem temporariamente acima deste patamar. Mas este é um valor bastante alto. Aliás, é um valor bastante alto para o contexto europeu. Este é o primeiro controlo que a UEFA faz em termos de financial fair play, é o nível de capitais próprios. No caso do Benfica até são mais de 135 milhões, porque, como a Benfica Estádio é uma entidade autónoma, temos de somar a Benfica Estádio, que também tem capitais próprios positivos, e estamos a falar de capitais próprios positivos relevantes, acima dos 180 milhões de euros, que é um número muito confortável. Não há muitos clubes na Europa que tenham este nível de conforto, incluindo na Premier League. — É inevitável fazermos aqui uma conta, que é olhar para os rendimentos operacionais e para os gastos operacionais, sem os direitos dos atletas, e o número que dá é negativo: são 15 milhões de euros negativos. Mas isto vai ao encontro daquilo que é a realidade do futebol, tirando algumas exceções. Isto significa que o Benfica, como tantos outros clubes, a maioria, diria, continua a precisar de vender jogadores?— É isso. Mas vamos começar pelas exceções. Estamos a falar da Premier League, onde um clube que sobe de divisão consegue investir 300, 400 milhões de euros. E a média dos clubes há-de andar por estes valores. Mais os mercados do Oriente, mais três clubes em Espanha, um clube em França e um clube na Alemanha. Todos os outros clubes da Europa, tirando algumas situações esporádicas, estão mais vendedores do que compradores. E tem sido essa a dinâmica do futebol europeu.
Não há muitos clubes na Europa que tenham este nível de conforto, incluindo na Premier League.
— Aliás, diz-se que Portugal é um país exportador e também tem muito que ver com estas realidades dos clubes.
— E também há aqui uma questão: em Portugal, e o Benfica é o melhor exemplo disso, também se investe muito na formação. Quer dizer, podemos dizer que todo o dinheiro que gastamos na formação equivale a uma contratação de atletas todos os anos. Aí já o resultado seria positivo. Nós investimos mais de 15 milhões de euros em formação todos os anos. Ou seja, temos aqui várias dinâmicas que às vezes tornam esta leitura dos números uma leitura que tem de ser enquadrada. Mas eu acho que, apesar de tudo, é um resultado positivo. Como eu costumo dizer, o teste do algodão acaba por ser o capital próprio de uma sociedade que é auditada. E isto que nós temos aqui e que ressalta o facto de termos capital próprio largamente positivo. Temos, em muitos anos, também outra rubrica: resultados transitados positivos. Ou seja, na prática, o acumulado dos resultados da sociedade até hoje é positivo. Também lhe vou dizer que deve haver para aí 2% dos clubes europeus que conseguem ter esta métrica positiva. Isto vem muito desta necessidade e da situação específica do Benfica, que é: nós vivemos com o dinheiro que temos. Não fazemos aumentos de capital, não andamos à procura de investidores para pôr dinheiro no Benfica. Vivemos com o que temos. Às vezes com alguma engenharia, às vezes com algum engenho, às vezes com alguma dificuldade, mas é assim que trabalhamos, de uma forma profissional, para manter a solidez da sociedade.
Não fazemos aumentos de capital, não andamos à procura de investidores para pôr dinheiro no Benfica. Vivemos com o que temos. Às vezes com alguma engenharia, às vezes com algum engenho, às vezes com alguma dificuldade, mas é assim que trabalhamos.
— Nos capitais próprios, o Benfica teve um crescimento de 16,5%.
— Todos sabemos, partimos para uma época que vai ser particularmente exigente. Fizemos investimentos no futebol e, se calhar, até vendemos menos do que vendemos em épocas passadas. Ou seja, houve aqui uma aposta na manutenção ou crescimento da competitividade desportiva, num ano em que não temos Liga dos Campeões. E estamos sempre a falar de 30, 35 milhões de diferença. Ou seja, vai ser um ano desafiante em todos os sentidos, mas também podemos partir de uma situação positiva de capitais próprios. Para isso é que também servem os capitais próprios, porque temos a consciência de que este ano é excecional por esta combinação de fatores. A realidade do Benfica, aliás, olhando para trás, é todos os anos estar na Liga dos Campeões. Voltaremos seguramente no próximo ano à Liga dos Campeões e haverá alguma normalidade para o futuro. Agora, era importante termos aqui uma base de capital que nos permita absorver os choques momentâneos, digamos assim.
Voltaremos seguramente no próximo ano à Liga dos Campeões e haverá alguma normalidade para o futuro.
— Há a racionalidade de reconhecer que se está na Liga Europa, mas não há alarmismo?
— Como digo, temos de ser sempre otimistas e sempre preocupados com tudo. Estamos otimistas em relação à parte desportiva e preocupados com várias coisas que temos de trabalhar. É para isso que cá estamos. — As transmissões televisivas, de acordo com estes números do exercício 2025/26, chegaram aos 55 milhões de euros anuais. Teremos nova realidade em função destes dois anos. Há alguma preocupação para o que aí vem, no que diz respeito à ideia de centralização? E como está a petição que está no Parlamento?— Excelente pergunta. Esses valores refletem ainda o contrato anterior, porque o novo contrato só começa nesta época. Também o valor de 55 milhões inclui uma componente de publicidade estática, que são cerca de 3 milhões, 3 milhões e meio, que não entram no contrato da NOS. Ou seja, não é especificamente um contrato de direitos televisivos, mas, obviamente, a grande maioria do valor decorre do contrato televisivo e, nos próximos dois anos, até estamos relativamente protegidos, porque temos um crescimento previsto por via do contrato que fizemos. Agora, о futuro deixa-nos muito preocupados, como temos dito várias vezes, como tem dito o presidente, como tenho dito eu, quer em sede da Liga, quer nos fóruns adequados. O facto de lançarmos esta petição é exatamente porque achamos que estamos a seguir uma receita de há 10, 15 anos, para uma realidade que já não é, de todo, a de há 10 ou 15 anos. Achamos que este projeto de centralização tem algumas pechas, é anacrónico, está desadequado. É tão desadequado que os grandes exemplos que sempre eram dados eram o mercado holandês e o mercado italiano, e vimos que são dois mercados que estão a decair profundamente. Basta olhar para o que é hoje o Calcio comparado com aquilo que já foi. Estávamos a ver o jogo Juventus-Milan e já só há um jogador de nível… Depois podemos discutir isso, mas já começa a perder alguma qualidade relativamente àquilo que era há 20 ou 30 anos.
Achamos que este projeto de centralização tem algumas pechas, é anacrónico, está desadequado.
— E os direitos televisivos em França, por exemplo, caíram abruptamente.
— Quando falamos com os clubes franceses, percebe que há uma realidade que é um clube, que é uma ilha, e depois temos a realidade de todos os outros clubes, que vivem dificuldades tremendas. Ou seja, em Portugal tínhamos aqui pelo menos o mérito de, quando negociámos separadamente, haver apostas, por exemplo, neste canal [BTV]. É uma aposta que decorre de uma situação de contexto que foi feita e que é única no mundo. Temos aqui várias situações únicas em que a inovação nos trouxe valor e, subitamente, parece que queremos mandar toda a inovação que fizemos nos últimos 10 anos fora e vamos seguir um modelo que já não funciona. Isso deixa-nos, de facto, preocupados. Estaremos cá sempre para melhorar o produto. Acreditamos profundamente que, para a larga maioria dos clubes em Portugal, até centralizar, juntarem-se e negociarem os seus direitos de uma forma agregada faz todo o sentido. Agora, não acreditamos que faça sentido para todos fazer tudo igual e depois montar uma chave artificial que, em boa verdade, também não reflete aquilo que é a componente social do produto na sua dimensão, que vai para além do futebol, em que também entra aquilo que é o peso. Não tem isso em consideração e chegamos a uma solução que não vai ser boa para ninguém e vai ser penosa para todos. É uma situação em que nós não acreditamos que o bolo vá aumentar. Acreditamos que o bolo vai diminuir. Já dissemos isso várias vezes. Ou seja, vai ser menos para dividir pelos mesmos. Vai ser penoso para todos e vai ser muito mais penoso para o Benfica, se [a centralização] avançar, e nós acreditamos que ainda é possível inverter a situação, porque, ainda por cima, vão penalizar aquele que foi o clube que mais inovou na componente do produto, o que é uma coisa que não faz sentido. Isto é quase penalizar o mérito, o arrojo de lançar um canal de televisão, de distribuir o seu próprio produto de uma forma que mais ninguém faz no resto do mundo. Isto é bastante pernicioso, para usar uma palavra moderada, e nós vamos combatê-lo. Quanto à petição, ela tem várias componentes. Há a parte do Parlamento, onde já cumprimos, há algum tempo, logo no início, o número mínimo de assinaturas para ser discutida em plenário, que era o nosso primeiro objetivo. Também temos arecolha de assinaturas no Estádio, nas Casas do Benfica, temos a recolha de assinaturas em vários meios. Acho que vamos ter um grande número de sócios preocupados. É um tema complexo. Para a maioria dos adeptos tem alguma complexidade. Às vezes não fazem um esforço, ou não sentem que têm de fazer um esforço, para entender. Às vezes acham que é para daqui a dois anos. Às vezes acham que é inevitável. Mas, mesmo assim, achamos que vamos ter um muito bom número de adeptos. E não apenas adeptos do Benfica, mas também de outros clubes, que vão perceber que temos de arranjar modelos novos para este produto. Primeiro, é preciso valorizar o produto. É preciso fazer o trabalho de casa que estava pensado fazer há 7 anos e que não foi feito. Estamos a começar uma casa pelo telhado, sem fundações, sem nada, e o resultado antevemos que, se não se parar agora, não vai ser bom.
Primeiro, é preciso valorizar o produto. É preciso fazer o trabalho de casa que estava pensado fazer há 7 anos e que não foi feito. Estamos a começar uma casa pelo telhado, sem fundações, sem nada, e o resultado antevemos que, se não se parar agora, não vai ser bom.
— Qual é a explicação que consegue dar rapidamente para a subida do ativo e do passivo?
A explicação é muito simples. Começando pelo ativo, fizemos um mercado, no ano passado, em que realizámos investimentos importantes — e também fizemos alguns desinvestimentos importantes. Naturalmente, em qualquer clube de futebol, dá uma inflação dos dois lados da equação. Aliás, o passivo neste ano passa os 500 milhões de euros pela primeira vez. A dívida líquida, que é talvez a métrica mais interessante, baixa, porque, de facto, arranjámos capacidade de realizar muitos dos investimentos que já tínhamos feito no passado e de receber esse dinheiro. Por isso, não precisámos de mais dinheiro, e também reflete o resultado positivo. Mas o ativo também sobe. O ativo não só ultrapassa os 600 milhões, como ultrapassou desta vez os 650 milhões. Ou seja, não andámos entre os 600 e os 650, fomos logo para cima dos 650. Eu acho que isto tem muito que ver com o crescimento do clube. Em boa verdade, até posso dizer que, se tivéssemos o Estádio — porque a maior parte dos clubes inclui o seu próprio estádio e nós temos uma empresa à parte —, então o ativo já seria de cerca de 800 milhões de euros e o passivo já seria de 620, 630 milhões de euros, se combinássemos as duas entidades. Ou seja, isto tem que ver com o crescimento da sociedade. O crescimento da sociedade vai trazer um crescimento do ativo e do passivo. O primeiro teste do algodão é: o capital próprio está sólido? Está. Está a aumentar? Está. Depois olhamos para a dívida líquida, porque acaba por ser a dívida que nós temos de remunerar. Tudo o resto... Eu vendo um jogador, ainda não recebi o dinheiro, aquele clube deve-me a mim, é um ativo. Eu compro um jogador, ainda não o paguei na totalidade, é um passivo para outro clube. E depois também olhamos para o encontro das contas, aquilo a que chamamos net trade account, em que também temos valores relativamente simpáticos para o contexto europeu. Por isso, é uma situação de bastante confiança. Isso reflete-se quando fizemos emissões obrigacionistas com taxas relativamente baixas, quando procuramos operações de mercado temos também taxas relativamente baixas, porque o risco percebido por quem olha para isto de uma forma mais profissional é baixo.