Moutinho merece mais uma última dança
O futebol continua a ser um jogo imprevisível. Dorgeles tinha sido o herói do SC Braga na primeira mão das meias-finais da Liga Europa, ao marcar o golo que garantiu o triunfo dos minhotos (2-1) e ontem foi o vilão, cometendo um erro na cobertura defensiva a Beste, com uma falta ostensiva que lhe valeu a expulsão logo aos 7 minutos. Este é daqueles lances que desarma qualquer treinador, que tantas vezes pensa na estratégia e não se lembra que um simples erro individual pode reverter uma ideia coletiva.
Mesmo assim, e apesar dos três golos sofridos, o SC Braga cai de pé nesta Liga Europa, tendo lutado até ao fim, com um golo de Pau Víctor que deixou o jogo em suspense e reforçando a ideia de que o Friburgo, 7.º na Bundesliga, não é nem foi superior ao atual quarto classificado do campeonato português.
Teria sido excelente para o país futebolístico ter novamente os minhotos a disputar uma final europeia e também seria um momento que João Moutinho merecia, talvez mais do que todos os jogadores da formação arsenalista. Numa altura em que o futuro do médio de 39 anos está em aberto, terminando contrato com os bracarenses e sem sinais evidentes do que fará de seguida, chegar a Istambul 15 anos depois da final de Dublin (venceu-a pelo FC Porto diante do SC Braga, por 1-0) e 21 anos depois da final de Alvalade da Taça UEFA entre Sporting e CSKA (1-3) seria a coroação de uma carreira fantástica, de um daqueles jogadores que merece ser objeto de estudo e admiração de todos os que aspiram a ser um futebolista profissional.
Aos 39 anos, João Moutinho está para o futebol português como Modric para o croata/italiano, ainda que o jogador do Milan seja uma bandeira da seleção balcânica e o algarvio tenha deixado a turma das Quinas. Mas se havia dúvidas sobre a bagagem que o segundo jogador mais internacional de sempre por Portugal (146 jogos, apenas atrás de Cristiano Ronaldo) ainda possui, estas meias-finais provaram-no.
A liderança através da inteligência ficou à vista e não é uma derrota que vai apagar tudo o que de bom João Moutinho fez. Só ele sabe o que pretende para o próximo ano (anos?), mas quem ainda consegue produzir tanto e com este critério merece ter pelo menos mais uma oportunidade, mais uma última dança, de preferência numa equipa que tenha uma ideia de jogo como a de Carlos Vicens, também ele merecedor do benefício da dúvida pela forma como pôs o SC Braga a jogar, ainda que no plano interno tenha deixado a desejar. E conhecendo-se a paciência de António Salvador...