Expulsão de Debast virou o jogo
Expulsão de Debast virou o jogo
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Debast abriu as portas à dúvida e foi Seabra a dar xeque-mate… (crónica)

Estão de regresso os fantasmas a Alvalade. É como se os leões voltassem à vertigem pelo abismo, que se pensava serem águas passadas, criando condições para que a lei de Murphy, nuns casos, e o princípio de Peter, noutros, imperassem. Quem se aproveitou de tudo isto foi o Arouca, e o seu treinador, muito sagaz

O minuto 54 do Sporting-Arouca deve ficar gravado, pelas piores razões, na memória dos adeptos leoninos. Com a equipa de Rui Borges a vencer por 2-0 e a ameaçar chegar ao terceiro golo, Zeno Debast entrou intempestivamente de sola sobre Rukavina, num lance a meio-campo, inofensivo, junto à linha lateral, e foi expulso.

Ao deixar o Sporting reduzido a dez unidades, Debast convidou os fantasmas da Amadora e de Famalicão a visitar Alvalade, e, para cúmulo, teve direito a uma saída de herói, dirigindo-se à cabina sob uma chuva de aplausos. Aplausos porquê? Por ter sido imprudente? Por ter deixado os companheiros com uma pesada herança às costas? Por ter exposto Rui Borges, que sentiu necessidade de optar pela contenção, decisão que lhe saiu caro?

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Sejamos absolutamente claros: o futebol é um jogo coletivo, onde todos ganham e todos perdem. Mas também é uma área onde as responsabilidades devem ser assumidas e os erros apontados. E o prejuízo que a leviandade do internacional belga provocou ao Sporting nunca mereceria ser aplaudido.

Relevante para a história do jogo foi também a intervenção do VAR, Hélder Malheiro, que descortinou um penálti de Quaresma sobre Barbero, ao minuto 78 — pode dizer-se que foi uma grande penalidade de VAR, mas que o pisão existiu, é inegável —, que veio a projetar o Sporting, que vencia então por 2-0, do estado de sítio para o estado de emergência.

Logo depois da expulsão de Debast, Rui Borges decidira recompor o quarteto defensivo (quinteto quando Catamo baixava e Fresneda passava para central pela direita) com a entrada de Eduardo Quaresma para a saída do muito discreto Irankunda. Foi um primeiro sinal de que o treinador do Sporting (massacrado por uma semana de boataria avulsa) passava a ter como estratégia fechar os caminhos para a baliza de Rui Silva, propondo-se aguentar, grosso modo, a última meia-hora sem correr quaisquer riscos.

Porém, quando se treina um grande não é, por norma, boa ideia, assumir um compromisso que foi ainda para lá do pragmatismo de Farioli. Terão sido os desaires da Amadora e Famalicão (e a quantidade de notícias que referiam as vitórias que o Sporting já deixou fugir na era-Rui Borges) a influenciar o treinador que foi à procura de lã e acabou tosquiado.

Grande início

Dificilmente a receção ao Arouca podia ter começado de forma mais agradável para o emblema de Alvalade. Frente a um Arouca posicionado num 4x2x3x1 que se dava mal com a pressão leonina, num jogo de espelhos, o Sporting chegou cedo à vantagem (3'), de bola parada, após grande trabalho de Maxi bem aproveitado por Inácio, que assim parecia querer mandar para trás das costas os azares do passado recente.

E foi já depois de Maxi Araujo ter falhado um golo cantado - grande passe de Inácio, e o chapéu a De Arruabarrena a sair pouco ao lado (13) - que Suárez, com um remate violentíssimo a passe de Catamo, colocou o ‘placard’ em 2-0.

O Arouca parecia atónito, como se não estivesse à espera de um Sporting tão agressivo, e foi preciso esperar até ao minuto 35 para que Rui Silva fosse posto à prova num remate à figura de Barbero, intercetando, três minutos volvidos, um cruzamento perigoso de Lebedenko.

Para a segunda parte, Vasco Seabra trocou Mateo Flores por Rukavina, que dinamizou o flanco esquerdo dos lobos, mas a verdade é que as oportunidades continuaram a sorrir ao Sporting, embora não passassem de promessas: aos 48 minutos, a passe de Zalazar (menos influente na manobra da equipa por se encostar demasiadas vezes à direita), Doumbia foi demasiado lento e Javi Sanchez tirou-lhe o peixe do anzol; um minuto depois um livre de Maxi com conclusão belíssima de primeira de Debast obrigou o guarda-redes do Arouca a uma grande defesa, e adivinhava-se o 3-0 quando Debast fez o que fez e os leões ficaram reduzidos a dez. A partir desse momento, onde havia confiança passou a haver receio, onde havia vontade de ‘matar’ o jogo, passou a haver vontade de segurar o resultado, o que viria a revelar-se fatal.

Arouca atrevido

Logo depois da expulsão de Debast, Quaresma entrou para recompor a defesa, saindo Irankunda. Mas do outro lado, Van Ee, que já estava amarelado, deu lugar a Pedro Santos, muito bom de bola, começando aí a revolução arouquense. Sem nada a perder, os forasteiros ganhavam presença no meio-campo leonino; com muito a perder, os leões reforçavam a capacidade defensiva (Zalazar por Silas Anderson, 66), mas, não obstante, viram de imediato Rui Silva negar o 2-1 a Barbero.

Vasco Seabra sentiu que o Sporting estava ‘vazio’ de confiança, e arriscou um pouco mais (Trezza por Mansilla), embora fosse vivendo de tentativas de jogo aéreo, já que os caminhos centrais estavam hiper-povoados. O penálti deu ao Arouca o que não tinha sido conseguido de bola corrida e a partir daí o nervoso miudinho apoderou-se das bancadas de Alvalade.

Sem nada a perder (86'), Seabra mandou para o campo o possante Mayulu e o mais técnico Nandín, enquanto que Rui Borges trocava de pontas de lança e metia Pedro Lima no lugar do menos esclarecido Doumbia (a clarividência ficou quase toda em Altimira). Um minuto depois, um cruzamento perfeito de Pedro Santos, com a bola a cair entre Fresneda e Quaresma, proporcionou a Nandín um desvio de qualidade, que levou a bola ao fundo das redes do Sporting. E até ao fim, pese embora o inconformismo sobretudo de Maxi e Catamo, o Sporting viveu os últimos minutos antecipando o que parecia impensável num jogo que até tinha começado da melhor forma possível.

O Arouca, com substituições sagazes e algumas circunstâncias a tornarem possível o que parecia fora de alcance, acabou por sair do anfiteatro verde-e-branco com um ponto, moralizado e mostrar que tem personalidade e sabe ter bola. Provavelmente, Alvalade jamais esquecerá o aplauso que tributou a Debast…

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