Garry Birtles, um dos heróis do Nottingham bicampeão da Europa, com a 'orelhuda' na mão - Foto: IMAGO

«Mourinho meteu-se no comboio sem ninguém saber, para ver como foi possível»

A BOLA falou com Garry Birtles, bicampeão europeu pelo Nottingham Forest e autor da assistência para o golo que decidiu a final de 1980, frente ao Hamburgo. Lembra viagem do atual treinador do Benfica à terra de Robin Hood e as peripécias do carismástico Clough

NOTTINGHAM — «O Forest de 1979 e 1980 nos dias de hoje? Podíamos vencer a Champions League. Porque não?», atira Garry Birtles. Na véspera do duelo com o FC Porto no City Ground, com vista para as meias-finais da UEFA Europa League, o bicampeão europeu na era dourada pelos tricky trees, falou com A BOLA sobre tempos idos no emblema das East Midlands. «Na altura, tinhas de vencer a melhor equipa de cada país, não eram os quatro ou cinco primeiros de cada liga… Chamam-lhe Champions League, mas hoje é também a liga dos que ficaram perto do título», afirma, em tom descontraído. As memórias das duas finais, em anos consecutivos, estão bem presentes. «Na primeira, contra o Malmo, eu não joguei muito bem, estava nervoso. Falhei um par de oportunidades, mas vencemos o jogo por 1-0 e isso é o que importa», recorda.

Na segunda final, frente ao Hamburgo, a história foi outra. «Uma batalha enorme. Eles eram os favoritos. Acho que esse foi o meu 140.º jogo em duas épocas e os jogadores de agora queixam-se porque fazem 40... Fiz a assistência para o único golo do jogo, marcado pelo John Robertson. No fim do jogo, o Brian Clough disse depois que eu corri mais milhas naquela noite do que o Emil Zátopek, um maratonista de topo. Mas essa vitória foi especial, porque eles tinham lá o Kevin Keegan. Um homem adorável, diga-se. Quando a minha mulher faleceu, tivemos um jogo de solidariedade e ele veio de propósito do norte, onde vivia», detalha, ainda hoje sensibilizado pelo gesto. «Foi especial ganhar consecutivamente [a Taça dos Campeões Europeus]. Nenhum outro clube inglês conseguiu desde então. O Liverpool fê-lo antes de nós, mas nós eliminámo-los no primeiro ano em que ganhámos. Eram a melhor equipa do Mundo!», acrescenta Birtles.

O feito do Nottingham, quiçá irrepetível para o clube da cidade de Robin Hood, ainda hoje preenche o imaginário dos amantes de futebol. Mas houve um português (bem conhecido dos ingleses) que ficou especialmente intrigado. «José Mourinho meteu-se no comboio sem ninguém saber para ver o quão grande era o clube, para perceber como é que uma equipa como o Forest podia ter ganho dois títulos europeus. Ficou admirado quando percebeu que Nottingham é uma cidade pequena. É especial receberes este tipo de elogios», admite o ex-futebolista, hoje com 69 anos e presença regular no City Ground. Não vai falhar o jogo de hoje, como seria de esperar.

O segredo daquela equipa do Forest residia, em grande parte, no espírito cultivado pelo treinador, o mítico Brian Clough. «Tínhamos jogadores fantásticos. John Robertson era um génio. E depois, havia o treinador, que fazia com que entrasses em campo com a cabeça totalmente limpa. Só pensavas em ganhar o jogo. Não era pela tática… Só pensavas: 'Se fizer asneira, paciência'. Ele não se preocupava com o que não conseguias fazer, só com aquilo de que eras capaz. Depois, dizia-nos: 'Respeitem o adversário, mas vocês são melhores do que eles.' Sentíamos sempre que podíamos vencer qualquer equipa», lembra Garry Birtles, esperançoso na transposição desta mentalidade para o presente: «Se não entrares em campo a pensar que podes vencer… Nós tirávamos partido dessa forma de pensar, por isso é que estivemos 42 jogos consecutivos sem perder.» Francesco Farioli, por outro lado, quererá que os tricky trees deixem o espírito de outrora… no passado.

Garry Birtles, à esquerda, celebra com o lendário Peter Shilton a conquista da primeira Taça dos Campeões Europeus pelo Forest, em Munique

«Árbitro português? Se não me lembro, é porque esteve bem!»

A final da Taça dos Campeões Europeus de 1980, disputada entre Nottingham Forest e Hamburgo no Santiago Bernabéu, foi dirigida por um… português. Na altura, António Garrido tornou-se no primeiro árbitro luso a apitar a final da maior prova de clubes no Velho Continente. «A sério? Não me lembrava!», diz Garry Birtles, espantado. «Mas, se não me lembro, é porque fez um excelente trabalho. E fez, sem dúvida», prossegue. E voltamos a… Brian Clough. «Dizia-nos sempre para respeitarmos o árbitro. Eles iam ao nosso balneário antes do jogo. Verificavam as chuteiras, equipamentos, e ele dizia-lhes sempre: 'Se houver algum problema com um dos rapazes, avise-me.' Depois, dava-nos o sermão: 'Não abusem!' Se abusássemos, éramos multados. Seria muito útil, hoje em dia, em alguns campeonatos. Para Brian Clough, apertarmos com o árbitro era simplesmente inaceitável», recorda.

O árbitro internacional português António Garrido - Foto: ASF

Por estes dias, o português do momento em Nottingham chama-se Vítor Pereira. A ligação especial que o técnico português criou com os adeptos em Wolverhampton não passou despercebida a Birtles: «Gostava que aqui acontecesse o mesmo, mas não tem sido fácil. Quatro treinadores numa só época… E agora vamos apanhar o FC Porto, não vai ser fácil. A pressão está do lado do Forest, porque, aqui, todos acreditam que podemos vencer. E o FC Porto não está no topo da Liga portuguesa por acaso. São uma equipa muito boa, muito bem organizada. Vai ser um jogo de nervos. E têm dois jogadores no meio-campo que são fantásticos.» Estaria o antigo internacional a referir-se a Gabri Veiga e Froholdt? «Sim, creio que são esses mesmo. Peço desculpa, decorar os nomes não é fácil…» A BOLA não teve alternativa a não ser desculpar Garry Birtles. A conversa foi animada e repleta de histórias de outros tempos. E, como se percebe, com alguma marca portuguesa… com certeza.

«Faltou o VAR» para ficar gravado na história de Wembley

Nem só de sucesso internacional se faz a (rica) história do Nottingham Forest. Além das duas 'orelhudas', as vitrinas do City Ground mostram outros troféus, um deles da Liga inglesa, mas também Taças de Inglaterra e Taças da Liga. Uma delas, levantada em Wembley, frente ao Southampton (3-2), teve uma grande impressão digital de Garry Birtles.

Jogadores do Nottingham Forest levantam a Taça da Liga conquistada em 1979

«Marquei dois golos. Na verdade foram quatro, mas dois foram anulados por fora de jogo. Entretanto, já foi comprovado que estava em posição regular. Eu teria sido a única pessoa a marcar quatro golos em Wembley, naquela altura. Uma pena o VAR ainda não existir», lamenta o antigo avançado, que também representou o Manchester United, ciente de que a história podia ter sido diferente.

«Não me esqueço: no segundo golo, contornei o guarda-redes e ia encostar para a baliza, mas o árbitro assistente levantou a bandeirola e nem esperou que eu tocasse na bola. Muito mau. O primeiro foi duvidoso, porque eu estava em linha e, naquele tempo, em linha era fora de jogo. Ganhámos, mas faltou aquela marca histórica de poder ter marcado quatro golos num jogo em Wembley. Bem, já passou», remata.