Nottingham: do primeiro 'one million pound player' à promessa (por cumprir) de um Beatle
NOTTINGHAM — A neblina que habitualmente sobe do Rio Trent para a cidade de Nottingham parece carregar consigo o peso de uma história que desafia a lógica do futebol moderno. No City Ground, onde o FC Porto procura, esta quinta-feira, o passaporte para as meias-finais da UEFA Europa League, não se respira apenas a mística de um gigante adormecido — há mesmo quem diga «quase esquecido» —, mas sim a herança genética de um clube que parece ter nascido para ser pioneiro.
Taças de Campeões Europeus e Brian Clough — damos de caras com ambas e com a memória do mítico timoneiro logo aos percorrer os corredores do estádio —à parte, o Nottingham Forest nunca foi apenas mais um clube das East Midlands. Foi, e continua a ser, um laboratório de vanguardismo e quebra de barreiras socioeconómicas.
Muito antes de o futebol inglês se orgulhar da diversidade que apresente atualmente atual, o Forest já derrubava muros. Em 1978, Viv Anderson, um lateral-direito elegante e de porte atlético, nascido na cidade de Robin Hood e formado no clube, tornava-se o primeiro jogador negro a vestir a camisola da seleção principal de Inglaterra. Aconteceu em novembro de 1978, contra a Checoslováquia.
A afirmação de Anderson sob o comando de Clough não foi apenas uma vitória desportiva: foi um manifesto que escancarou as portas para que tantos outros jogadores negros brilhassem com a camisola dos três leões. De certa forma, um passo em frente que contrasta com episódios bem mais recentes, de abuso racial para com estrelas como Bukayo Saka e Rashford, alvos de ira injustificada, por exemplo, na final do Europeu de 2020 (jogado em 2021).
O primeiro 'one million pound player'
Se, no futebol de hoje, se discutem transferências de dois e três dígitos com a mesma naturalidade com que se discutem penáltis por marcar, o Nottingham Forest foi o primeiro a marcar um antes e um depois no mercado de transferências. Em 1979, os tricky trees protagonizaram a transferência que mudaria a economia do jogo para sempre: Trevor Francis tornou-se o primeiro ‘one million pound player’ (o primeiro jogador de um milhão de libras) do futebol britânico.
Proveniente do Birmingham, assinou pelo Forest a meio da época 1978/79, bem a tempo de ser decisivo na final da Taça dos Campeões Europeus, frente ao Malmo: marcou o golo da vitória, que deu o troféu ao histórico inglês.
Clough, com o seu habitual humor mordaz, terá chegado a afirmar que o valor real da transferência foi de 999.999 libras, mas a história não se deixou enganar. Trevor Francis valeu cada cêntimo que por ele foi pago…
A promessa não cumprida de Paul McCartney
Por outro lado, nesta longa e vasta história de pioneiros, há algo que o Nottingham Forest ainda não conseguiu fazer: levar Paul McCartney ao City Ground para cantar a música «Mull of Kintyre», adotada pelos adeptos tricky trees, que a cantam antes do apito inicial. Em 2015, o ex-Beatle levantou a hipótese de entoá-la ao vivo no estádio assim que o clube regressasse à Premier League. Um regresso que aconteceu em 2022, mas o prometido concerto… nem vê-lo.
Para o FC Porto, a mensagem é clara: Nottingham, o Forest e o City Ground recordam-nos que, na cidade de Robin Hood, as regras foram feitas para serem desafiadas. Cabe agora aos dragões escreverem o seu próprio capítulo... sendo pioneiros: nunca venceram em Inglaterra em jogos oficiais. Não seria má altura para começar.