José Mourinho, treinador do Bnenfica (foto: Imago)
José Mourinho, treinador do Bnenfica (foto: Imago)

Mourinho aprendeu com o pai algo que carregou na carreira e mantém no Benfica

Treinador bebeu de Mourinho Félix ensinamento e recebeu um conselho que fez toda a diferença na relação com os jogadores

José Mourinho, treinador do Benfica, foi convidado do programa Jogo de Palavra da Rádio Renascença, num episódio que homenageou o Dia do Pai e no qual Mourinho recordou o pai, Mourinho Félix, treinador e guarda-redes que fez carreira no Vitória de Setúbal e no Belenenses.

Mourinho falou, numa conversa longa, intimista e emocionante, de vários momentos marcantes da ligação ao pai e da emoção e paixão que o moldaram. «Nasci em casa, como naquela altura poderia acontecer. O meu pai estava em estágio e decidiu deixar o estágio [V. Setúbal] para me ver, já depois de nascer. Só que não veio sozinho, veio com a equipa toda. A equipa invadiu a nossa casa para me ver, foram embora, tinham jogo contra o Sporting e empataram 0-0», lembrou.

Mourinho Félix, antigo guarda-redes de V. Setúbal e Belenenses, pai do treinador José Mourinho (foto: A BOLA)

O técnico não consegue identificar a primeira memória do pai num campo de futebol… «É difícil, porque são tantas! O meu pai jogou até tarde e foi pai cedo. Ele deixa de jogar penso que por 1973, eu teria 10 anos, aquela fase dos cinco aos 10. Tenho muitas memórias, não consigo identificar a primeira, deveria ser superpequeno. Não me lembro do meu pai a defender um penálti do Eusébio ou do Matateu, mas lembro-me, como se estivesse agora a ver, de o ver a defender um penálti do Yazalde. No Estádio do Restelo, um Belenenses-Sporting. E lembro-me de um Barreirense-Belenenses, onde um grande jogador do Barreirense, o Campora, rebentou-lhe com a cabeça, o nariz, com tudo. Lembro-me de estar no final do jogo, no balneário, ao lado do meu pai, que estava a ser cosido. Este é o tipo de coisa que me entrou cedo na vida, o balneário, o jogo, a tristeza na derrota e alegria na vitória, a porta estava escancarada e eu entrei.»

Este é o tipo de coisa que me entrou cedo na vida, o balneário, o jogo, a tristeza na derrota e alegria na vitória, a porta estava escancarada e eu entrei.

Mourinho conta que era discreto nos jogos e lembra companhia especial: «Na bancada não me manifestava. Quando a bola se aproximava da área, começava a rezar. Depois relaxava quando a jogada acabava. Mas não festejava golos, defesas. Sentava-me tranquilamente com a minha avó materna. Eu exigia ir a todos os jogos e a minha avó acompanhava-me. Na altura fazia-se estágio a cada jogo, lembro-me de ir visitar o meu pai a alguns, num hotel para a zona do Estoril. No dia de jogo ia com a minha avó de autocarro de Setúbal até Alcântara, apanhávamos o autocarro para o Restelo, e depois do jogo já regressávamos com o meu pai. Jogos fora, muita vez.»

A paixão e o entusiasmo que carrega até hoje começaram a notar-se muito cedo em José Mourinho. «Para se perceber um pouco a minha doença: quando fiz o exame da quarta classe e me perguntaram qual era a prenda que eu queria, disse que queria conhecer os estádios todos da primeira divisão. Entrámos no carro em Setúbal e fomos a todos os estádios que não conhecia na altura. Fomos ao campo da Sanjoanense, Bessa, Braga… eu era doente e ele alimentava-me a coisa.»

Quando fiz o exame da quarta classe e me perguntaram qual era a prenda que eu queria, disse que queria conhecer os estádios todos da primeira divisão.

A BOLA fotografou pai e filho muito cedo… «Tenho uma fotografia feita pelo grande Nuno Ferrari, feita para A Bola, que é o meu pai a treinar e eu a ver o treino atrás da baliza sem saber que estava a ser fotografado. O poema na contra-capa chamava-se ‘sonho de menino’. Dessas alturas tenho memórias enormes.»

José Mourinho a brincar com uma bola atrás da baliza durante um treino do pai, Mourinho Félix, no Restelo (foto: A BOLA)

O treinador falou de pormenor que vive atualmente no Benfica e que considera sempre importante. «Brinco muito com os miúdos que se colocam a jogar pela primeira vez. Digo sempre que a primeira não se esquece, e os miúdos não esquecem quem foi o treinador que os meteu lá dentro pela primeira vez.»

Os miúdos não esquecem quem foi o treinador que os meteu lá dentro pela primeira vez.

Admitindo que não foi um jogador, mas «um projeto de jogador», a carreira de treinador é longa, repleta de sucesso, e Mourinho não deixou nenhum pormenor para trás. «Tenho todos os treinos que fiz, desde o primeiro dia até hoje, agora já digitalizados, mas mesmo escritos. Coisas do meu processo de formação, fiz muita coisa, trabalhei com muita gente.»

Tenho todos os treinos que fiz, desde o primeiro dia até hoje.

E qual foi a principal característica que bebeu do pai, enquanto treinador? «A natureza humana. Com tranquilidade, controlo das emoções ao mais alto nível. Uma coisa que agarrei dele e não largo é que depois dos jogos não é o momento certo para falar com jogadores, seja para transmitir emoções negativas ou positivas. É muito raro verem-me a exultar depois de um jogo, da mesma forma que é muito difícil verem-me no balneário depois de um jogo a dar uns pontapés nas portas. Ao intervalo sim, no final não. Ao intervalo ainda há alguma coisa a fazer. Isso bebi dele. A honestidade, percebi desde cedo que é uma coisa que os jogadores apreciam muito. Aquela coisa de pai doce e tirano, mas no momento certo. Honestidade acima de tudo. Depois, dentro das limitações das décadas atrás, era um treinador extremamente organizado.»

É muito difícil verem-me no balneário depois de um jogo a dar uns pontapés nas portas.

A finalizar, um conselho de Mourinho Félix que nunca esquecerá… «O meu pai, na minha carreira, quando percebeu que tinha pernas para trepar, acho que foi mais espectador e meteu a responsabilidade nas minhas mãos. Dava poucas opiniões, mas objetivas, e houve uma altura específica em que estava no Barcelona e sou convidado pelo Braga. É o primeiro clube que me faz um convite para ser treinador principal. Tenho aquele impulso, e o meu pai disse-me: ‘tem juízo’. E disse-me ainda: ‘hoje é o Braga, amanhã é o Guimarães, Belenenses, Marítimo, algum vai ser o primeiro. Mas Barça, adjunto, crescer, trabalhar com aquela gente de alto nível… tem juízo, a tua hora vai chegar’.»