Morder muito e morder bem dá saúde e faz ganhar (crónica)
Há perdas de bola e perdas de bola. Algumas são inócuas e outras são verdadeiramente decisivas. Aconteceram duas na Luz e ambas foram decisivas. Richard Ríos estava atento em ambas e soube explorar da melhor forma a displicência de Samu (primeiro) e Beni (depois). O colombiano roubou duas bolas e, nada egoísta, cedeu-as: Prestianni fez o 1-0, Pavlidis marcou o 2-0. Ingenuidade vitoriana, claro, mas, sobretudo, boa agressividade por parte do número 20 do Benfica. E, para fechar a bem sofrível exibição dos vimaranenses, autogolo de Beni Mukendi.
O jogo, de resto, excluindo as jogadas dos três golos, teve poucos momentos de acelerar corações. A primeira parte, então, foi bem pachorrenta. O Benfica entrou a controlar, mas sempre longe da baliza de Charles, com o Vitória bem expectante, tentando perceber como contornar o jogo atacante adversário. Nada de deixar água na boca a quem assistia ao jogo.
Até que surgiu o momento que desbloqueou o jogo. Samu ia receber a bola, a meio-campo, de costas para a sua baliza. O lance parecia controlado por parte do médio do Vitória, mas, de repente, surgiu Ríos, como um furacão, a chegar primeiro à bola. Depois, progrediu 30 metros, entrou pelo lado esquerdo, sentou Miguel Nogueira e ofereceu, suavemente, a bola a Prestianni, que fez o menos complicado: golo.
A vantagem pareceu fazer mal ao Benfica. Ou, se quisermos ser justos, talvez tenha preferido descansar um pouco sem bola, cedendo-a, aqui e ali, ao Vitória. O controlo vimaranense era, porém, tudo menos fértil: absolutamente estéril. Muita troca de bola entre centrais, médios e extremos, mas sem perigo. Primeiro, porque médios e defesas encarnados se mostraram imperiais na defesa da zona frontal a Trubin e, depois, porque o Vitória, liderado por Samu, nunca mostrou o mínimo de talento para criar perigo. Muita pólvora seca, embora sem deixar que o Benfica tivesse bola.
Até final do primeiro tempo, tudo continuou muito pachorrento e sonolento. Sem nada que pudesse levantar o público das bancadas. Era justa a magra vantagem que o Benfica levou para o intervalo, mas talvez as mais de 60 mil pessoas nas bancadas merecessem um espetáculo bem melhor.
O segundo tempo foi bem melhor. Mais velocidade, mais risco e um pouco mais de vertigem, embora sempre algo longe de ser vertiginoso. Logo a abrir, o Vitória esteve verdadeiramente perto do golo. Primeiro por Miguel Nogueira, obrigando Trubin a uma defesa apertada com os pés; na sequência, Nelson Oliveira a rematar, em arco, com a bola a sair perto do poste esquerdo da baliza do ucraniano.
O Benfica parecia destinado a ter de fazer algo de diferente para impedir que o empate pudesse chegar. Mas o 2-0 chegou, ironicamente, da mesma forma do 1-0. Mais uma bola roubada por Richard Ríos, agora com Beni Mukendi a mostrar-se demasiado passivo, ligeiro compasso de espera e bola servida numa bandeja para Pavlidis regressar, por fim, aos golos.
A seguir, tal como após o golo de Prestianni, o Vitória voltou a desinibir-se e a tentar andar mais perto da área de Trubin. Porém, com dois golos de desvantagem, a tarefa dos vimaranenses era quase ciclópica. E foi. À entrada do último quarto de hora, tudo fechado com o 3-0: entrada de Bah pela direita, cruzamento rasteiro, ligeiro toque de Pavlidis e, inesperadamente, autogolo de Beni Mukendi.
Rafa (77’) e Lukebakio (90+2’) ainda falhariam o 4-0, mas o jogo terminou mesmo após o autogolo do infeliz Mukendi.