Mítico Toyota Celica regressa em 2027 e os pilotos já foram eleitos
Oliver Solberg foi anunciado como um dos três pilotos que vão guiar o novíssimo Toyota GR Celica Rally1 de fábrica na temporada de 2027. O anúncio oficial da Toyota, na passada terça-feira, assinala o renascimento de uma das marcas mais emblemáticas do Campeonato do Mundo de Ralis (WRC), algo que o piloto sueco classificou como «incrível», virando de vez a página da desilusão pelo título perdido este ano.
A construtora nipónica delineou uma estratégia arrojada que passará por dividir a sua operação de seis carros em duas equipas distintas no WRC, recorrendo a duas carroçarias diferentes para modelos que serão mecanicamente idênticos sob a estrutura exterior. Sob a designação Toyota Racing, o renovado Celica estará entregue a Solberg, ao campeão mundial em título Elfyn Evans e a Sami Pajari. A outra frente da marca continuará a alinhar com o GR Yaris, conduzido por Ott Tanak, Kalle Rovanpera e Takamoto Katsuta.
«É incrível. Acho que é uma perspetiva fantástica. É uma forma diferente de fazer as coisas, o que considero único para qualquer desporto», afirmou Solberg em declarações ao Motorsport.com, admitindo que apenas soube que iria conduzir o Celica durante a apresentação.
«Ter a oportunidade de contar com muitos pilotos e carros diferentes permite explorar mais o marketing e promovê-lo de várias maneiras. O regresso do Celica enquanto marca de legado histórico é fantástico para nós, jovens pilotos. É um pouco de história, por isso acho a abordagem formidável do ponto de vista do marketing. Conduzir pela Toyota Racing ao lado do Elfyn e do Sami é brutal. Vai haver uma rivalidade tremenda entre todos os pilotos, uns a tempo inteiro e outros a tempo parcial, mas será uma rivalidade fantástica e muito divertida.»
O regresso de uma lenda
O anúncio do regresso do Toyota Celica ao Campeonato do Mundo de Ralis (WRC) em 2027, através do desenvolvimento do GR Celica Rally1, é o ressurgimento de um dos carros mais célebres da história do desporto automóvel. Entre as décadas de 1980 e 1990, o icónico modelo nipónico escreveu algumas das páginas mais douradas, pioneiras e, a dada altura, polémicas dos ralis, acumulando um palmarés impressionante de 38 vitórias, dois campeonatos de construtores e quatro títulos de pilotos.
Para compreender o peso histórico que recai sobre o novo veículo de competição da Toyota Gazoo Racing, é preciso recuar no tempo e revisitar as quatro gerações que definiram o ADN deste carro mítico.
‘Rei de África’ no Grupo B
A história do Celica no topo dos ralis começou a desenhar-se entre 1983 e 1986, em plena era do temível Grupo B. Enquanto os rivais europeus apostavam em soluções complexas de tração integral, o Celica Twin-Cam Turbo (TA64) mantinha a tradicional tração traseira. Embora penalizado no asfalto e na lama da Europa, a sua fiabilidade mecânica e robustez extrema tornaram-no imbatível nas condições mais duras do planeta. O modelo ganhou o estatuto de "Rei de África" ao dominar por completo as violentas estepes do Rali Safari e do Rali da Costa do Marfim.
A revolução da tração integral e o primeiro título
Com o fim do Grupo B e a introdução dos regulamentos do Grupo A, a Toyota transformou o modelo. Entre 1988 e 1991, o Celica GT-Four (ST165) estreou a tração integral permanente aliada ao motor turbo 3S-GTE. A engenharia deu frutos imediatos: após a primeira vitória oficial na Austrália (1989), o espanhol Carlos Sainz sagrou-se Campeão do Mundo de Pilotos em 1990. Era o primeiro título de pilotos da história da Toyota, abrindo as portas para uma era de domínio absoluto.
A idade de ouro com as cores da Castrol
O auge desportivo chegou com o Celica Turbo 4WD / GT-Four (ST185), que competiu entre 1992 e 1994. Decorado com a inesquecível pintura branca, verde e vermelha da Castrol, o ST185 tornou-se o Celica mais bem-sucedido de todos os tempos, com 16 vitórias no WRC. Sob o comando de lendas como Carlos Sainz (1992), Juha Kankkunen (1993) e Didier Auriol (1994), a Toyota conquistou três mundiais de pilotos consecutivos e dois campeonatos de construtores (1993 e 1994). O ponto alto da sua supremacia ficou gravado no Rali Safari de 1993, onde o carro garantiu as quatro primeiras posições da classificação geral.
O escândalo do restritor ilegal: desclasificação e suspensão
A linhagem do Celica ficaria também marcada por um dos episódios de espionagem e engenharia oculta mais célebres do desporto. Entre 1994 e 1995, a nova geração (ST205) debatia-se com problemas de peso e agilidade frente a concorrentes mais compactos. Numa tentativa desesperada de recuperar performance, a Toyota Team Europe (TTE) desenvolveu um restritor de turbo ilegal, mas incrivelmente sofisticado.
Graças a um sistema oculto de molas, a peça deslocava-se 5 milímetros quando o carro estava totalmente montado, abrindo uma passagem de ar secreta que garantia 50 cv adicionais de potência. Se os comissários desmontassem o sistema para inspeção, as molas faziam a peça regressar à posição original, parecendo totalmente legal. Descoberta no Rali da Catalunha de 1995, a batota genial valeu à Toyota a desclassificação total desse campeonato e suspensão por uma temporada A marca regressaria mais tarde com o Corolla WRC, mas o Celica despediu-se dos palcos mundiais de forma dramática.
2027: fechar de um ciclo
Mais de três décadas após o fim da sua era dourada, o anúncio do GR Celica Rally1 para a temporada de 2027 promete reatar o fio desta história icónica. O novo modelo de ralis não procura apenas vitórias na nova era híbrida e tecnológica do WRC; procura também a redenção definitiva e a continuação do legado de um dos maiores símbolos da cultura automóvel global.