Rui Soares com o campeão do Mundo Elfy Evans - Foto: Toyota Gazoo Racing WRC
Rui Soares com o campeão do Mundo Elfy Evans - Foto: Toyota Gazoo Racing WRC
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O miúdo que levou a máscara de Carnaval ao título mundial

Rui Soares, natural de Aguiar da Beira, sonhou desde criança em ser piloto de ralis. Sonho tornou-se objetivo, não foi atrás do volante, mas é o engenheiro do carro que Elfyn Evans conduziu ao topo do WRC

Rui ainda não sabia ler nem escrever. Era demasiado novo para isso. Mas havia uma certeza que aquele miúdo nascido e criado em Aguiar da Beira já sabia bem: queria ser piloto de ralis! 

Pode ser fácil dizê-lo agora, mas ele tem provas que vão além das memórias familiares. Como uma fotografia de um carnaval da pré-primária na qual, entre cowboys, palhaços ou princesas, lá aparecia um miúdo de capacete na cabeça e um volante nas mãos. 

A imagem que mostra Rui Soares, então na pré-primária, mascarado de piloto - Foto: DR

Um miúdo que, pouco mais de 30 anos depois, chegou a campeão do mundo do WRC. Não enquanto piloto, como sonhava quando assistia a corridas e mais corridas gravadas em cassetes VHS com o pai, mas como o engenheiro responsável pelo carro do campeão: Elfyn Evans. 

«O meu pai já era um apaixonado por ralis e passou-me esse gosto. Não tenho nenhuma memória antes de gostar de ralis», introduz Rui Soares, quando questionado por A BOLA sobre como se vai de Aguiar da Beira até ao topo do WRC. 

Esse percurso, partilha o engenheiro de 40 anos, começou, portanto, a ser trilhado ainda antes de rumar a Coimbra para estudar Engenharia Mecânica. Afinal, o rali está quase tão embrenhado no ADN dos habitantes de Aguiar da Beira como o termo popular ‘escorropichas’ como são conhecidos. 

«Aguiar da Beira, além de casa, é onde comecei a acompanhar uma equipa, a ARC Sports, como part-time quando ainda estudava», introduz Rui, que também desde cedo acompanhou o pai, que chegou a correr alguns ralis nos primórdios da equipa que é presença habitual no Campeonato de Portugal de Ralis. 

«Com o passar do tempo, a equipa começou a profissionalizar-se, eu comecei a ganhar gosto ainda maior pela parte técnica, e trabalhar na área do desporto automóvel deixou de ser sonho e passou a objetivo», acrescenta. 

Foi já com esse foco que depois da licenciatura seguiu para o País Basco, onde fez um mestrado em Engenharia em desporto motorizado, que lhe abriu definitivamente o caminho rumo ao pó e lama que ele tanto ambicionava. 

«A ideia já era chegar ao mundo do desporto automóvel, mas para ser profissional na área, estava longe de imaginar que um dia ia trabalhar no WRC», reconhece. 

Ainda assim, há uma ideia que o guiou desde sempre. E que ainda agora repete: «a sorte constrói-se. A única coisa que é preciso é não desistir».

A «mão grande lá de cima» que empurrou 

Já com a formação concluída, seguiu-se um estágio na Symtech na Bélgica, onde, juntamente com Hayden Paddon, se sagrou campeão do PWRC em 2011, sendo que seria com o piloto neozelandês que chegaria ao WRC, em 2015 na equipa da Hyundai. 

Dali, saltou em 2019 para a Toyota, marca que agora ajudou a chegar ao título mundial, ao trabalhar com um piloto que é filho… de um ídolo de infância de Rui. 

«Nunca gosto de tentar puxar um piloto para mim. Normalmente trabalho com quem a equipa me der. Mas o pai dele era um dos meus grandes ídolos. Eu tinha uma cassete do rali da Grã-Bretanha de 1997, em que o pai dele ganhou. Vi tantas vezes essa cassete que acho que ainda sei o relato de cor. Por isso, fiquei muito contente por poder trabalhar com o Elfyn Evans», admite Rui Soares. 

A trabalhar com o piloto galês desde 2019, a relação foi-se fortalecendo e só quem considera que o sucesso só se faz de títulos é que pode desvalorizar o que a equipa da qual Evans e Soares são peças centrais tem alcançado. 

Antes do título que chegou no passado domingo, Evans, que está em permanência no WRC desde 2017, tinha sido vice-campeão… cinco vezes. 

«Não há palavras para descrever aquilo que senti. Desde logo o alívio de ver que o Elfyn e o Scott [Martin, copiloto] tinham o resultado que tanto ambicionavam há muito tempo. São muito trabalhadores, dedicam-se imenso e nunca tinham conseguido chegar lá. Agora conseguiram e já não podem continuar a dizer que são os eternos segundo», descreve e só depois do alívio fala da alegria que lhe encheu os olhos de lágrimas, como se vê nas imagens da transmissão.

«A minha mulher diz que sou muito transparente, e não consegui esconder as lágrimas», atira, embrulhado num sorriso. «Mas claro que houve uma felicidade total. É indescritível. Há certas coisas que nos dão uma felicidade tal que nos deixam um sorriso que parece que nunca sai», descreve. 

Um título muito celebrado

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Para a felicidade ser completa, faltou apenas a possibilidade de partilhar aquele momento com quem alimentou a paixão de criança. 

«Inevitavelmente, o meu pai foi a primeira pessoa em quem pensei. Ele morreu em 2021, e eu não sou muito de acreditar nessas coisas, mas esta vitória teve uma mãozinha muito grande lá de cima. Pela forma como tudo aconteceu ele estava a olhar, de certeza», defende.

«Ultrapassei todos os sonho»

Aquilo que faz um engenheiro naturalmente cético como Rui recorrer ao transcendental para ajudar a justificar o título mundial que ajudou a conquistar é o «milagre» que aconteceu no final. 

À partida para a última especial da época, Elfyn Evans e Oliver Solberg estavam separados por apenas um ponto no Mundial. O galês já tinha terminado a participação e, como líder do Rali da Sardenha, o sueco era o último piloto em pista. E tudo parecia indicar que ia confirmar a vitória na corrida e no Mundial. Só que a cerca de 200 metros do derradeiro troço do Campeonato… Solberg despistou-se e ficou preso numa duna. 

O erro fez soltar a festa que já nem Rui, o mais positivo da equipa acreditava ser possível. 

«O Elfyn diz que eu sou ‘irritantemente otimista’. Ele é o oposto, resigna-se mais facilmente. Mas desta vez, até eu tinha deixado de acreditar. Até já tinha começado a escrever uma mensagem a dizer que desta vez ele tinha tido razão, depois aconteceu aquilo e, felizmente, não teve», relata. 

Nos festejos, que incluíram um mergulho coletivo nas sempre apetecíveis águas da Sardenha, Rui Soares aparece num plano central, junto do piloto e copiloto campeões do Mundo. O que mostra bem a relevância do trabalho do português. 

Mas afinal, o que faz um engenheiro do carro vencedor do Mundial de ralis? 

«Essa é a pergunta mais difícil que me podem fazer! Nós acabamos por ser psicólogos, editores de vídeo e responsáveis pelo improviso do que for preciso. Por vezes, temos de fazer política, ser embaixadores durante a corrida. Somos muito polivalentes e o trabalho nunca é igual», descreve. 

Ainda assim, de forma humilde, Rui defende ser apenas mais uma peça numa engrenagem complexa.

«Sou só uma pequena peça do puzzle que valeu o título mundial. O rali é um desporto muito coletivo», começa por atirar, antes de ser desafiado a deixar a humildade de lado. 

«Mas considero-me mesmo uma pequena peça, apesar de ter uma responsabilidade muito grande. Ele fala comigo sobre qualquer decisão sobre o carro. E no final, sou eu que tomo a última decisão», descreve. 

No fundo, Rui só não leva o volante na mão como naquela fotografia do Carnaval com mais de 35 anos. O sonho, porém, cumpriu-se. Ou foi-se muito além dele. 

«Não me tornei piloto, mas ultrapassei por muito qualquer sonho que tinha quando era miúdo», termina, sorridente.

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