Marco percebeu o que estava mal e criou soluções com muito futuro (crónica)

O futebol é fantástico: até num batatal é possível executar uma obra de arte, como a de Prestianni. E a propósito do argentino, também se viu que é hiper-compatível com Schjelderup. E que Palhinha dá asas a Barreiro…

Para que se fique com uma ideia clara do que foi a visita do Benfica à Pérola do Atlântico, deve dizer-se que o Marítimo apenas teve um remate enquadrado, que Samuel Soares deteve facilmente, e antes (51') criou um lance de perigo num canto de Guzzo que Pedro Henrique quase aproveitava. Mesmo assim, sem passar por outros ‘sustos’, e apesar de ter o jogo controlado, o Benfica teve de correr atrás da bola no primeiro quarto de hora da segunda parte, para evitar dissabores. E fez bem, porque se assumisse a vantagem mínima como sinónimo de triunfo, teria muitas hipóteses de sair da Madeira a lamentar os pontos que lá tinha deixado. 

Na hora de maior desconforto dos encarnados, Marco Silva entrou em jogo e com duas alterações (62') projetou o Benfica para outro patamar e terá tirado ilações para um futuro mais desanuviado. 

Os encarnados, que estavam amarrados à insuficiência de Sudakov, despertaram para a última meia hora, e assinaram uma exibição convincente, com várias jogadas com nota artística, que assumiram alto grau de dificuldade face ao lamentável piso onde a partida se disputou.

MARCAR CEDO

Frente a um Marítimo que se apresentou num 4x2x3x1 muito versátil - houve momentos de defesa a seis com a descida dos alas e de 4x4x2, com o adiantamento de Guzzo - a equipa de Marco Silva chegou cedo ao golo, por Leandro Barreiro (7') e logo se percebeu que a ‘autonomia de voo’ de João Palhinha na posição ‘seis’ permitia ao internacional luxemburguês uma chegada à grande área contrária muito mais confortável do que a que tinha a lado de Barrenechea. Mas a circulação de bola dos encarnados, sempre dificultada pela irregularidade do relvado, não teve a qualidade de outros jogos e a dinâmica da equipa, onde Sudakov quer mas não pode, ressentiu-se. Para complicar a situação, Bah lesionou-se (17') e Marco Silva ensaiou, com escasso sucesso, Kaminski a lateral direito, decisão que viria a emendar mais tarde (62'), com a adaptação de Circati a essa posição, evitando usar Aursnes, com quem não quer correr riscos, passando o polaco a fazer a ala direita. Ao mesmo tempo (62') trocou Sudakov por Schjelderup, passou Prestianni para as costas de Pavlidis e com as pedras nos sítios certos arrancou para uma boa reta final.

O Marítimo, que tinha, até esse momento, obrigado o Benfica a trabalhos forçados na segunda parte (que deram para observar como Barreiro e Pavlidis são mesmo jogadores de equipa), viu-se perante uma dor de cabeça que não esperava quando Prestianni e Schjelderup começaram a carburar, em velocidade e qualidade técnica, criando condições para a vitória tranquila que se seguiria. Além da jogada que precedeu o 0-2, de Barreiro, onde a dupla argentino-norueguesa fez gato-sapato do lado direito dos leões da Almirante Reis, sucederam-se situações de futebol alegre, rápido e ágil, que empolgaram os adeptos e tiveram consequências práticas: a primeira foi tornar inócuas as mudanças operadas por Van der Gaag, que não conseguiram inverter a tendência ascendente do Benfica; a segunda passou pela criação de oportunidades de golo, fruto de um volume atacante que foi para além da forma e passou a ter conteúdo, que tolheu o ânimo e os movimentos à equipa da casa. 

A OBRA-PRIMA

Após o 0-2, Marco Silva decidiu dar descanso a dois dos seus guerreiros, Palhinha e Pavlidis, e entraram Barrenechea e Durán aos 82 minutos, que já viram do lado de dentro a obra-prima de Gianluca Prestianni no 0-3, quando, sempre apertado por Rodrigo Andrade, correu 40 metros com a bola, travou e fletiu para o meio à entrada da área, e assinou um golo de placa com um espetacular remate em curva, com o pé direito, para a esquerda de Pastor. Foi a cereja no topo do bolo para Prestianni, que quando recebeu ordem para atuar pelo meio estava a perder fulgor na esquerda e, qual Fénix renascida, recuperou a alegria e a capacidade de desequilibrar, entendendo-se com Schjelderup de maneira a deixar água na boca aos benfiquistas.

JOÃO PALHINHA

O Marítimo, que não foi produtivo nos 15 minutos em que esteve por cima na partida, teve de se render à evidência de que estava a perder perante uma equipa com mais argumentos e acabou a aceitar o resultado, mais preocupado em não sofrer do que em marcar. Os insulares, que deviam ter em Tejón o elemento mais incisivo, acabaram por não aproveitar as dificuldades sentidas pelos encarnados na direita após a saída de Bah, e viraram-se, com Limbombe como chefe de fila, para a ala contrária.

Sem Bah, será que chegou a hora de Banjaqui, regressado à equipa B após lesão? O futuro o dirá…

Mas falar deste jogo sem referir a estreia a titular de João Palhinha seria deixar o trabalho incompleto, porque, com ele, a forma de jogar do Benfica altera-se, melhorando não só na capacidade de recuperação da bola e na eficiência no jogo aéreo, mas também criando condições para que quem joga teoricamente ao lado dele chegue com mais frequência à frente, o que será de grande utilidade especialmente contra equipas (e são muitas, na nossa Liga) que usam sistemas ultra-defensivos.

Sendo os três pontos em disputa o objetivo máximo do Benfica, provavelmente Marco Silva regressou do Funchal com uma equipa mais perto do que o plantel de que dispõe pode valer. E nesta fase em que ainda apalpa terreno, o que viu pode refletir-se no muito que resta desta época.

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