Mercados do futebol apostam no escuro
TEREMOS de admitir que parecerá estranho que o futebol na Europa não se dê conta de que todos nós corremos o risco de, em breve, vivermos numa autêntica economia de guerra. Não se sabe por quanto tempo se prolongará a invasão russa na Ucrânia, quais são as verdadeiras intenções geopolíticas de Putin e qual a verdadeira capacidade de resistência humana dos ucranianos para poderem continuar indefinidamente o conflito até à saída dos soldados russos da zona leste do país.
Mas sabe-se que, mesmo que a guerra ficasse por aqui, o que é muito improvável, mesmo assim as consequências na economia europeia seriam graves. A prolongar-se por muito tempo, serão, certamente, devastadoras e as condições de vida, sobretudo nos países economicamente mais débeis, como é também o caso de Portugal, irão piorar muito, levando a uma previsível instabilidade social e pondo em causa o que o povo julgava ter por adquirido.
Há, por isso, manifestações de séria preocupação política que nos chegam de Bruxelas, nas mais diversas instâncias. Começou pelo aumento quase descontrolado dos preços da energia, passou-se para a antecâmara de uma crise alimentar de proporções assustadoras e surgem, agora, as primeiras ameaças reais sobre uma nova crise financeira mundial, com o crescimento da inflação e a antevisão de crises bancárias provocadas por novas dívidas impagáveis.
Alheio ao que se passa na Europa, os clubes mais ricos decidem irresponsavelmente virar as costas à realidade. Porque o Barcelona quer regressar aos seus tempos mais memoráveis, o Liverpool quer afirmar o seu poder em Inglaterra e no mundo, o PSG deseja, enfim, trocar poder financeiro e político por títulos internacionais e tudo o resto acaba por ser arrastado na onda das grandes contratações, até porque o futebol se vai aproximando, cada vez mais, da fronteira de um negócio internacional de risco.
Perguntar-se-á, nestas condições, se vender o passe de Darwin Núñez por 80 milhões de euros ao Liverpool é caro ou é barato. Sinceramente, não sei responder. Sei que para Luís Filipe Vieira esse valor é pouco mais de metade daquilo que ele jura poder valer, embora seja óbvio que fazer preços daquilo que não se tem para vender, nem comprador para comprar seja apenas um exercício de especulação. Mas também sei que se a crise económica e financeira estalar pelo mundo em proporções que podem ser de uma contaminação gigantesca, então perdem-se definitivamente as oportunidades que neste momento se oferecem e que dentro de algum tempo, com o eventual agravamento da situação mundial, poderão não voltar a surgir tão cedo.
No atual estado de volatilidade financeira dos mercados e perante uma perspetiva óbvia de não haver uma luz reveladora ao fundo do túnel, os negócios do futebol ganham, ainda mais, uma dimensão de realidade virtual. Ninguém sabe, ao certo, do que é fazer, perante esta nova realidade, um bom negócio. Dependerá mais do resultado e do aproveitamento desportivo do que da valorização do jogador no mercado?
Eis uma pergunta cuja resposta só pode ser dada por intuição ou por crença numa fezada. Nada de verdadeiramente objetivo entra nesta equação. É possível que a acontecer um drástico desabamento dos mercados isso possa configurar uma desvalorização do dinheiro e, por consequência, um maior valor do património, seja ele de que género for. Mas não se sabe bem se será isso que irá acontecer e, daí, a surpreendente falta de sensatez e de cautela dos mercados do futebol europeu e a opção cega por uma quase tresloucada aposta no escuro.
Darwin está perto de assinar pelo Liverpool
O SUBMUNDO DAS CLAQUES
Com a noticiada morte do jovem Igor Silva, numa rixa violenta entre elementos da claque dos Superdragões, o país despertou para a realidade do submundo das claques organizadas nos clubes de futebol. É uma matéria que incomoda e que os clubes, por norma, consideram demasiado sensível para se intrometerem. No entanto, nem todos são iguais. Há os que tiram benefícios ilegítimos do apoio desse submundo, há os que fingem que não existe e assobiam para o lado e ainda há os que têm a dignidade de se demarcarem de forma inequívoca.
PRAIAS COM FALTA DE VIGILÂNCIA
São já muitas as mortes por afogamento nas praias de Portugal neste ano de 2022. Muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas se a época balnear oficial tivesse alguma uniformidade e se fosse estabelecida de acordo com parâmetros mais modernos e eficazes. Este fim de semana prolongado, por exemplo, que levou dezenas e dezenas de milhares de pessoas às praias do país tiveram praias vigiadas e praias não vigiadas, onde o perigo atingiu uma dimensão inaceitável. A vigilância, sim, custa dinheiro, mas as mortes são mais caras.