Sirius lidera o campeonato com mais 14 pontos do que o segundo classificado, quando falta disputar metade das jornadas - Foto: IMAGO

Mentor de Gyokeres comanda o conto de fadas que está a nascer na Suécia

Depois do surpreendente título do Mjallby na época passada, o Sirius, que jogava no terceiro escalão em 2013, lidera a Allsvenskan sem derrotas e já sonha com o primeiro campeonato da sua história

Será que já podemos considerar a Suécia como a terra dos contos de fada futebolísticos? No ano passado, o pequeno Mjallby, de uma vila piscatória, conquistou pela primeira vez o campeonato nacional. Agora, a Allsvenskan prepara-se para oferecer uma nova surpresa romântica: o Sirius, clube de Uppsala, que ainda jogava no terceiro escalão em 2013, lidera a prova com uma vantagem que parece saída de um sonho.

Ao fim de 15 jornadas disputadas, o Sirius venceu 13 jogos, empatou dois e ainda não perdeu. São 42 golos marcados (melhor ataque) e 17 sofridos, números que ajudam a explicar uma campanha extraordinária, mas não contam toda a história. O clube está 14 pontos à frente do Hammarby — ou 12, caso o Djurgarden vença o jogo que tem em atraso — e começa a olhar para algo que nunca conseguiu alcançar: o primeiro título de campeão da sua história.

Uppsala, cidade conhecida há séculos pelas universidades, pela ciência e pelos estudantes, encontrou no futebol um novo motivo para sorrir. O Sirius, fundado em 1907 e tradicionalmente mais associado ao bandy, desporto de inverno disputado no gelo, sempre viveu na sombra dos grandes emblemas suecos. No futebol, o melhor que conseguiu foi um sétimo lugar no principal escalão.

Agora, a realidade é outra. O clube que passou mais de quatro décadas nas divisões inferiores está a desafiar Malmo, Djurgarden, IFK Gotemburgo e companhia, numa história que parece querer repetir a magia do Mjallby... mas desta vez com Uppsala como cenário.

Ex-mentor de Gyokeres por trás do sucesso

Uma das grandes figuras deste conto é Andreas Engelmark, o treinador que ajudou a transformar um projeto pouco ambicioso numa jornada pela glória.

Andreas Engelmark, treinador do Sirius

Quando chegou, o Sirius chegou a passar pela zona de despromoção e a contestação apareceu. A direção, porém, decidiu recusar o caminho tantas vezes escolhido no futebol moderno: não mudou de treinador, não abandonou a ideia e não procurou soluções imediatas. Manteve Engelmark e deu tempo ao projeto.

A decisão começou a revelar-se acertada. A equipa atingiu as meias-finais da Taça e transportou essa confiança para a atual temporada, onde passou a derrubar adversários de maior dimensão com regularidade.

Engelmark traz consigo uma experiência particular. Antes de assumir o Sirius, passou 12 anos na formação do Brommapojkarna, uma das academias mais reconhecidas da Suécia, onde esteve envolvido no desenvolvimento de jogadores que chegaram ao topo do futebol europeu, como Dejan Kulusevski e o ex-Sporting Viktor Gyokeres.

Viktor Gyokeres cumpriu toda a formação no Brommapojkarna da Suécia

A arte de construir com pouco

Se Engelmark é o rosto no banco, Jonathan Ederstrom, diretor desportivo, é uma das pessoas por trás da construção deste projeto.

O Sirius sabe que não consegue competir financeiramente com os clubes de Estocolmo ou com os grandes emblemas de Malmo. Por isso, procura competir de outra forma: capacidade para identificar talento antes de este se tornar caro.

Pelo quarto ano consecutivo, Ederstrom construiu o plantel mais jovem da Allsvenskan. A estratégia passa por procurar jogadores na transição entre o futebol de formação e o sénior e com potencial para crescer. E os resultados estão à vista.

Na frente, duas figuras têm assumido especial protagonismo. Robert Ure, avançado escocês de 22 anos que passou pela formação do Rangers antes de ser recrutado pelo Sirius à equipa B do Anderlecht, e Isak Bjerkebo, explosivo e imprevisível, já marcaram juntos 26 dos 42 golos da equipa.

Robert Ure é o melhor marcador da liga sueca, com 15 golos.

Mas o sucesso não se explica apenas pelos homens da frente. O médio dinamarquês Marcus Lindberg é uma das referências, enquanto o jovem guineense Mohamed Soumah dá segurança defensiva à equipa.

Mercado de verão: o grande desafio

O sucesso começa, contudo, a trazer problemas que, há pouco tempo, pareciam inimagináveis. Com 16 jornadas ainda por disputar, o mercado já começou a olhar para Ure e Bjerkebo. Clubes da Bundesliga e outros emblemas financeiramente mais poderosos estarão atentos aos dois avançados, com propostas de vários milhões a poderem surgir.

É aqui que o Sirius terá de tomar uma das decisões mais importantes da sua história: vender as estrelas e garantir estabilidade financeira ou resistir à tentação, manter o grupo unido e tentar levar o sonho até ao fim?

A segunda opção teria um preço elevado. Mas também poderia escrever a página mais bonita da história do clube.

Ainda falta metade do campeonato e seria precipitado entregar o troféu ao Sirius. Há 16 jogos pela frente, muitos pontos em disputa e um mercado de verão capaz de alterar completamente o equilíbrio da equipa. Mas o futebol sueco já mostrou que os impossíveis podem acontecer....

Classificação da liga sueca. Foto: Allsvenskan

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