João Félix admite que «intensidade» pode ser menor, mas garante que não sentiu «qualquer diferença» ao longo da época

Da cumplicidade com Ronaldo à intensidade na Arábia e o à vontade para marcar penáltis: tudo o disse João Félix

João Félix falou aos jornalistas sobre o melhor momento da carreira e descansou os adeptos de Portugal: «Tenham confiança»

PALM BEACH - Na antecâmara do jogo com a Croácia, referente aos 16 avos de final do Mundial, João Félix foi porta-voz da equipa lusa. O atacante, de 26 anos, falou do empate com a Colômbia, fez o lançamento do encontro com os croatas e assumiu que atravessa melhor momento da carreira.

- Agora com algum tempo e distância em relação ao jogo frente à Colômbia, como é que avaliam o encontro, o que é que correu bem, menos bem e o que é que é urgente melhorar, agora que é doer, nesta fase a eliminar, frente à Croácia?

- Foi um jogo complicado, como já sabíamos que ia ser. A Colômbia não é uma seleção fraca, todos sabem da qualidade individual e coletiva que eles têm. Acho que entrámos um bocadinho no jogo deles, um jogo muito transição, tivemos pouco controlo do jogo. Hoje vamos analisar o jogo e o que há a melhorar, ver o que é que podíamos ter feito melhor, corrigir alguns erros e ver, ver e melhorar, é o que podemos fazer.

- Numa altura em que muitos portugueses ficaram desiludidos e também desconfiados com estes resultados da Seleção, o que é que pode dizer aos portugueses antes de começarem esta fase de mata-mata?

- O que posso dizer e prometer é trabalho, dedicação, que estejam tranquilos. A malta aqui está tranquila, não é por termos empatado dois jogos que há desconfiança ou que estamos menos confiantes. É um mundial, todos os jogos são complicados, mesmo as seleções que a malta pensa que possam ser mais fáceis ou não, acabam por se tornar complicados. E a malta só tem que estar tranquila, tal como nós estamos, preparados para o jogo da Croácia. Temos muita confiança que vamos ganhar e faremos tudo para passar à próxima fase.

- Focando já no próximo adversário, a quem você nunca marcou, como é que um jogador criativo como você é pode fazer a diferença? Olhando para a Croácia, e sendo uma fase a eliminar, é um jogo que lhe traz mais excitação ou mais consciência, com um bocadinho de mais receio?

- Sim, conhecemos bem a Croácia, já jogámos inúmeras vezes contra eles. Também já joguei muitas vezes contra eles, mesmo nesta era do mister Roberto Martínez, já jogámos algumas vezes contra eles. Sabemos o que podemos esperar deles, sabemos o que temos de fazer. E até acho que é uma mais-valia termos de jogar contra eles, porque é uma seleção europeia. Estamos habituados a vê-los jogar, já jogámos contra, então sabemos bem as forças e habilidades. Se marcar já ao Move [streamer Move_Mind] se ele estiver do lado da baliza que nós estamos a atacar é certo que lhe vou roubar a peruca e metê-la [risos]. Esperemos que isso aconteça.

- Tendo em vista o jogo com a Croácia considera ser preciso mudar alguma coisa para não ficar tudo na mesma ou não é preciso mudar nada?

- Isso cabe ao mister decidir. Do primeiro para o segundo jogo houve mudanças, correu bem. Já parecia que estava tudo bem, estava tudo perfeito. Agora neste terceiro jogo não estivemos tão bem como no segundo, mas também não acho que tenhamos estado mal. E se há mudanças a fazer, isso cabe ao mister, analisar e ele é que toma a decisão final. E esteja quem estiver no onze inicial acho que vai corresponder. Até porque a malta que tem entrado tem ajudado bastante. E quem estiver no onze vai ajudar e depois se alguém sair e quem tiver de entrar vai dar a mesma resposta. Estamos confiantes, só assim conseguimos ir longe. Estamos todos bem preparados, prontos para ajudar e essa tem de ser a mentalidade de todos.

- Façamos uma viagem rápida entre o passado e o futuro: no último jogo de eliminar em provas deste calibre, o Europeu, você acabou por ficar marcado pela bola que foi ao poste contra a França e que ditou a eliminação de Portugal. Temo-lo visto muito confiante neste Mundial, com boas exibições. Mas, de alguma forma são momentos que deixam marca, como é que se ultrapassa e está pronto para ir às grandes penalidades, se for o caso, contra a Croácia?

- Desde pequeno, desde que comecei a jogar a bola, quando comecei a ir a torneios, com 8, 9, 10, 11 anos, o meu pai sempre dizia para assumir, seja durante o jogo, seja nas grandes penalidades. Há uma história, num torneio em Espanha, creio, fui bater o primeiro penálti e marquei, depois o terceiro ou o quarto estava para outro companheiro, ninguém estava a querer ir e eu comecei a ir outra vez para a bola para bater o segundo penálti, que não podia, claro. Ou seja, isso sempre fez parte de mim, o meu pai sempre me incutiu isso. Claro que esse momento foi difícil [jogo com a França], na primeira semana, mas faz parte da carreira de um jogador, faz parte ter adversidades, mas não ver isso como um fracasso, mas sim como uma aprendizagem. E se tiver outro penálti para bater, vou bater, sem qualquer problema, vou assumir. Nunca tive problema e não será agora que irei ter.

- Roberto Martínez disse que haviam dois mundiais, o da fase grupos e outro que começa agora, da fase eliminar. Para vocês muda alguma coisa? Há aqui algum tipo de mudança a nível de pressão e responsabilidade? Tem recebido elogios públicos por parte dos colegas de Seleção, como se sente con tanto carinho?

- Sim, sendo a eliminar, há sempre aquela desconfiança, é que já não podes empatar, ou ganhas ou perdes. E acho que é o que o mister quer dizer um pouco com isso da primeira fase. Na fase de grupos sempre podes empatar ou perder um jogo, porque acabas por te qualificar na mesma. E agora a atenção tem que ser dobrada, qualquer deslize pode ser fatal. Acho que é nisso que temos de estar um pouco atentos, agora é mata ou morre, e temos de estar mais preparados que eles, em melhor forma, mais concentrados, taticamente, emocionalmente, temos de estar melhor que o adversário, e se assim for, depois com a qualidade que temos, vamos ser felizes. Talentoso? Não gosto muito de falar de mim mesmo, nem aqui, nem lá fora. Mas é bom, é bom ouvir essas elogios de pessoas que tenho muito carinho, que são muito próximos. O que é que vou dizer? É sempre bom, não há muito a dizer sobre isso.

João Félix - Foto: MIGUEL NUNES
João Félix (MIGUEL NUNES)

- Pode falar um pouco sobre a parceria com Cristiano Ronaldo, ambos do Al Nassr e também aqui na Seleção. Nota-se que há uma harmonia diferente, vê-se essa vossa cumplicidade em campo?

- Sim, um ano a jogar juntos é muito tempo, dá para conhecer bem o colega, já conhecia o Cris de jogar aqui com ele na Seleção, mas jogando com ele o ano inteiro lá no Al Nassr é completamente diferente, dá para perceber muito melhor o que é que ele precisa, o que é que ele quer, e neste ano deu para perceber isso, e acho que fazemos uma boa dupla, conhecemo-nos bem, ele conhece os meus movimentos eu conheço os dele, ele sabe onde gosto de receber a bola, sei onde e a forma que ele gosta de receber e, portanto, acho que sim, é uma mais-valia, jogarmos juntos, seja na Seleção ou no Al Nassr.

- Sendo a Croácia do mesmo continente do que Portugal, é mais fácil de entender e defrontar equipas europeias do que africanas ou sul-americanas, ou da Ásia, como aconteceu na fase de grupos?

- É sim, depende da Seleção, mas, claramente, sendo uma seleção europeia, o estilo de jogo em si, a forma de encarar o jogo, acho que acaba por ser semelhante, conhecemos a maioria dos jogadores, já jogámos várias vezes contra eles, contra as seleções europeias, jogámos muito mais vezes que contra as seleções do resto do mundo, portanto, na minha opinião, acho que sim, que é uma mais-valia, já sabemos como é que eles jogam, sabemos, como disse antes, das qualidades deles, sabemos as debilidades e é analisar e aproveitar bem, como temos feito, acho que temos feito bons jogos contra a Croácia, temos ganho, não me lembro de um que tenhamos perdido, mas, que isso não seja um facto para relaxar, acho que só temos de estar mais atentos e mais precavidos, e é encarar o jogo de uma forma séria, não encarar da forma de vamos e já está a ganho, não, porque sabemos bem como são estes jogos, e é encarar com seriedade e profissionalismo.

- Cristiano Ronaldo fez os 90 minutos nos três jogos da fase de grupos, e há uma questão já praticamente desde o início, desta ida de muitos jogadores para a Arábia Saudita, que é sobre o ritmo do futebol saudita, tendo em conta esta gestão física que tem sido feita do Ronaldo e o João também joga por lá na Arábia Saudita, consegue ver realmente uma grande diferença de intensidade entre o futebol saudita e agora o Mundial?

- É claro que a intensidade, se calhar, não é a mesma do resto dos campeonatos, mas a verdade é que o campeonato é competitivo, eu não achava antes de lá chegar, e se calhar sou suspeito por estar a falar porque jogo lá, mas a verdade é que o campeonato é bastante competitivo e a questão da intensidade, estou lá há um ano e quando vim à Seleção durante este ano não senti qualquer diferença para com os meus companheiros ou para com os adversários, acho que estou bem fisicamente, sinto-me bem e acho que isso não seja um fator importante ou que marque a diferença, porque se tu te preparas bem, independentemente da liga em que jogues, acabas por estar bem, e não vejo qualquer diferença. Falo por mim, o Cristiano falará por ele como se sente, mas falando por mim não sinto qualquer diferença para os meus companheiros.

- Em que momento chega a Mundial, após uma temporada em que há algum tempo não fazia tantos jogos nem golos. O que mudou em si neste ano?

- Chego confiante, mais confiante do que nunca. Foi um ano incrível, feliz por termos ganho o título, foi muito importante para mim, para todos, para o clube principalmente. Sinto-me confiante, preparado para ajudar a equipa. Não é que antes não me sentisse, mas, claro, depois de uma época destas, aquele nível de confiança extra está sempre lá. E estou cá para ajudar, seja 60, 70, 90, 10 minutos. A confiança vai ser a mesma, a vontade vai ser a mesma. E no que poder ajudar, vou ajudar.

- Antes do jogo contra a Colômbia, Roberto Martínez falou de uma preparação de 13 dias para esse jogo contra e não correu como Portugal queria. O que é que falhou e o que é que não pode falhar nessa preparação agora para o jogo de eliminar com a Croácia?

- Já respondi que foi um jogo complicado. Acho que entrámos um pouco no jogo deles, um jogo de transição. Tivemos pouco controlo do jogo, o que não nos favorece. Somos uma equipa de controlo. Acho que essa foi a nossa principal falha, ter entrado no jogo deles e não ter tido controlo do jogo. É o que nós precisamos, ter controlo. Se nós controlamos o jogo, ditamos os ritmos, quando é que atacamos, quando é que defendemos. E quando não fazemos isso acabamos por ter mais dificuldades, porque não somos uma equipa de transições.

- Em relação à questão da confiança que a equipa tem para esta fase agora decisiva, o selecionador disse que a equipa fez uma exibição excelente contra a Colômbia. O Rúben Dias, numa publicação que fez nas redes sociais, disse que a exibição não foi famosa, tal como a maioria dos observadores. Isto provoca alguma confusão nos adeptos e em toda a gente. Que tipo de confiança é que realmente a Seleção pode transmitir agora para estes jogos que são, como disse há pouco, absolutamente decisivos onde não pode haver os tais empates?

- Muitos falam, muitos dão opinião. Mas quem temos a ouvir verdadeiramente é o mister. O que disser temos que respeitar. É a opinião dele, ele é que manda e temos que ir com as ideias dele até ao fim, temos de seguir o plano dele. E o que tivermos que melhorar, ele também vai dizer para melhorar. O que fizemos de bem, ele vai dizer o que é que fizemos. E tudo o que se fala à volta, seja comentários, publicações, o que quer que seja, é não ver. Nem tinha visto esse post do Rúben Dias, nem tinha lido o que é que ele tinha posto. Mas o importante é ouvir a ideia do mister e o que ele achar é o que está correto.

- Em relação à melhor época da carreira o que é que mudou?

- Já venho a dizer há muito tempo, o principal acho que foi ter jogado na minha posição de origem, é onde me sinto confortável, é posso ajudar a equipa da melhor forma, onde consigo fazer os meus movimentos, as minhas ações com bola, é ali como segundo avançado, a 10. O mister JJ [Jorge Jesus] percebeu isso, deu-me confiança para tirar o melhor de mim, acho que o principal foi isso, que a confiança é a mesma de antes, a vontade é a mesma de antes, o compromisso é o mesmo de antes. Foi simplesmente, acho eu, e ninguém me conhece melhor do que eu, foi ter estado a jogar um ano inteiro na minha posição, que as coisas acabaram por sair bem, porque a minha natureza é ali naquela posição, e quando ali estou, as coisas correm bem.

- Qual a importância que pode ter para si marcar um golo nesta fase importante, num momento decisivo para o jogo, depois de uma grande época no clube?

- Fazer golo é sempre bom, é sempre importante, ainda mais agora, nestas fases a eliminar, são sempre golos muito importantes, mas se me disseres que ganhamos o Mundial e eu não faço nenhum golo assino já por baixo! Nunca foi o meu principal foco, digamos assim, sempre foi fazer o melhor para a equipa, porque podes fazer um grande jogo, podes ter ajudado a equipa em tudo, e não ter feito golo ou assistência, sempre vi o futebol muito assim, e hoje, felizmente ou infelizmente, não sei, mas o futebol é muito visto por números, as estatísticas acabam estragando um bocado o futebol, acho, mas sem dúvida que fazer um golo nestas fases a eliminar é importante, e se tudo correu bem, vou fazer.

- Sente-se um jogador diferente e mais maduro em relação ao passado?

- Sim, sem dúvida sinto-me muito melhor, mais maduro, entendo melhor o jogo, as movimentações, os momentos de atacar, os momentos de defender, os momentos de ter paciência, sem dúvida alguma, sinto-me um jogador muito mais maduro, muito melhor. E sinto que melhorei em alguns aspectos, e esta temporada foi muito importante, o mister Jorge Jesus ajudou-me muito, falou-me coisas que eu não via, e a verdade é que tem sentido, então acho que este ano foi um ano muito importante na minha carreira, sinto-me muito mais preparado do que faz um ano, sem dúvida alguma.

- Como avançado o que considera ser preciso fazer para Portugal melhor o rendimento em campo?

- Às vezes, há momentos em campo em que poderíamos arriscar e ir mais para a frente e acabamos por não ir, mas isso depende da decisão de quem tem a bola. Falando por mim, sempre tento jogar para a frente quando há possibilidade. Obviamente, se o adversário estiver fechado, temos de ter um pouco mais de paciência, mas procuro sempre criar lances, assistir e levar a equipa para a frente. Depende muito do momento do jogo, de como está a partida, se estamos a ganhar, se é um contra-ataque ou se o jogo está muito aberto. Em algumas ocasiões poderíamos arriscar um bocadinho mais, mas isso depende de cada um no terreno de jogo.

- Em relação ao jogo com a Croácia, o que esperam deste adversário?

- A Croácia, nas últimas competições, tem estado muito bem, tem uma geração muito boa, alguns, não muitos, já não estão, já é uma seleção nova, mas a ideia está aí, os jogadores não são os mesmos, mas a ideia está lá, as bases são as mesmas, é um país que vive muito a seleção. É analisar bem, ver o que têm de bom. Ontem foi dia de recuperação, hoje vamos analisar o jogo deles e ver o que o mister diz que é o melhor para nós.

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