Mundial
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Martínez e a equipa sem ponto final
Há treinadores que são autores. Olham para os jogadores que têm à disposição e escrevem uma ideia capaz de os unir. Pegam em talento e transformam-no em narrativa. Não é esse o caso de Roberto Martínez. As suas equipas parecem rascunhos sucessivamente corrigidos e páginas cheias de frases bonitas, mas que nunca chegam a formar um texto. Há posse, sempre a posse, sempre a contemporização, mas falta o essencial: um sentido.
Quando chegou à Bélgica, encontrou uma geração que parecia saída de um romance. Courtois, Kompany, Alderweireld, Vertonghen, Witsel, De Bruyne, Hazard, Lukaku. Uma constelação tão brilhante que parecia impossível regressar a casa sem uma grande taça. Regressou. O tempo passou e a geração dourada envelheceu com as mãos vazias.
Agora, em Portugal, a história ameaça repetir-se. Não porque falte talento. Talvez nunca Portugal tenha reunido tanta abundância em tantas posições ao mesmo tempo. Vitinha joga futebol como quem escreve poesia. João Neves corre como se fosse um armazém de baterias. Nuno Mendes e João Cancelo transformam as linhas laterais em avenidas. Há extremos para todas as ideias e avançados para todas as necessidades. E, no entanto, a equipa parece viver presa dentro de um labirinto desenhado pelo próprio treinador.
O empate com a RD Congo foi apenas mais um capítulo de uma história já conhecida. Portugal marcou cedo e depois perdeu-se na sua própria imagem. Tocou, circulou, devolveu, reiniciou. Como um pianista que conhece todas as notas, mas que se esqueceu da melodia.
O futebol continua a ser um jogo de áreas. E Portugal passou largos períodos a comportar-se como uma equipa fascinada pelo caminho, mas sem qualquer interesse em chegar ao destino. Uma equipa lenta, previsível e incapaz de transformar superioridade técnica em superioridade competitiva.
Depois há Cristiano Ronaldo. Talvez o maior paradoxo da era Martínez. O selecionador insiste nele como centro de toda a equipa. Mas nunca conseguiu construir um sistema que o favoreça. Ronaldo tem hoje 41 anos. Já não pode viver longe da área para depois aparecer dentro dela. Precisa de uma equipa que lhe leve a bola onde sempre foi letal. Martínez mantém-no em campo por devoção, mas não lhe oferece condições para brilhar. É uma contradição permanente. Como insistir num violino e depois escrever uma partitura para trompete.
O problema não é apenas Ronaldo. O problema é uma equipa inteira organizada em função de uma ideia que não existe. Portugal parece jogar para confirmar que sabe ter bola, mas não para ganhar.
As grandes seleções têm identidade. A Espanha de 2010 tinha uma. A Alemanha de 2014 tinha outra. A Argentina de Scaloni encontrou a sua. Mesmo equipas com menos qualidade conseguem sobreviver porque sabem exatamente quem são. Portugal continua à procura dessa resposta.
E isso é o que mais assusta. Porque os Mundiais não esperam pelas experiências sem sentido dos treinadores. Passam. Passaram para a Bélgica e estão a passar para Portugal.
Entretanto, Vitinha continua a circular com a bola, João Neves continua a correr, Nuno Mendes continua a acelerar. Os talentos multiplicam-se. Mas o futebol tem uma crueldade particular. Não guarda medalhas para as gerações que prometiam tudo. Guarda apenas memória para aquelas que conseguiram transformar talento em destino. Roberto Martínez, até agora, tem sido um especialista em desperdiçar ambos.