Mário Zambujal (1936–2026): adeus ao eterno ‘Bom Malandro’
Mário (Joaquim Marvão Gordilho) Zambujal (nascido em Moura a 5 de Março de 1936 e falecido esta quarta-feira, em Lisboa) dizia-se um animal de prazer, espécie de hedonista da vida e da noite. Começou a ser conhecido dos portugueses no final da década de 50 do Século passado, quando começou a escrever em A BOLA, como correspondente no Algarve. Mais tarde, fruto do talento para a escrita e por ser eterno calmo sedutor, tornou-se cada vez mais conhecido através de todos os meios de comunicação: jornais, livros, rádio e televisão. Não tinha pressa. Por não ter pressa, como nos recordou Vítor Serpa, histórico diretor de A BOLA, decidiu sair do jornal, onde muito bem se ganhava, para ser livre e fazer o que bem entendia.
Em 1980, com 45 anos, inquieto durante umas férias no Algarve, por não gostar de praia e ter de ficar por casa, começou a escrever um livro. Aliás, ‘o’ livro. Aquele que o transportou, em definitivo, para a eternidade: A Crónica dos Bons Malandros. Amava a vida, a escrita, os amigos e o Benfica. E um copo de whisky, como revelou em tantas entrevistas e também, como se impunha, em A BOLA. Foi chefe de redação do Século no pré e no pós 25 de Abril. De 1970 a 1975. E também do Diário de Notícias e de O Jornal.
«Escrevi A Crónica dos Bons Malandros, sim, mas nunca fui um malandro. Apenas gosto de viver, de rir e de conviver», como salientou em A Bola Magazine. O seu mais famoso livro saltaria,mais tarde, para o grande ecrã pela mão de outro grande: Fernando Lopes. Participou em musicais, construiu séries televisivas e foi galardoado com o grau de Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e recebeu o Prémio Gazeta de Mérito. E adorava chocolate.
O velório irá decorrer na Basílica da Estrela neste sábado, 14 de março, a partir das 17h, com missa às 20h00. O funeral realiza-se no domingo, às 11h00, no cemitério do Alto de São João.
As mulheres são como os jogadores da bola
(crónica de Mário Zambujal no jornal A BOLA em 2003)
O episódio choque da semana aconteceu com o robusto amigo aqui designado por XL. Ele é rapaz para o seu metro e noventa, bojudo, já nos contou que na Faculdade lhe chamavam o grua. Figura sempre entre os primeiros a chegar a estes encontros em que teorizamos acerca do que se passa na bola do mundo e no mundo da bola. De modo que estranhei a sua ausência na mesa em que se beberricava um delicado vinho branco amparado por camarões de Espinho. A explicação não podia ser mais surpreendente: «Não sabes? Está na fossa. A mulher fugiu-lhe.»
Ó diabo! Eu nem o supunha casado, mas logo imaginei uma esposa furibunda a fazer as malas e a pisgar-se do domicílio conjugal. Exagero. O problema não fiava tão fino. Afinal, a escapadiça não é mulher do XL, apenas uma mulher que o guloso pretendia. E com boas razões para a dar por adquirida: tinham planeado uma viagem à Galiza (até para assistirem à estreia do Quaresma no Corunha, se ele for para lá) e depois à inauguração do Alvalade XXI.
O nosso amigo andava pelo beicinho. Subitamente, sem nada que o fizesse prever, a torta mudou a agulha e sumiu-se. Faltam outros habituais comparsas. Começou a debandada estival, alguns zarparam esta semana com destinos vários e, em princípio, repousantes. O grosso da coluna desliza para o Algarve. Vão iniciar os dias de rabo na areia a decorar os jornais, com prioridade para A BOLA.
Sobretudo por causa das transferências, tema central do castiço Verão português. Outros bons e pontuais parceiros do cavaqueiro voaram para distantes paragens e nem assistem aos primeiros chutos da temporada. Não se pode ter tudo. Mas fizeram-se acompanhar pelos telemóveis e hão de contactar diariamente, em pulgas por conhecer os reforços dos seus clubes.
É esse o assunto em análise, mas não me sai da cabeça o dramazinho do XL e ligo para ele. Admiro-me ao ouvir-lhe a voz fresca e risonha: — Olá, Mário! Estás bom, pá? — Eu, sim. E tu? — Ouvi falar de um problema... Agora é ele quem parece admirado: — Problema? Qual problema? Olha, estou aqui na Trindade com um mulherão que só visto. Conheci-a hoje. Escocesa, pá, escocesa!
Antes assim. Como diria o velho Maurício, as mulheres são como os jogadores de bola: não há insubstituíveis. Quem destoa da gula por reforços é o Baptista Bastos, figura da superliga dos prosadores portugueses: «Jogadores, serão os que tivermos.» E resume, na eloquência daquela voz velada, inconfundível: «Presumo que não vamos ganhar o campeonato todo, mas contem com o Belém no campeonato dos grandes. Vocês, do Benfica, do Porto e do Sporting, bem sabem como elas mordem.»
Aviso do Bastos. Homem de coração azul, nascido defronte do antigo campo das Salésias. Já o calvo Maurício barafustava contra o «antibenfiquismo primário», por causa de balelas sobre a suspensão das obras na Luz, quando chega o XL com um sorriso de orelha a orelha, espantando os que o julgavam em funda depressão. E mais espanto causa quando revela: — Afinal já não vou à Galiza. Combinei uma ida à Escócia. Hei de ver a estreia do Capucho.