O argentino Trungelliti celebra a chegada ao top 100 em Marrocos. IMAGO
O argentino Trungelliti celebra a chegada ao top 100 em Marrocos. IMAGO

Marco Trungelliti, o tenista que desafiou a máfia, faz história 50 anos depois

Desde o dia em que revelou que foi aliciado com 100 mil euros, a sua carreira no ténis desmoronou. Contudo, aos 36 anos vai estrear-se no top 100 do 'ranking' ATP! E o primeiro passo deu-o à custa do português Henrique Rocha

O argentino Marco Trungelliti, 36 anos, venceu por 7-6 e 6-3 o polaco Majchrzak, no ATP 250 de Marraquexe, e vai tornar-se o estreante mais velho no top-100 em 50 anos. Quando afastou (7-6 e 6-2) o português Henrique Rocha, 21 anos, ainda no qualifying, subiu para 109.º e abriu a porta de um sonho que persegue desde menino e foi interrompido há sete anos, quando era 114.º do ATP.

Quase sete anos depois de ter denunciado uma tentativa de suborno, o tenista argentino Marco Trungelliti alcança, em termos individuais um momento único. O jogador, que se tornou um símbolo do jogo limpo, recordou ao jornal La Nación, numa das poucas entrevistas concedidas depois do escândalo, o preço que pagou pela sua coragem e as críticas que mantém ao sistema do ténis.

Em fevereiro de 2019, Marco Trungelliti abalou o mundo do ténis ao revelar publicamente, numa entrevista ao jornal La Nación, que tinha rejeitado e denunciado uma tentativa de suborno para entrar numa rede de viciação de resultados. A sua denúncia levou indiretamente à punição de três outros tenistas argentinos: Patricio Heras, Nicolás Kicker e Federico Coria.

Desde então, o tenista de Santiago del Estero tornou-se uma voz crítica contra as estruturas do circuito profissional, que, segundo ele, desprotegem os jogadores fora do top-100. A sua atitude teve um custo pessoal e profissional elevado.

Denunciar o caso à Unidade de Integridade do Ténis (TIU) — onde lhe prometeram ganhos de até 100 mil dólares por jogo combinado — marcou-o profundamente. Trungelliti sentiu-se isolado, com pouco apoio dos seus pares, à exceção de figuras como John McEnroe. O stresse emocional e físico resultou em lesões e levou-o a mudar-se para Andorra com a sua esposa, sentindo-se abandonado por muitos colegas e instituições, o tenista viveu um período de grande desgaste.

«Não faz sentido continuar a jogar assim, com a cabeça queimada», desabafou na altura.

Agora, sete anos depois, Trungelliti, com 36 anos reencontrou o prazer na modalidade e está a reescrever a história do ATP.

«Nunca me arrependi, porque o fiz por convicção. Havia injustiça e diziam-se coisas que não eram verdade. Mas nunca pensei que incluía o preço que paguei», afirmou anos mais tarde.

O tenista descreve o período que se seguiu à denúncia como extremamente difícil. «Foi duro à medida que o tempo passou e começou o... bullying, o apontar de dedos. [...] Comecei a dar-me conta da confusão em que me tinha metido. O medo que a minha família sentia... foi muito duro. Não é um momento da minha vida que recorde com felicidade», confessou. O impacto foi tal que o levou a um estado depressivo, com perda de vontade de treinar e uma sucessão de lesões.

Trungelliti afirmou que o sistema está «mal montado» e que os jogos combinados continuarão a existir enquanto nada mudar. «Ao ténis interessa que continue a haver jogos combinados, caso contrário, o nível Future e muitos Challengers são insustentáveis; os números não batem certo», declarou, acrescentando que as próprias organizações se alimentam deste esquema.

«Cansei-me de me cruzar com jogadores que me disseram: 'É impossível que eu alguma vez denuncie algo, vendo tudo o que fizeram contigo'», lamentou.

A situação nos torneios Future é, na sua opinião, particularmente grave. «Os jogadores estão completamente desamparados. Nos Futures, há pelo menos um jogo combinado por dia. E estou a ser modesto», afirma, explicando que, embora não tenha provas concretas, a realidade é visível para quem assiste aos torneios. «Senta-se e vê-se as pessoas a apostar ali, ao lado. E nós, como jogadores, os protagonistas do circo, temos de pagar por tudo: comida, hotel, deslocações».

«As pessoas podem gostar ou não, mas Federer e Nadal nunca disseram nada. Queiram ou não, são cúmplices do mau funcionamento do sistema, porque não foram capazes de abrir a boca uma única vez e lutar pelos direitos dos jogadores», acusa. «Como jogadores podem ser excelentes, mas como seres humanos a tentar melhorar o sistema, parecem-me paupérrimos».

O tenista recordou ainda o período difícil que se seguiu à sua denúncia, admitindo que chegou a temer pela própria vida. «Sim. Não voltei mais e jogava apenas na Europa, o que também não me garantia segurança absoluta», confessou. Durante algum tempo, limitou-se a competir em Espanha e Itália, sentindo-se seguro apenas em casa. O regresso ao seu país natal deveu-se a motivos familiares, nomeadamente o desejo de que o seu filho conhecesse os avós e a bisavó.

Revelou ainda que teve a oportunidade de agradecer pessoalmente a Djokovic durante o US Open pelo trabalho que este tem vindo a desenvolver em prol dos jogadores.

«Eu diria que este é um sistema quase feudal, de há 200 anos, com 2% a viver como ricos e o resto que morra», criticou, explicando que um jogador fora do top 100 mundial, ou do top 60 em pares, não consegue viver da modalidade. O tenista lamenta a existência de «maus-tratos e abandono psicológico», onde os jogadores de ranking mais baixo são constantemente menosprezados.

Neste contexto, o atleta aponta o dedo a Roger Federer, considerando que o suíço poderia ter usado a sua influência para mudar o panorama. «O que mais me dói, claramente, é o Federer. Porque com o peso e o carisma que ele tem, se realmente quisesse mudar as coisas, elas estariam mudadas», lamentou. «Fui acusado de delator. Doía-me muito. Era uma dor profunda», confessou, mencionando que o facto de outros jogadores, como Djokovic e Sergiy Stakhovsky, terem admitido ter recebido propostas semelhantes, ajudou a validar a sua posição.