Rafa abriu a contagem na goleada da Luz - Foto: Miguel Nunes
Rafa abriu a contagem na goleada da Luz - Foto: Miguel Nunes

Marco Silva quer impor na Luz um Benfica sem contemplações (crónica)

Depois da 'manita' ao St. Gallen, meia-dúzia ao Hearts. Após a noite cinzenta na Suíça, a equipa encarnada tem ido de progresso em progresso, sentindo-se que ainda tem muito caminho a percorrer até atingir o que o seu técnico pretende. Mas a imagem é clara: pressionar, não abrandar a intensidade, e, inevitavelmente, apoiar-se em bons jogadores. Por isso, Marco só pode ser exigente perante a SAD…

Sessenta e seis anos depois de ter iniciado a caminhada para o primeiro título europeu eliminando o Hearts, o Benfica voltou a medir-se com a equipa de Edimburgo, que esteve a um suspiro de se sagrar, na última época, campeã da Escócia, e foi pura e simplesmente arrasador.

Qualquer semelhança entre o rendimento dos encarnados frente aos escoceses, e aquele que (não) mostrou em St. Gallen é pura coincidência, o que vale, por um lado, como reconhecimento dos méritos do treinador; por outro, atendendo ao reforço do plantel, também se percebe que, por muito bom que Marco Silva seja, sem ovos não fará omeletas. 

Este jogo, antes de entrarmos no que aconteceu ao longo dos 90 minutos, permitiu perceber algumas coisas, que estarão na ordem do dia nas próximas semanas: Trubin e Lukebakio, dois jogadores internacionais, não entusiasmaram Marco Silva e serão ativos a que o mercado deve estar atento, não tendo sido, por certo, por acaso, que não saíram do banco; depois, apesar da excelência do regresso de Tomás Araújo, a troca de  Lenglet por Manu valeu como uma chamada de atenção a Rui Costa para o facto de o Benfica ter de despachar-se a encontrar mais uma solução para o eixo da defesa. Da mesma forma, se não sair mais ninguém do plantel, fica ainda a faltar um médio experiente, que possa juntar-se, com autoridade acrescida, a Barreiro, Ríos ou Aursnes.

Grande Benfica

Contra uma equipa do Hearts construída ao jeito do Moneyball, que se apresentou em 4x4x2, procurando pressionar alto, o Benfica revelou-se intratável, ganhando os lances divididos, desmontando a organização adversária com sucessivas trocas de flancos, e revelando uma capacidade de recuperar a bola num piscar de olhos, que não se via na Luz desde a primeira época de Roger Schmidt. Se é verdade que ter marcado logo aos três minutos foi um elemento galvanizador para adeptos e jogadores, também está colado à realidade o facto de a equipa de Marco Silva ter colorido o relvado da Luz com uma panóplia de argumentos, dos passes longos magistrais em diagonal de Tomás Araújo (especialmente) e Lenglet, à forma como Bah e Dahl se entendiam e complementavam com Rafa e Prestianni, às movimentações do argentino, ficando sempre entre o bom e o mau Sudakov que, apesar de bem protegido e apoiado por Barreiro e Barrechea raramente deu continuidade ao bom futebol que se percebe que tem, mas raramente utiliza.

O primeiro quarto de hora do Benfica sufocou, pura e simplesmente os escoceses, que tinham como única preocupação sobreviver àquela avalanche atacante. Foi preciso esperar 17 minutos, e dois falhanços claros do Benfica para chegar ao 2-0, para que a equipa de Edimburgo conseguisse ligar a primeira jogada com princípio, meio e fim. Foi nessa altura que se viram alguns defeitos enraizados - jogar a bola para trás em vez de fazer receção orientada para a frente, galgando linhas - a que Marco Silva deverá dar atenção, mas esse empertigamento do Hearts provocou uma imediata reação benfiquista, traduzida num cabeceamento de Barreiro (soberbo passe de Lenglet) para grande defesa de Reus (22), seguido do 2-0, na sequência de um canto de Sudakov concluído com uma cabeçada digna de Otamendi de Tomás Araújo. Com a vantagem reforçada, o Benfica voltou a desligar-se da intensidade, o Hearts teve o primeiro pontapé de canto aos 27 minutos e aos 34, uma saída mal calculada de Samuel Soares permitiu a Mendy cabecear ao travessão. O Hearts passou a estar mais confortável no jogo e os encarnados aproveitaram para, depois de um grande entendimento entre Sudakov e Prestianni, verem o argentino a sofrer penálti, que Pavlidis converteu.

Lei (de) Prestianni

Para a segunda parte, os escoceses trocaram Kaboré por Guendouz e passaram a equilibrar melhor a equipa. Assistiram-se então aos dez minutos mais taco-a-taco do encontro, e o Benfica teve culpas próprias nessa circunstância, porque Sudakov executava cada intervenção em câmara lenta, o espaço entre setores aumentou e o Hearts trocou a bola com um à vontade que até ali desconhecera. Estava o jogo nesta fase menos interessante quando Renaud teve um passe arriscado, intercetado por Prestianni, que fez um golo de bandeira.

Aos 4-0, Marco Silva entendeu que era tempo de refrescar a equipa, dando minutos a Ríos (Barrenechea), Schjelderup (Sudakov) e Dúran (Pavlidis). O norueguês foi para esquerda, o argentino transitou para a direita e Rafa foi colocar-se nas costa de Dúran, ao mesmo tempo que Ríos fazia dupla com Barreiro. Na teoria estava tudo bem, mas na prática os encarnados demoraram algum tempo a adaptarem-se ao novo figurino, desuniram-se na manobra defensiva coletiva e o Hearts reduziu para 1-4 (72), voltando a ameaçar, de livre direto, três minutos depois. Foi o canto de cisne dos escoceses que, à medida que os novos jogadores do Benfica iam entrando no jogo, se afundaram irremediavelmente.

Já depois de Durán, egoísta (tinha Schjelderup em ótima posição) ter desperdiçado o quinto golo (83), a equipa de Marco Silva, já com Kaminski no lugar de Prestianni, assinou a melhor jogada da noite, numa transição belíssima, que terminou com uma assistência açucarada de Schjelderup para Durán, que finalizou com classe (87). Mas ainda havia tempo para mais: aos 90 minutos, Rafa, após passe magistral de Schjelderup rematou com estrondo ao poste e aos 90+4 seria o dinamarquês a fazer o 6-1, da marca dos onze metros, após mão de McEntee.Goleada gorda, eliminatória no bolso e, acima de tudo, um progresso nos processos coletivos do Benfica muito assinalável.    

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