Pavlidis, Schjelderup, os testes, Rafa a acelerar no Benfica e o dilema da baliza — tudo o que disse Marco Silva
— Qual foi a receita, o que é que correu bem neste jogo para este resultado? Uma vitória com vantagem de cinco golos e em que ponto é que fica a eliminatória com esta vitória em casa?
— Primeiro jogo com um resultado muito positivo e que nos dá, como eu tinha dito ontem, não conforto mas confiança para aquilo que é o segundo jogo. Naturalmente quando consegues ganhar por esta vantagem, sentimos que a eliminatória está do nosso lado, mas não há facilitismos e é muito importante para nós. Não vamos falar agora da segunda mão porque ainda temos um jogo pelo meio, mas quando chegar o momento, claramente encarar o jogo num ambiente — independentemente da vantagem que temos — num ambiente que é sempre hostil para jogar, um ambiente muito próprio para jogar na Escócia, portanto, preparados para isso. Olhando para a exibição, uma exibição muito positiva da nossa equipa, uma primeira parte de muita qualidade, de boa qualidade. Perceber que a equipa está a melhorar, que se vê coisas que temos vindo a preparar. O primeiro golo é um bom exemplo disso também, a forma como o conseguimos fazer. Tinha pedido aos jogadores para termos uma entrada forte no jogo e foi o que tivemos. Sempre importante marcar cedo, mas não só marcar: a forma como entrámos fortes a tentar jogar em campo ofensivo como nos competia também. Bons momentos da equipa, bons momentos de reação, conseguimos ganhar em zonas mais subidas ao contrário do que tinha acontecido nos últimos jogos e por isso conseguimos ter a primeira parte praticamente toda controlada. Lembro-me de uma transição do adversário e depois a bola parada que acaba por ir à barra; sem ser isso, claramente o jogo do nosso lado. Em muitos momentos a fazermos as coisas muito bem, a conseguirmos circular bem a bola, levar a bola de um corredor ao outro e conseguir criar e explorar aquilo que queríamos na organização defensiva do adversário. Primeira parte positiva. Segunda parte não começámos bem. A equipa deles criou e deveríamos ter começado um pouco melhor a segunda parte. Perdemos algumas bolas que não devíamos. Naturalmente o adversário mudou a estrutura tática, mudou para três centrais, demorámos um pouco a ajustar aquilo que era o nosso posicionamento e os momentos de saltar à pressão. Mesmo os jogadores que entraram demoraram um pouco depois a entrarem no ritmo do jogo. Quando conseguimos, naturalmente o quinto golo depois dá-nos essa confiança também, e quando conseguimos, voltámos outra vez a estar estáveis no jogo e a conseguir depois ter o controlo do jogo de uma forma mais clara do que foram os primeiros 20 minutos da segunda parte. De uma forma geral, um jogo bem conseguido, uma primeira parte muito boa em muitos momentos e o que é mais uma vitória, uma vitória importante. Como eu vos disse ontem também, no momento em que estamos, a jogar jogos oficiais mas estamos a terminar aquilo que é uma pré-temporada. Hoje fizemos a sexta semana de pré-temporada e nós sabemos o que aí vem no domingo já e depois para a semana falaremos da segunda mão.
— Samuel Soares foi titular, pode indicar uma possível saída de Trubin ou foi só opção?
— Eu nunca coloco jogadores a titular para depois indicar algo que seja de quem não joga. Isso é o vosso trabalho e vocês é que levam por esse caminho. A minha decisão é puramente técnica, da mesma forma que começou o Trubin nos primeiros dois jogos, da mesma forma que começou o Samuel no jogo com o Villarreal e o Trubin no jogo com o Flamengo. A decisão foi começar o Samuel hoje, simplesmente isso.
— Acabou por tirar o Enzo Barrenechea de campo, mantendo o duplo pivô com o Leandro Barreiro e com o Richard Ríos. Sente que o Benfica se ressentiu um bocadinho da saída do médio mais posicional que tinha?
— Sim, sim, mas a decisão foi consciente e não me escondo — como estava o resultado — a pensar no jogo do próximo domingo. Não há que escondê-lo, foi essa a decisão. O Enzo é um jogador que tem vindo a crescer, mas é um jogador que tem algumas características muito próprias em termos físicos também. Queremos dar-lhe cada vez mais minutos, mas ao mesmo tempo sabemos que no domingo estaremos a começar outro jogo e outro jogo que é para ganhar, e foi uma decisão de gestão, nada a ver com questões táticas. Estava a fazer um excelente jogo na primeira parte. Faltou-lhe um pouco perceber que podia estar ainda numa linha mais adiantada por trás dos dois avançados e, se ele o conseguisse fazer, ainda tinha mais influência no nosso jogo. Foi isso que eu lhe tentei explicar à equipa e a ele ao intervalo, mas a decisão, neste caso, nem tem muito a ver com questões técnico-táticas, tem a ver com uma gestão clara daquilo que é o jogo do próximo domingo.
— Pavlidis leva cinco golos em três jogos oficiais esta época pelo Benfica e tem sido cada vez mais fundamental na sua equipa. Queria perguntar-lhe como é que tem visto o estado de espírito do avançado grego nos últimos tempos, numa altura em que se fala de uma possível saída para a Turquia?
— Estado de espírito de um grande profissional, de um jogador que respeita muito o clube onde está e que gosta de estar no clube onde está. Tão simples como isso. Nós sabemos, e andamos no futebol há muito tempo, que o mercado quando está aberto... rumores, não só rumores, situações concretas podem mexer ou não com a cabeça de jogadores e mexer um pouco com os clubes também. Nós temos que estar conscientes daquilo que queremos, temos que estar estáveis dentro do que é possível, mas temos que estar estáveis. Temos que transmitir essa mesma estabilidade para os jogadores e para os nossos adeptos, independentemente de decisões que têm que ser tomadas dia após dia, semana após semana. Em relação ao Pavlidis, responder novamente: tem-se regido como um grande profissional que é, como um jogador muito importante para o clube e como alguém que realmente gosta de estar onde está.
— Schjelderup precisou de pouco mais de 26 minutos para marcar e assistir. A exibição do norueguês veio reforçar ainda mais o peso que pode ter neste Benfica?
— Positivo onde se consegue ver um jogador a decidir como o Andreas decidiu em muitos momentos naqueles 25 minutos de que falou. Percebe-se que ainda não está no seu melhor fisicamente, ainda não está no seu melhor, mas como eu disse ontem — e não sei se foi uma questão que me colocou ou não a outro seu colega — não tenho a menor dúvida. Eu não preciso destes 25 minutos para perceber a qualidade que o Andreas tem, aquilo que nos pode dar. Eu disse ontem que é um jogador que, em termos de definição, está a um nível muito alto. É um jogador que tem capacidade de decidir, como decidiu no passe para o Rafa para isolar o Rafa, como decidiu na assistência para o golo do Durán. Parece fácil em alguns jogadores, mas não é assim tão fácil e o Andreas tem esta grande capacidade de tomar decisões, quer em espaços curtos, quer no último terço, quer ter a calma para depois decidir bem como ele o fez. E para mim deixa-me muito satisfeito porque eu sei que ainda não está na melhor condição física e que, quando estiver, ainda vai ser capaz de fazer isto de uma forma muito mais consistente. Vai ser capaz, porque vai ter que o fazer, de andar para cima e para baixo e trabalhar como tem que trabalhar sem bola. Mas é um jogador... um excelente jogador, um jogador de grande qualidade, um jogador que na forma como nós queremos jogar... eu disse ontem e vou repetir hoje também, mas não há problema, que é um jogador de quem eu gosto muito, que tem características muito importantes para aquilo que é o nosso jogar e aquilo que nós vamos querer fazer no Benfica.
— Porque é que, depois de cumprir castigo, incluir imediatamente o Prestianni no onze inicial e se, depois da exibição desta noite, vai ter lugar garantido no onze no próximo domingo?
— Não há lugares garantidos, isso é o primeiro princípio para um clube da dimensão do Benfica. Eu percebo a questão e, naturalmente, jogadores que têm bons jogos... não vamos estar aqui a mudar a equipa só por mudar, mas lugares garantidos ninguém tem. O Prestianni começou o jogo porque, independentemente da forma como nós fomos usando a equipa na pré-temporada, preparando a equipa para os primeiros jogos oficiais, em muitos momentos não começou jogos. Muitos daqueles jogos começou vindo do banco, mas eu sei como é que ele foi trabalhando. Teve uma excelente pré-temporada e em alguns momentos que jogou, que vocês tiveram oportunidade de ver, deu uma boa resposta também em jogos. Mas durante as semanas ele percebeu que o momento não lhe era favorável e trabalhou de uma forma que eu gosto realmente de ver os jogadores de futebol a trabalharem. Sabia que não poderia jogar, mas estava consciente que tinha que trabalhar mais que os outros para demonstrar a qualidade que tem e o porquê de merecer o lugar. Foi uma decisão... disse há pouco... é óbvio que o Andreas não está também ao melhor nível, o Kaminski do primeiro jogo para o St. Gallen para o segundo melhorou, há que dizê-lo. Não foi uma decisão fácil da minha parte tomá-la, tendo o Andreas não pronto para jogar os 90 minutos mas já a precisar de minutos para ir ao seu nível depois de um jogo em que ganhámos ao St. Gallen, mas não tive a menor dúvida que era o momento para o Prestianni começar o jogo. Faltava depois definir qual seria a posição em que iria começar e decidimos: precisávamos de um jogador bem aberto no corredor esquerdo, passava por aí o nosso plano para o jogo. Naturalmente começámos com o Prestianni lá e felizmente teve um jogo de bom nível, um pouco mais cansado já na segunda parte porque é praticamente o primeiro jogo que ele joga há assim tanto tempo, tirando o jogo com o Belenenses aqui amigável que tivemos em casa. Portanto, também para ele marcar... excelente reação na forma como ganha aquela bola e depois uma excelente finalização. É importante para ele também para ganhar confiança. Importante dividirmos os golos por muitos jogadores, que dá confiança naturalmente a jogadores que jogam na frente de ataque, neste caso tirando o Tomás, que é sempre importante marcarem golos.
— Tem apostado em Rafa Silva neste início de época partindo de um dos flancos, um jogador com características diferentes, mas partindo de um dos flancos. Agora tem várias outras soluções. Podia explicar um pouco melhor qual é o plano que tem para o jogador?
— Em primeiro lugar, dizer que estamos muito satisfeitos com aquilo que têm sido as primeiras semanas do Rafa, não só os primeiros jogos oficiais, mas mesmo desde o princípio da pré-temporada. Um jogador que claramente é muito mais de corredor central hoje em dia. Acho que ele foi quase sempre um jogador mais de corredor central; jogando muitas vezes sobre um corredor, procurava muitas vezes também o corredor central. Naturalmente, com a idade, foi jogando muito mais regularmente como um terceiro médio, um segundo avançado, e é claramente a posição, ou a zona do terreno, vamos dizer assim, onde ele se sente mais confortável. Depois é uma questão nossa de decidirmos. Não há que esconder que todas as condicionantes que tivemos durante a pré-temporada me levaram a usar muito mais o Rafa por fora, porque vocês sabem: com o Andreas [Schjelderup], com o Kokçu no Mundial, com o Prestianni sem poder jogar o primeiro jogo... os primeiros dois jogos oficiais... levaram-me a usar, a testar o Rafa muito mais por fora do que por dentro. E essa foi a razão por que ele decidi não o tirar da direita porque... porque queria um jogador totalmente aberto no corredor esquerdo; passava por aí o nosso plano para o jogo. Um jogador para jogar totalmente aberto no corredor esquerdo tinha de ser o Prestianni. O Rafa, se jogar num corredor, não é jogador para estar sempre, sempre aberto, e essa foi a decisão do porquê de jogar o Prestianni totalmente aberto no corredor esquerdo. E se iremos manter ou não, é uma decisão que depois iremos tomando jogo a jogo. Mesmo com ele a começar num corredor, vai acabar, na nossa forma de jogar, por entrar em zonas interiores e depois, com o perfil de laterais-direitos que temos, é uma situação que pode acontecer de uma forma natural no jogo: quer com o Bah, quer com o Dedic, quer com o Bajrami, será algo que nós podemos usar no jogo em muitos momentos, o Rafa a vir ser o nosso quarto médio mais por dentro, dando o corredor para o lateral.
— Como tem sido a adaptação de Durán? Este golo é importante para a evolução dele no clube e o que é que ele traz diferente do Pavlidis no jogo do Benfica?
— São jogadores diferentes. São jogadores que... naturalmente dois grandes, dois excelentes avançados, dois jogadores de enorme qualidade. O Jhon vem de uma época não ao nível que ele tem capacidade para jogar, não ao nível que ele, na minha opinião, vai fazer este ano. E são dois jogadores diferentes que, sinceramente, também podem ser compatíveis em alguns momentos em alguns jogos, pelas características que o Pavlidis tem, que pode em alguns momentos jogar numa zona um pouco mais baixa, quase como um segundo avançado. É algo que poderá vir a acontecer, assim tenhamos tempo também para experimentar e testar, e algo que já temos vindo em alguns momentos a fazê-lo também a nível de treino. Um golo dá sempre confiança a qualquer avançado e para o Durán não será diferente. Mesmo a primeira oportunidade que ele teve... normalmente é um jogador que tem uma capacidade de meia distância muito boa, aquele primeiro momento não lhe correu tão bem. Importante para ele uma excelente transição da nossa equipa, um excelente momento entre ele e o Andreas e uma muito boa finalização, excelente assistência do Andreas também. Dá-nos coisas diferentes em alguns momentos: um jogador mais explosivo, um jogador mais rápido também. Tem a capacidade de segurar, mas é um jogador muito explosivo com espaço, mesmo em último terço é um jogador muito explosivo. Muito satisfeito com aquilo que tem sido o começo de pré-temporada do Pavlidis e é o momento também para irmos dando minutos aos outros jogadores. O Jhon tem vindo a trabalhar bem, está melhor fisicamente, está um pouco melhor, ainda não ao nível. Terá que continuar a melhorar, trabalhar forte para poder ser uma opção para nós, e todos os minutos que possamos dar a nível do que é a competição oficial será sempre muito bom para ele e vai-nos dar coisas importantes à equipa.