Marco Silva, treinador do Benfica - Foto: MIGUEL NUNES
Marco Silva, treinador do Benfica - Foto: MIGUEL NUNES

Marco Silva: o Benfica voltou a acreditar

Mercado de Valores é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo jogador de futebol, economista e comentador

Em poucas semanas de trabalho, Marco Silva conseguiu valorizar um plantel que parecia desacreditado e criar grandes expectativas nos adeptos encarnados. O que mudou no Benfica com Marco Silva?

O caminho

Marco Silva é um treinador com muita experiência ao mais alto nível. Esteve nove anos na Premier League, considerada por muitos a liga mais competitiva e com mais qualidade do mundo.

Treinou clubes que não tinham grandes ambições de títulos, mas as suas equipas tiveram sempre um ADN muito claro: dominar os adversários com bola.

O Fulham tinha a alcunha de equipa yo-yo, porque subia e descia de divisão com frequência. Com Marco Silva, as coisas mudaram. Passou a ser uma equipa de meio da tabela, capaz de lutar pelos lugares europeus e de apresentar um futebol dominador em qualquer estádio e frente a qualquer adversário.

Era uma equipa com coragem, porque queria sempre assumir o jogo. Esta forma de jogar valorizou o clube e os seus jogadores. Foi durante o seu período no Fulham que o clube realizou as maiores transferências da sua história.

Muitos, incluindo eu, estranharam a mudança de Inglaterra para Portugal, sobretudo para um Benfica com uma gestão sem um rumo definido. Acredito que a possibilidade de vencer títulos e acordar um monstro adormecido teve muita influência na sua decisão.

A Identidade

Chegou ao Benfica com uma bagagem de experiência enorme. Pelo conhecimento que tem da liga portuguesa, do Benfica e do passado recente, Marco Silva sabia que podia causar impacto. Estar num clube grande nesta altura da carreira é também muito motivador.

Pode implementar as suas ideias com argumentos que não tinha na Premier League e lutar por objetivos diferentes. Desde a assinatura do contrato, Marco Silva sabia o que queria para o Benfica. A sua proposta de jogo é diferente da dos últimos anos.

Para o técnico encarnado, o Benfica tem de ser sempre uma equipa dominadora e com um futebol ofensivo. Num clube como o Benfica, isso pode fazer toda a diferença.

Conhecendo a realidade portuguesa, Marco Silva sabe que uma equipa que joga para ganhar, que assume o jogo e que proporciona espetáculo tem maiores possibilidades de criar ligação com os adeptos. Por isso, parece-me que há uma diferença na escolha do treinador.

Em vez de um perfil vencedor, baseado sobretudo nos títulos, com que Rui Costa justificou a contratação de José Mourinho, o Benfica contratou um treinador que joga para vencer, algo que não acontecia há anos.

A mudança

Em poucas semanas de Marco Silva na Luz, as mudanças são óbvias. De um plantel que muitos consideravam desequilibrado, com pouca qualidade em algumas posições, de repente os jogadores parecem outros.

O Benfica domina os adversários, cria inúmeras ocasiões de golo por jogo, marca e também falha muitos. A ligação da equipa é visível. Existem movimentos bem definidos e a pressão é feita de forma coletiva e organizada. A intensidade aumentou. Este é um ponto que pode fazer muita diferença este ano.

Marco Silva vem de Inglaterra, onde a intensidade é uma norma, e trouxe métodos de trabalho que têm essa exigência como referência.

Parece-me que os jogadores do Benfica estão mais preparados para jogar durante mais tempo num ritmo elevado. A forma como se treina, a gestão da condição física e a adaptação do corpo ao ritmo pretendido são importantes para conseguir manter esta intensidade.

Defensivamente, a equipa fica mais exposta, mas isso também é consequência da forma como o treinador encarnado pretende jogar. Para limitar esse risco, terá de encontrar mecanismos que permitam à equipa condicionar o adversário no momento da perda de bola. Assumir esta forma de jogar requer coragem, organização, preparação e qualidade. O Benfica tem vindo a fazê-lo.

Também implica jogar no risco, mas quem vê o Barcelona ou o Bayern jogar percebe que esse é um risco que pode valer a pena correr. Claro que ainda há muito a melhorar coletivamente.

O regresso de Aursnes ou a chegada de Palhinha serão mais-valias que deverão melhorar a qualidade coletiva da equipa. Não sei o que o futuro trará. O que sei é que Marco Silva conseguiu voltar a trazer alegria ao Estádio da Luz e a empolgar os adeptos. Apesar da evolução clara em tão pouco tempo, a realidade é que os momentos difíceis irão chegar. Nesse momento, a equipa terá de ter outros argumentos, como união e compromisso, para conseguir superar os obstáculos.

Uma nova vida

Pela forma ofensiva como a equipa se está a apresentar, destaco três jogadores.

Pavlidis é o pêndulo da equipa. Se o Benfica mantiver esta forma de jogar e esta agressividade ofensiva, não tenho dúvidas de que o grego vai marcar muitos mais golos do que na última época. A diferença é que a equipa cria muito mais ocasiões de golo.

Prestianni merece destaque pelo momento de forma, pela qualidade técnica, pelo que acrescenta ofensivamente e pela forma como reage à perda e se envolve no trabalho defensivo. Depois de uma época difícil e de um jogo de pré-época frente ao Flamengo, em que os jogadores brasileiros foram particularmente duros com ele na sequência do episódio envolvendo Vinícius Júnior, o jovem de apenas 20 anos demonstrou enorme qualidade e personalidade. Num contexto que podia tê-lo quebrado, respondeu da melhor forma: jogando futebol.

Por fim, destaco Rafa. Marco Silva conseguiu trazer o sorriso a Rafa. Há muito tempo que não se via um Rafa tão motivado, comprometido e a jogar numa posição onde, no passado, não teve muito sucesso. A realidade é que, até ao momento, Rafa parece feliz. E um Rafa feliz tem qualidade e capacidade para criar muitos desequilíbrios.

A VALORIZAR: RODRIGO MORA

A Roma fez o seu maior investimento de sempre em Mora. Todo um mundo novo se abre para o jovem jogador. Tem a oportunidade de continuar a evoluir num contexto difícil, mas desafiante.

A VALORIZAR: VAN DER GAAG

O regresso do Marítimo à elite do futebol nacional está a correr muito bem. As exibições não foram brilhantes, mas os resultados ajudam a aumentar a confiança. São poucas as equipas que vencem em Famalicão.

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