Marco Silva estava mais do que obrigado a saber quais as condições do seu ingresso no Benfica, sobretudo no apoio ao seu trabalho e no mercado — Foto: Benfica
Marco Silva estava mais do que obrigado a saber quais as condições do seu ingresso no Benfica, sobretudo no apoio ao seu trabalho e no mercado — Foto: Benfica

Marco Silva e o mais puro caos no Benfica

Enquanto o técnico tenta ganhar o tempo que já não recuperará quando tiver o grupo completo, o Benfica volta a afundar-se na impreparação e falta de planeamento e rumo

Uma semana é o que falta para o Benfica se estrear na Liga Europa, na Suíça, diante de um Saint Gallen que pode não possuir o mesmo nível de talento individual e coletivo, mas se expressa de forma sempre desconfortável para os adversários: pressão alta e agressiva, e um futebol bem vertical.

A identidade foi maturada durante seis temporadas pelo alemão Peter Zeidler e afinada nos últimos dois anos pelo compatriota Enrico Maassen, que falhou na primeira experiência na Bundesliga, em Augsburgo, e preferiu depois experimentar uma realidade competitiva que lhe permitisse lutar por títulos fora do seu país. O sucesso não lhe voltou a escapar. Sagrou-se duas vezes vice-campeão e conquistou o primeiro troféu em 26 anos para o emblema mais antigo ainda em atividade no país: a Taça.

Há um mês, o Benfica estava atrasado. E, através do seu presidente, não só garantia que o clube não tinha ficado à espera do treinador que ia e daquele que viria como também se desculpava que o mercado estava parado por culpa do Mundial. Rui Costa dizia-o já depois de o Sporting ter revolucionado todo o meio-campo com reforços e de o FC Porto ter resolvido uma das carências da última temporada, com a entrada de André Silva, tranquilizado no restante pelo título de campeão recuperado. Hoje, não há adjetivos para esta pré-época inenarrável das águias, talvez mesmo a pior do presidente encarnado. É o caos absoluto e o pior é que já não surpreende ninguém.

Depois de terem gasto nas últimas épocas o que tinham e o que não tinham em contratações de valor duvidoso ou, pelo menos, pouco enquadradas com o seu contexto, os encarnados tentam fazer a vida de ricos sem dinheiro que a sustente. O poder no mercado é pouco maior do que zero, mesmo com criatividade e estratégia, algo que ainda por cima também não têm. Sem bons resultados, exceção feita a um Schjelderup de dimensão superior que não podem mesmo perder, não há ainda ativos valiosos que possam vender para financiar o reequilíbrio do plantel. Não há um plano. Ou melhor, há: esperar pelo mercado, em vez de ser proativo, e poder colocar tudo em causa com os jogadores que mais ninguém quer. Porque pelos que os outros querem não conseguem lutar, como já acontece com Ibrahima Ba e até Palhinha. Ao mesmo tempo, reza-se para que se encontre quem pague por jogadores inflacionados como Ríos e Barrenechea — que até nem pode sair já porque pode ter de fazer de central — depois da última época.

Lenglet chegou para preencher a vaga de Otamendi. E, em tese, o que os encarnados perdem em agressividade, em duelos e numa ideia muito própria de liderança —, ganham em sobriedade, posicionamento, capacidade de construção e de quebrar linhas de pressão a partir de zonas recuadas. Mas se esse fogo foi apagado, eclodiu outro logo ali ao lado, em António Silva, no qual se juntam, enquanto combustível, um contrato a expirar e uma recusa na renovação à exibição muito frágil diante do Flamengo. Rui Costa sabia disto há meses. Acredito que seja um otimista — e se o é em todos os mercados só pode ser crónico e um problema —, porém é impensável não ter alternativas.

Havia forte probabilidade de o novo vínculo não ser aceite e de a irregularidade reaparecer. Porque não é só mental, é de ‘escola’. Os erros de abordagem na marcação nunca são questões psicológicas e sim falta de preparação. Se na temporada de afirmação os conseguiu camuflar, os adversários começaram a expô-lo a partir daí, sem que nunca ninguém tenha tentado ajudá-lo a resolvê-lo ou pelo menos retirar expressão ao problema. A questão que mais nos interessa agora é: como é possível que Rui Costa não se tenha precavido? A solução nunca pode ser Gabriel Índio, cujo salto de exigência é, para já, bem maior do que as pernas. Há Tomás Araújo, que fisicamente não tem conseguido responder durante uma época inteira. E um setor, que já estava frágil há várias épocas, sem que as águias se tenham preocupado uma única vez com a sua renovação, ainda parece pior.

Mesmo com estas falhas, com o plantel atual, o Saint Gallen não terá muito com que assustar os encarnados. Assim o esperam os adeptos. Afinal, pelo menos na qualidade individual a diferença ainda é significativa. Ainda que diante do Flamengo estivesse longe de parecer uma equipa e houvesse jogadores fora de posição, como Rafa. A equipa criou muito pouco no plano ofensivo tirando os últimos minutos e já em posição de desvantagem no marcador, não conseguiu controlar o jogo em posse e, defensivamente, esteve longe da coesão desejada. Mesmo sendo o primeiro jogo à porta aberta esperava-se já muito mais.

Claro que faltam os mundialistas além dos reforços, e percebeu-se que, nesta fase, já com jogos europeus, o novo técnico procura consistência e tenta assentar no que já tenha sido antes criado, mas a insistência em soluções que já falharam, como Barrenechea e Barreiro no duplo pivot, a manutenção de Dahl numa equipa que se quer projetar pelos flancos e, sobretudo, a inclusão de Rafa onde não há espaço para as suas correrias não deixaram de acentuar o tom cinzento do momento do futebol do clube, numa altura em que as expetativas costumam estar bem mais altas.

Mesmo Kaminski, contratado para rodar com Schjelderup, fazer de Schjelderup se este sair ou dar uma perninha à direita apresenta mais valências para a transição do que para o domínio que Marco Silva disse querer ter.

O técnico tem poucos dias para unir as pontas soltas do grupo desfalcado que tem em mãos e ganhar tempo para ir, em simultâneo, acrescentando massa crítica. Claro que enquanto o treinador ganha essa margem perde exatamente dias preciosos em que poderia estar já a trabalhar no grupo definitivo. Marco não esconde já algum desconforto, mas a verdade é que assinou por baixo da incoerência que sempre existiu. O Benfica não poderia estar mais atrasado para a nova temporada. Já Rui Costa está cada vez mais refém da sua própria narrativa. Uma que só existirá cada vez mais para ele mesmo.

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