Conversas, arrumações e patinhos feios: todas as declarações de Marco Silva
— Que análise faz a este Moreirense e que tipo de jogo espera?
— Espero um jogo muito, muito difícil. Num campo tradicionalmente difícil para nós, independentemente de no ano passado o Benfica ter obtido lá um bom resultado. Mas é um campo que é naturalmente difícil. Os últimos resultados também o demonstram e, acima de tudo, a qualidade e a organização da equipa do Moreirense vai obrigar-nos a estar a um nível muito bom para conseguirmos aquilo que queremos e que é o nosso objetivo: os três pontos e a vitória e, se possível, com uma boa exibição. Nem sempre é possível, o último jogo é um bom exemplo disso, independentemente de querermos e mantermos a nossa identidade e conseguirmos fazê-lo. Nem sempre é possível devido a várias circunstâncias, e neste caso estou a falar da qualidade e da organização do adversário também. O Moreirense vai proporcionar-nos isso, de certeza: uma equipa bem organizada, uma equipa que quando tem possibilidade de ter bola gosta de ter bola e uma equipa que deu sempre boa resposta. Deram boa resposta, quer em casa com o SC Braga, quer no último jogo também [FC Porto] em que foi possível ver isso. Vinham de uma boa vitória também fora de casa antes do último jogo que jogaram com o FC Porto, portanto, claramente uma equipa de qualidade que nos vai querer dificultar a vida e nós temos de estar ao nosso melhor nível.
— Já falou várias vezes do Sudakov e já disse que o jogador é titular porque é o treinador e assim o entende. Disse também que Sudakov lhe dava sinais de que poderia ser o titular. Que sinais são esses e porque é que acabam por pesar mais do que, por exemplo, os sinais que tem dado Schjelderup, mesmo tratando-se de alguém que tem entrado para posição diferente.
— Schjelderup tem dado bons sinais, é uma realidade e concordo definitivamente. Estou muito satisfeito, e ele sabe o quanto eu fiquei satisfeito com a sua entrada no último jogo. Estamos a ver aquele jogador que eu disse que era fundamental para nós desde que cheguei ao Benfica, quando me começaram a perguntar sobre ele, o quanto eu aprecio as suas qualidades, o quanto eu gosto de um jogador daquela qualidade. Quando chegou do Mundial não estava no seu melhor — teve um período curto de férias, naturalmente para ele zerar em termos mentais, porque depois da época foi ao Mundial e chegou à fase a que ele chegou no Mundial... obriga a estar muito tempo fechado. Demorou um pouco a estar ao nível a que ele está e estou muito satisfeito. Eu percebo que só jogou um jogo a titular esta época, mas para mim — não o demonstrando nas minhas decisões até hoje, eu sei — é um titular desta equipa do Benfica, claramente. Ele tem de lutar pelo seu espaço como todos os outros, e estou muito satisfeito com o impacto que teve no jogo. Como disse e bem, não podemos comparar uma coisa com a outra porque não são jogadores da mesma posição, não podemos estar a dizer que para um jogar o outro tem de sair. Não obrigatoriamente, podem jogar claramente os dois na equipa. Percebo a questão, mais uma vez, a questão do Sudakov, e eu tenho dito: são sinais e são decisões minhas e não tenho de as explicar todas. E não vou explicar, caso contrário estaria a dar azo a muita conversa e a mim não me interessa dar azo a muita conversa. São sinais que o Sudakov me dá, como os que o Tomás me dá, como o Pavlidis e como me dão outros e que eu guardo para nós. Prefiro que os jogadores saibam do que estar a dar azo a muita conversa.
— Com a recuperação de Aursnes e com aquilo que Schjelderup lhe tem mostrado, mas também com o rendimento de Prestianni e do próprio Barreiro, preocupa-o a arrumação que terá de fazer no onze titular do Benfica? Tendo em conta o que o Benfica está a mostrar, mas também o peso que estes jogadores têm no plantel?
— Não me custa nada e não me custa nada arrumar quando temos boas peças para encaixar e para arrumar. É muito melhor, independentemente de poderem criar — e não digo dores de cabeça, pois não criam de todo — mas dúvidas. Não há nenhuma equipa que se torne mais forte se não criar dúvidas ao treinador, mas os próprios jogadores têm de ter estas dúvidas também, porque só assim é que eles vão conseguir atingir objetivos individuais melhores e em termos de performance. Para mim são boas dúvidas. Como iremos encaixar, contando com tantos jogos ao longo da época, iremos encaixar de certeza da melhor forma possível — ou pelo menos aquela que eu acho que é a melhor. Vocês concordarão ou não, mas é aquela que eu acho que é a melhor e sempre em prol daquilo que é o próximo jogo, daquilo que nós queremos para o próximo jogo e o melhor para o Benfica, que é para isso que eu aqui estou. Em relação ao Fredrik [Aursnes] estar de volta, já vos disse e torno a repetir: tem sido fundamental e será fundamental para nós nesta época. Infelizmente para mim e para nós, benfiquistas, ainda não o tivemos ao seu melhor. Finalmente está a treinar de uma forma consistente, já esteve no último jogo. Sinceramente, pelo estado em que estava o relvado, optámos por não correr grandes riscos com ele. A partir de agora está mais do que pronto para ajudar a equipa e para ir para o seu nível, e com o Fredrik ao seu melhor nível nós seremos sempre mais fortes e está para muito breve conseguirmos vê-lo dentro do campo. É um jogador, como vocês sabem, que pode jogar em várias posições. Contamos claramente mais com ele para uma zona intermédia, mas pode jogar em várias posições no terreno e ajudar o Benfica da forma como o tem feito, e para nós será muito bom tê-lo de volta.
— O Benfica tem agora quatro jogos em onze dias, mais coisa menos coisa. Termina essa sequência a jogar fora com o Milan e depois com o FC Porto. Vamos começar a ver alguma rotação ou esse tipo gestão só virá depois da paragem das seleções?
— A época é longa e com o número de jogos que vamos ter, e jogando na Europa com jogos quinta-domingo ou quinta-segunda, obrigatoriamente isso irá acontecer. Essa era uma das razões pela qual queremos um plantel competitivo; não queremos só um jogador por posição para tornar as coisas mais fáceis para quem decide ou para quem joga. Por isso mesmo é que nós queremos competitividade e só assim é que poderemos refrescar. Não falo tanto de rotação só por rodar, podemos refrescar. Se vocês virem bem o número de dias nestes quatro jogos que iremos jogar, a intensidade será enorme. Em alguns deles com três dias de intervalo, mas pelo menos num deles, de domingo para quarta, não será tanto esse intervalo e há sempre ali alguns riscos também. Não querendo antecipar, não querendo falar já dos próximos jogos, para nós o foco é sempre no próximo. É um jogo que está em atraso por opção nossa, decidimos não ter um jogo no meio dos dois jogos do playoff e neste momento vamos tê-lo numa fase também importante, uma fase com muitos jogos, mas é o que é. Depois deste iremos analisar, ver os jogadores jogo a jogo, ver também como é que estamos em termos de fadiga e tomar as melhores opções sempre para o jogo seguinte. Possivelmente iremos ver jogadores que não têm jogado tanto porque é o momento. Neste momento também sinto que a equipa está no seu global a ficar mais homogénea, se assim posso dizer, mas em termos de minutos de jogo não. Começa a haver uma diferença grande entre quem tem jogado mais e os jogadores que chegaram mais tarde ou as últimas contratações também, portanto, começaremos a ter algum equilíbrio nisto. Depende depois de jogo a jogo e das minhas decisões, mas possivelmente irá acontecer mesmo antes da paragem.
— Como é que se gere o lado psicológico, por exemplo, do Schjelderup, que passou da época passada de titular indiscutível, realizando um grande Mundial, a suplente? Marco Silva tem sido um forte defensor do Sudakov, que é visto um pouco pela crítica como uma espécie de patinho feio. Como é que o jogador lida com essas críticas?
— Em relação a Schjelderup posso garantir que está feliz da vida. Quer jogar mais, mas está feliz, vejo-o feliz, vejo-o com o sorriso na cara. Quem entra como ele entrou no último jogo só pode ser um jogador feliz. Todos nós sabemos que o jogador só pode estar totalmente feliz quando joga. E se puder jogar os 90 minutos — mesmo se estiver a fazer uma exibição brilhante —, se sair aos 70' já não estará tão feliz. Faz parte, mas não podemos condicionar, e eu nunca condicionarei as minhas decisões por esse tipo de aspetos. Um jogador que entra como ele entrou, que tem treinado como ele tem treinado, para mim está feliz. Está a mostrar a sua qualidade e, como ele sabe e bem, não estava num grande momento quando chegou, demorou um pouco a estar ao nível que demonstrou e será aquele jogador que vimos nos últimos seis meses. Aquele jogador que fez um grande Mundial — e atenção, fez um grande Mundial nem sempre a jogar a titular, fez um grande Mundial a entrar muitas vezes também, a vir do banco e a ser decisivo também. Há uns que irão jogar mais que outros, acontece em todas as equipas no mundo, não vai ser diferente no Benfica e essa é que é a realidade. É óbvio que ele é um jogador fundamental e será um jogador muito importante para nós e está feliz da vida, isso posso garantir. Quer jogar mais, naturalmente, mas está feliz da vida com esse sorriso com que eu o vi entrar no último jogo e é esse sorriso que eu vejo aqui todos os dias a treinar e quando nós conversamos. Sobre Sudakov e o patinho feio, eu acredito que quando deixar de ser o Sudakov, vocês vão arranjar outro. Em todas as equipas acabam por ter sempre o patinho feio, neste momento calhou ao Sudakov. Teremos esta conversa sempre que ele jogar, se há mais críticas ou não. Percebo que vocês também vão por aí. Não tenho falado com ele sobre este tipo de críticas que vêm do exterior. Os jogadores não se podem condicionar, sei que tem alguma influência. Se eu sentir que tem muita influência neles, naturalmente irei falar e procurá-los para ter essa conversa. Ainda não senti necessidade de ter essa conversa com Sudakov, sobre o que se passa à volta dele ou possíveis críticas ou por o acharem o patinho feio. As minhas conversas com ele têm sido mais no sentido de ele perceber o que nós queremos em cada momento e de lhe dar confiança para ele poder expressar o seu futebol ao serviço da equipa. Não me preocupam as críticas que vêm de fora. Se eu sentir que tem influência nos jogadores, naturalmente vou tentar protegê-los ao máximo, é essa a minha função enquanto treinador do Benfica.
— Vai ser obrigado a mudar no lado direito da defesa com a lesão do Alexander Bah. Banjaqui vai ser titular ou eventualmente pode optar por uma solução diferente?
— Sim, temos várias soluções. A única de raiz, se assim posso dizer, será o Banjaqui. Será lançado o Banjaqui, estará nos convocados. A semana passada decidimos, e bem, independentemente de não termos tido na Madeira de lhe dar jogo — vinha de uma lesão e quisemos dar-lhe minutos na equipa B. Acabou por acontecer a condicionante que vocês já sabem da lesão do Bah e tivemos de adaptar. Temos algumas soluções em termos de plantel que nos permitem tomar este tipo de decisões. Optámos por não tirar Tomás Araújo do corredor central. Existiram grandes mudanças na nossa linha defensiva de um ano para o outro. Se repararem, o Tomás foi jogando com o António [Silva] ou sem o António, mas foram praticamente dividindo. Depois com o Otamendi, que saiu, há uma alteração muito grande ao nível do corredor central na linha defensiva, independentemente de termos mantido o Tomás. No lado direito, vocês sabem o jogador que jogou quase sempre o ano passado também devido à lesão do Bah. E Dedic também acabou por sair. Muitas alterações numa linha defensiva e nós optámos no último jogo por não tirar o Tomás de onde ele tem jogado muito mais. Queremos criar algumas bases importantes nas duplas que criamos, seja do corredor central, seja de corredor central e lateral. Para nós é muito importante não ir sempre mudando para que os jogadores ganhem confiança, para se conhecerem cada vez melhor numa zona do terreno em que para nós é fundamental haver aqui uma estabilidade. Já tínhamos... o João [Palhinha] também entrou há pouco tempo, estar sempre a mudar naquele corredor central para nós não faz grande sentido e essa foi uma das razões. O Tomás pode jogar lá, até porque é um jogador que tem velocidade, com bola é confortável, seja por dentro seja por fora. Naturalmente não nos dá tanta projeção, porque é um central de raiz. Mas a principal razão por não termos pensado no Tomás foi essa mesma: queremos dar estabilidade à equipa, queremos que a equipa tenha alguma estabilidade e optei por adaptar dois jogadores diferentes — um mais ofensivo, um extremo de raiz [Kaminski] que na seleção também faz em alguns momentos, como vocês sabem, o corredor e como estávamos a projetar muito o Bah, foi essa a decisão de manter um pouco o plano estratégico para o jogo, independentemente de já estarmos a vencer naquele momento. E depois, basicamente sermos mais sólidos com a opção do Circati. Fredrik [Aursnes] já fez variadíssimas vezes a posição. Portanto, esperar por amanhã. Não vou desvendar: uma opção de raiz Banjaqui, um jovem em quem nós temos confiança e, se tiver oportunidade, é o momento de ele expressar o seu futebol. Quando menos se espera a oportunidade está lá e temos de mostrar presença naquele momento, e é o que esperamos de qualquer jogador que jogue com a camisola do Benfica. Depois temos as outras opções: mais experiência com o Fredrik ou as adaptações que nós fizemos a semana passada.
— João Palhinha chegou há pouco tempo, já fez dois jogos e o impacto dele foi imediato. Estava à espera que chegasse e tivesse este impacto tão grande na equipa de imediato? E El Karouani e Echeverri estão disponíveis para o jogo de amanhã?
— Em relação aos dois últimos jogadores que chegaram, sim, estarão nos convocados e estarão à disposição da equipa para amanhã. Em relação ao João, tem tido o impacto naquilo em que nós já sabíamos que ele é forte. Algumas características que ele tem, que são bem visíveis quando o jogo vai por esse caminho. O jogo na Madeira proporcionou um pouco isso: a forma aguerrida e agressiva, no bom sentido, com que o Marítimo jogou e que nos obrigou a elevar os nossos níveis de agressividade também. Isso foi um dos aspetos positivos que tirámos, além de outros: não termos sofrido golos, a vitória clara da nossa equipa. Mas o Marítimo obrigou-nos em muitos momentos a disputar duelos individuais e a disputar muitos lances com uma agressividade positiva, e foi um dos aspetos positivos, e naturalmente quando o jogo vai para este caminho, o João é um jogador que tem características muito próprias para este tipo de jogo. Nesse aspeto eu posso considerar que teve um bom impacto. Está a melhorar também em relação àquilo que queremos com bola — melhor num jogo em casa do que no último jogo na Madeira. As condições do relvado também não eram as melhores, mas melhor claramente no jogo com o Estoril do que no último jogo. E este é o espaço que queremos dar com ele. Nós exigimos algo àquela posição seis com e sem bola que é importante que todos os jogadores percebam. O João irá perceber isso muito rápido, está a perceber melhor. Precisamos de tempo para trabalhar com ele para ele se identificar um bocadinho mais — faz parte, independentemente de me conhecer, já não trabalhávamos há algum tempo e temos algumas dinâmicas também um pouco diferentes. Demorou o seu tempo também para o Enzo [Barrenechea] e a realidade é que o Enzo estava num muito bom momento quando teve aquela pequena lesão e eu acho que irá acontecer o mesmo com o João, independentemente de serem jogadores um pouco diferentes no momento com e sem bola. É sempre bom ter os dois. Em relação ao João, bom impacto, mas eu acredito que tem muito para melhorar e que irá melhorar, mas estamos muito satisfeitos com aquilo que foi a sua integração: um jogador português, que conhece bem o futebol português, conhece as dinâmicas daquilo que são as características próprias do futebol português, em alguns estádios que temos de jogar, em alguns ambientes em que temos de jogar. Isso ajuda sempre à adaptação e é um jogador que já quando chegou também a Inglaterra se adaptou muito rápido, não precisa de muito tempo para se adaptar ao tipo de jogo ou de futebol que se pratica, sendo português em Portugal ainda mais se torna menos difícil para ele.
— Há um jogador que não está com Marco Silva neste momento, mas faz parte dos quadros do Benfica. É um jogador importante, um internacional português, chama-se Bruma. O mercado fechou em quase todo o lado e ainda não tem novo clube. Porque é que o Bruma está nesta situação? Foi Marco Silva que abdicou de o poder ter no plantel ou foi uma decisão da SAD que lhe foi comunicada?
— Como eu vos disse, decisões técnicas sobre os jogadores são todas tomadas por mim. Tirando alguns casos especiais, alguma questão disciplinar que possa acontecer, questões contratuais ou de negócios em termos financeiros, que isso aí temos as pessoas mais competentes para tratar sobre isso e não é de todo o meu trabalho. Quando cheguei ao clube tive de tomar decisões. Neste momento temos quatro extremos no plantel e, se contarmos com o Rafa, que tem jogado também no corredor, temos cinco extremos no plantel e foi uma decisão técnica.