Luz rendeu-se à irreverência de quem procura fazer nome (crónica)
A noite fria e desagradável que se abateu sobre uma Lisboa a despedir-se sem saudade da Ingrid não convidava a sair de casa. Mesmo assim, mais de 54 mil benfiquistas foram à Luz ver a sua equipa defrontar o Estrela da Amadora, desvalorizando as desilusões que janeiro trouxe à casa encarnada. E saíram com a alma lavada, porque testemunharam um momento de raro significado quando, aos 84 minutos, Banjaqui cruzou da direita e Anísio, entrado 60 segundos antes, meteu a bola no fundo da baliza de Renan Ribeiro com uma cabeçada de excelente execução. Dois campeões da Europa e do Mundo de sub-17, um e outro sem ainda terem idade para votar, valores emergentes made in Seixal, aqueceram a noite gélida e mostraram que são valores seguros já no presente, a quem o futuro reserva carreiras promissoras, assim saibam manter-se de pés no chão, humildes e com vontade de aprender.
Mas se estes dois jovens iluminaram a Luz (Diogo Prioste também entrou bem), que dizer do melhor em campo, o internacional caboverdiano Sidny Lopes Cabral, recentemente contratado ao Estrela da Amadora? Afinal, não é forçoso ir a destinos exóticos para encontrar reforços a sério. Eles andam aí, só faz falta quem os detete e quem neles acredite. E ainda houve o regresso de Rafa (que não jogava desde 2 de novembro) à casa mãe, onde pode dar a vivacidade que outros, como Barranechea ou Sudakov, não conseguem, e a lucidez que falta a Prestianni.
Vê-se, pois, que na noite em que o Benfica não esqueceu Miki Feher e Eusébio da Silva Ferreira, não faltaram motivos de interesse, que foram, até, para além do próprio jogo.
Início titubeante
Frente a um Estrela da Amadora que não estacionou o autocarro em frente a Renan Ribeiro, o Benfica procurou dar largura ao seu ataque, com Prestianni na direita e Sidny na esquerda, deixando Sudakov (teoricamente) no apoio a Pavlidis. Enquanto isso, Aursnes e Barrenechea (teoricamente) protegiam os centrais. Era assim que estava pensado, mas muitas vezes não aconteceu segundo o previsto, essencialmente porque Prestianni de tanto querer fazer não fazia nada, Barrenechea, vindo de paragem por lesão, estava noutra dimensão, mais a ver o jogo do que a participar, e Sudakov, depois de algumas promessas de melhoria, regressou à versão sem tempo para soltar a bola, que empastela o jogo e lhe retira fluidez.
Logo aos dois minutos, um corte defeituoso de Otamendi isolou Antonetti, que fez a bola transpor Trubin, valendo aos encarnados a dobra de António Silva, que impediu o 0-1 para os amadorenses. Foi o primeiro (e último, por sinal) aviso sério dos forasteiros, que durante a primeira metade beneficiaram da inconstância do Benfica, onde, do meio-campo para a frente, apenas Aursnes, Pavlidis e Sidny se mostravam à altura das circunstâncias.
Sem fulgor, com muitos hiatos, a equipa de Mourinho esteve, contudo, perto de marcar aos 8 minutos (Aursnes um tudo nada ao lado após passe de Sidny) e voltou a assustar Renan (que grande defesa!), aos 17, quando um livre de Sidny animou o Terceiro Anel. A partir desse momento o Benfica entrou numa toada incaracterística, e o Estrela, sem poder de fogo, equilibrou contudo as operações a meio-campo, desfazendo a superioridade territorial dos encarnados.
Como o jogo não atava nem desatava de bola corrida, aos 42 minutos, após canto batido da direita (de pé direito!) por Sidny, Pavlidis faturou com uma belíssima cabeçada. Graças a uma bola parada o Benfica foi para o descanso em vantagem.
Meninos e Rafa
Ao intervalo Mourinho trocou Barrenechea por Barreiro, condenando o Benfica a melhorar. E não tardou muito até que o jogo ficasse resolvido, já que distaram apenas três minutos entre o penálti convertido por Pavlidis (55), após falta clara de Encada sobre o incontornável Sidny, e o golo do próprio Sidny, que aproveitou uma oferta dos ex-companheiros e teve gelo nas veias no frente-a-frente com Renan. Com 3-0 e meia hora para jogar o vencedor estava mais do que encontrado, percebeu isso Mourinho, e também João Nuno, que não entrou em avarias táticas, para evitar males maiores, preferindo refrescar a equipa com caras conhecidas.
Os encarnados voltaram a melhorar com a troca de Prestianni por Schjelderup (60) e mais confortáveis no jogo ficaram quando Aursnes, desgastado, deu lugar a Prioste — entrou bem, tranquilo, a jogar e a fazer jogar — e sobretudo quando Sudakov saiu para o regresso de Rafa. João Nuno ainda fez uma tripla alteração aos 75 minutos, mas seria Mourinho, que tinha apostado — aposta cem por cento ganha — no menino Daniel Banjaqui, a chamar a jogo outra revelação da fornada dos campeões do Mundo de sub-17, Anísio Cabral, que levantou a Luz com um golo de cabeça de excelente recorte técnico, acorrendo a um cruzamento da direita do seu sócio Banjaqui.
O futuro a Deus pertence, mas talvez daqui a uns anos se fale nesta vitória folgada do Benfica sobre o Estrela da Amadora como a noite da estreia de Banjaqui e Anísio. Haverá mais de 54 mil benfiquistas em condições de dizer «eu estive lá».