Anísio Cabral marcou um 'golaço' um minuto depois de ter entrado em campo...
Anísio Cabral marcou um 'golaço' um minuto depois de ter entrado em campo... Foto Miguel Nunes

Luz rendeu-se à irreverência de quem procura fazer nome (crónica)

Aquele que parecia ser um jogo condenado ao desinteresse acabou por tornar-se num excelente motivo de reflexão. Certezas como Banjaqui ou Anísio só precisam de cruzar-se com um treinador que encontre o momento certo (e as doses certas) para ajudá-los na rampa de lançamento. E ‘Sidnys’ há mais por aí, é só procurá-los. Mourinho esteve à altura do desafio

A noite fria e desagradável que se abateu sobre uma Lisboa a despedir-se sem saudade da Ingrid não convidava a sair de casa. Mesmo assim, mais de 54 mil benfiquistas foram à Luz ver a sua equipa defrontar o Estrela da Amadora, desvalorizando as desilusões que janeiro trouxe à casa encarnada. E saíram com a alma lavada, porque testemunharam um momento de raro significado quando, aos 84 minutos, Banjaqui cruzou da direita e Anísio, entrado 60 segundos antes, meteu a bola no fundo da baliza de Renan Ribeiro com uma cabeçada de excelente execução. Dois campeões da Europa e do Mundo de sub-17, um e outro sem ainda terem idade para votar, valores emergentes made in Seixal, aqueceram a noite gélida e mostraram que são valores seguros já no presente, a quem o futuro reserva carreiras promissoras, assim saibam manter-se de pés no chão, humildes e com vontade de aprender.

Mas se estes dois jovens iluminaram a Luz (Diogo Prioste também entrou bem), que dizer do melhor em campo, o internacional caboverdiano Sidny Lopes Cabral, recentemente contratado ao Estrela da Amadora? Afinal, não é forçoso ir a destinos exóticos para encontrar reforços a sério. Eles andam aí, só faz falta quem os detete e quem neles acredite. E ainda houve o regresso de Rafa (que não jogava desde 2 de novembro) à casa mãe, onde pode dar a vivacidade que outros, como Barranechea ou Sudakov, não conseguem, e a lucidez que falta a Prestianni

Vê-se, pois, que na noite em que o Benfica não esqueceu Miki Feher e Eusébio da Silva Ferreira, não faltaram motivos de interesse, que foram, até, para além do próprio jogo. 

Início titubeante

Frente a um Estrela da Amadora que não estacionou o autocarro em frente a Renan Ribeiro, o Benfica procurou dar largura ao seu ataque, com Prestianni na direita e Sidny na esquerda, deixando Sudakov (teoricamente) no apoio a Pavlidis. Enquanto isso, Aursnes e Barrenechea (teoricamente) protegiam os centrais. Era assim que estava pensado, mas muitas vezes não aconteceu segundo o previsto, essencialmente porque Prestianni de tanto querer fazer não fazia nada, Barrenechea, vindo de paragem por lesão, estava noutra dimensão, mais a ver o jogo do que a participar, e Sudakov, depois de algumas promessas de melhoria, regressou à versão sem tempo para soltar a bola, que empastela o jogo e lhe retira fluidez. 

Logo aos dois minutos, um corte defeituoso de Otamendi isolou Antonetti, que fez a bola transpor Trubin, valendo aos encarnados a dobra de António Silva, que impediu o 0-1 para os amadorenses. Foi o primeiro (e último, por sinal) aviso sério dos forasteiros, que durante a primeira metade beneficiaram da inconstância do Benfica, onde, do meio-campo para a frente, apenas Aursnes, Pavlidis e Sidny se mostravam à altura das circunstâncias.

Sem fulgor, com muitos hiatos, a equipa de Mourinho esteve, contudo, perto de marcar aos 8 minutos (Aursnes um tudo nada ao lado após passe de Sidny) e voltou a assustar Renan (que grande defesa!), aos 17, quando um livre de Sidny animou o Terceiro Anel. A partir desse momento o Benfica entrou numa toada incaracterística, e o Estrela, sem poder de fogo, equilibrou contudo as operações a meio-campo, desfazendo a superioridade territorial dos encarnados.  

Como o jogo não atava nem desatava de bola corrida, aos 42 minutos, após canto batido da direita (de pé direito!) por Sidny, Pavlidis faturou com uma belíssima cabeçada. Graças a uma bola parada o Benfica foi para o descanso em vantagem.  

Meninos e Rafa  

Ao intervalo Mourinho trocou Barrenechea por Barreiro, condenando o Benfica a melhorar. E não tardou muito até que o jogo ficasse resolvido, já que distaram apenas três minutos entre o penálti convertido por Pavlidis (55), após falta clara de Encada sobre o incontornável Sidny, e o golo do próprio Sidny, que aproveitou uma oferta dos ex-companheiros e teve gelo nas veias no frente-a-frente com Renan. Com 3-0 e meia hora para jogar o vencedor estava mais do que encontrado, percebeu isso Mourinho, e também João Nuno, que não entrou em avarias táticas, para evitar males maiores, preferindo refrescar a equipa com caras conhecidas.  

Os encarnados voltaram a melhorar com a troca de Prestianni por Schjelderup (60) e mais confortáveis no jogo ficaram quando Aursnes, desgastado, deu lugar a Prioste — entrou bem, tranquilo, a jogar e a fazer jogar — e sobretudo quando Sudakov saiu para o regresso de Rafa. João Nuno ainda fez uma tripla alteração aos 75 minutos, mas seria Mourinho, que tinha apostado — aposta cem por cento ganha — no menino Daniel Banjaqui, a chamar a jogo outra revelação da fornada dos campeões do Mundo de sub-17, Anísio Cabral, que levantou a Luz com um golo de cabeça de excelente recorte técnico, acorrendo a um cruzamento da direita do seu sócio Banjaqui.  

O futuro a Deus pertence, mas talvez daqui a uns anos se fale nesta vitória folgada do Benfica sobre o Estrela da Amadora como a noite da estreia de Banjaqui e Anísio. Haverá mais de 54 mil benfiquistas em condições de dizer «eu estive lá».