Também há muito boas notícias no Serviço Nacional de Saúde

Depois de alguns dias no internamento do serviço de Ortopedia do Hospital de Coimbra, o meu obrigado. Uma história com um médico chinês à mistura, os Lusíadas e a Geração à Rasca. Eu sou o Jorge Pessoa e Silva e esta é a crónica semanal do Livro do Desassossego

Há dois SNS: o serviço Nacional de Saúde que aparece nas notícias e o que não aparece.

O primeiro é caótico, injusto, deixa muitos milhares sem médico de família, tem as urgências entupidas, empurra para o privado, que também já conheceu dias mais calmos e quanto está aflito devolve o paciente à procedência, entre outros pecados que conhecemos de cor e salteado. Espero apenas que, por serem recorrentes, nunca percamos a capacidade de estranhar e de nos sentirmos incomodados com esse SNS.

Na última semana estive no Serviço Nacional de Saúde que não aparece nas notícias. Organizado, competente, compreensivo, cuidador e, acima de tudo, muito humano. O meu reconhecimento ao serviço de internamento de ortopedia do Hospital Pediátrico de Coimbra. Ao sorriso dos médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar e jovens voluntários que dedicam parte do tempo livre a dar apoio aos doentes. Há neste serviço gente de carne e osso, que deixa os problemas pessoais à porta ou, tendo de os carregar, os disfarça com sorrisos. E há um chinês que não se parece fisicamente connosco, não tem os mesmos hábitos que nós, não professa a mesma religião, não partilha a mesma cultura, mas que, por estar em Portugal, dirigiu com sucesso a muito delicada operação do meu filho.

Se Camões fosse vivo, talvez dedicasse um dos cantos dos Lusíadas a estes profissionais que apendi a admirar desde criança, quando, por não ter às vezes onde me deixar, a minha mãe enfermeira me levava para o internamento de otorrino do Hospital de São José, em Lisboa. E eu, com poucos anos, caracóis perfeitos, olhos azuis e um ar de anjinho barroco, a ser apaparicado por todos, retribuindo com canções que aprendia.

Falo de Camões porque há quem se atravesse a garantir ter sido este dia 12 de março, de 1572, que a maior obra da literatura em português foi pela primeira vez publicada. Dez cânticos, 1102 estrofes e 8816 versos em oitavas decassilábicas. Por estar num seminário, saltei o cântico nono nas aulas de português. Essa Ilha dos Amores que afinal era mais pecadora quando a imaginava do que quando a li. Mas li o Canto III que nos fala da batalha de Ourique. D. Afonso Henriques ao leme do corajoso exército que «rompe, corta, desfaz, abola e talha» a desfazer cinco reis mouros. Isto já depois de também neste dia 12 de março, mas de 1088, Urbano II ter sido eleito Papa, ficando depois conhecido por dar início às cruzadas contra os infiéis. E andamos nisto há séculos, percebendo que é mais por ganância e poder do que por fé que continuamos a separar linhas entre homens, matando inocentes em nome nunca me lembro bem do quê. 

Há 15 anos, neste dia, o País testemunhava, até algo incrédulo, as manifestações da batizada Geração à Rasca. Por vários dos manifestantes terem baixado as calças e mostrado as nádegas, alguns a batizaram de Geração Rasca. Esses jovens cresceram. Eram estudantes, é possível que um ou outro esteja agora no serviço de internamento de ortopedia do Hospital Pediátrico de Coimbra. Quem está à rasca sou eu. Eles percebem e dão-me alento. Como escreveu Camões, «Gente forte, animosa e esforçada.» Obrigado.