Em entrevista a A BOLA, Leonardo Jardim garante que não voltará a treinar uma equipa no seu país natal. Faz uma exceção à equipa das quinas, se um dia houver essa possibilidade, mas não o encara como um fardo aos ombros.

Leonardo Jardim: «Não vou voltar a treinar em Portugal»

A única exceção que Leonardo Jardim abre é a Seleção Nacional. A BOLA entrevistou o treinador português do Flamengo no Ninho do Urubu, em evento organizado pela Betano

Leonardo Jardim é um homem tranquilo, apesar da pressão de treinar um clube como o Flamengo, que tem gerado uma expetativa ainda maior na enorme massa associativa devido aos recentes sucessos. O português acredita num processo comprovado ao longo de 30 anos e, quando deixar os cariocas, diz-se sobretudo disposto a acumular experiências… fora do país. Primeiro, há que devolver a competitividade ao Rubro-Negro.

Sempre que há um lugar vago em Portugal no banco de um dos grandes, o seu nome é falado. Para quando e porque não se deu ainda o regresso a Portugal?

— Não, não vou voltar a Portugal para ser treinador de uma equipa. A única abertura para voltar é, se houver um dia essa possibilidade, ser treinador da Seleção. Mas também não faço disso um fardo nas costas, não é? Em 2014, maio de 2014, quando saí do Sporting, prometi a mim próprio que a minha carreira ia ser… Depois de passar da ilha da Madeira para o continente e após a fase do continente, saí uma vez para a Grécia, voltei outra vez a Portugal e, quando saí do país, disse que para Portugal só voltava para a Seleção. Ia fazer toda a minha carreira fora. E foi isso que fiz. Porque sou uma pessoa que gosta de experiências não só futebolísticas, mas de vida. E quando tu trabalhas em três continentes e em sete ou oito países com culturas diferentes, também cresces. Como ser humano, treinador e pessoa. E percebes que, afinal, há conceitos que tens de respeitar. São diferentes de um lado do mundo para o outro, mas tens de respeitar. E por isso, enquanto trabalhar numa equipa vou trabalhar sempre fora de Portugal.

«Sou um lobo solitário, não gosto do show off que há no futebol»

— Nunca foi considerado um treinador revolucionário, apesar de ter conseguido grandes vitórias na carreira. Sente que o futebol trata melhor os treinadores que vendem uma ideia do que os que ganham?

— Não. Sinceramente, sou uma pessoa que vive muito bem consigo próprio. Quando não estou no futebol, quero passar extremamente despercebido. Eu sou um lobo solitário. Olho pela minha alcateia quando tenho de olhar, mas gosto de estar só. Gosto de estar com as pessoas que realmente me dizem alguma coisa. Não gosto muito dos holofotes, não gosto muito das entrevistas, não gosto muito do show off e há muito show off no futebol. Gosto de viver a minha vida de forma tranquila quando não estou no futebol, com as pessoas de que gosto, as pessoas que me dizem qualquer coisa. Não é essa a minha forma de viver, mas respeito aqueles de que o mundo do futebol gosta, que querem show off, querem contar histórias. Mas não me identifico com essa personalidade. Cada um tem de se identificar com a sua personalidade. Identifico-me com a minha, que é: quando não estou no futebol, estou em retiro com aqueles que me amam, com aqueles de que gosto e vivendo as experiências que me acrescentam alguma coisa. Não o show off, não a publicidade, não os media. Tento sempre fugir a isso porque a minha profissão já me obriga por si só a uma exposição grande.

Não vale a pena a gente jogar kick n' rush com jogadores que têm medo do contacto ou jogar como equipa de posse com jogadores que têm dificuldades técnicas. Isso é um contrassenso!

— O Leonardo assume-se claramente como um treinador mais camaleónico, o treinador que se adapta mais ao momento, às circunstâncias, aos jogadores. Praticamente, o que interessa é que o processo funcione, seja com mais posse de bola ou não...

Leonardo Jardim em conversa com A BOLA
Leonardo Jardim em conversa com A BOLA

— O que interessa é aquela base das duas questões… Ganhar. Porque penso assim? Porque comecei há 30 anos a um nível baixo, não fui jogador profissional, não tive aquele agente que me colocasse a alto nível. As coisas aconteceram muito à base do sucesso desportivo. Subidas de visão da terceira para a segunda, da segunda para a primeira. Bons trabalhos. Isso é que me alavancou em termos de carreira e se me alavancou, eu acredito é no processo. Em relação à estrutura e ao jogo, volto a referir que o jogo, para mim, é uma coisa muito, muito simples. O jogo às vezes pede um tipo de estratégia, outras pede outro tipo de estratégia. Às vezes, temos jogadores que não conseguem realizar algumas tarefas, mas conseguem realizar outras. E aí o treinador tem de ter essa capacidade de potencializar ao máximo a capacidade dos jogadores. Não vale a pena a gente jogar kick n’ rush com jogadores que têm medo do contacto ou jogar como equipa de posse com jogadores que têm dificuldades técnicas. Isso é um contrassenso, ainda por cima no futebol moderno, onde é difícil os treinadores mudarem os seus elencos. Estes mudam muito pouco, porque já estão construídos hoje em dia com contratos longos. Por isso, o treinador tem de ter essa inteligência estratégica e táctica de rentabilizar os seus ativos e proporcionar aquilo que o clube pretende, que são resultados desportivos.

*A BOLA viajou a convite da Betano

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