Messi nunca permitiu que o génio expulsasse a ternura — Foto: IMAGO
Messi nunca permitiu que o génio expulsasse a ternura — Foto: IMAGO

Messi ainda mora no impossível

Quando chegou o apito final do jogo com o Egito, Messi chorou. Não eram lágrimas de campeão. Eram lágrimas de menino. 'Bar Nilo' é o espaço de opinião em A BOLA de Luís Aguilar, comentador desportivo

Os calendários são burocratas. Contam dias, riscam meses, acumulam aniversários. O futebol não. O futebol mede o tempo de outra maneira. Mede-o pelos instantes em que um homem consegue fazer esquecer o relógio. Lionel Messi tem 39 anos. Escrevê-lo parece um ato administrativo. Vê-lo jogar continua a ser um ato de fé. Mas não uma fé em vão. Uma fé que paga em milagres a cada jogo.

Neste Mundial, a Argentina tem mostrado que a sua maior força não se resume ao que Messi faz, mas à confiança que ele distribui. Há equipas que entregam a bola ao melhor jogador. Esta entrega-lhe também a esperança. Quando Messi baixa para receber, os companheiros de equipa respiram melhor. Quando levanta a cabeça, o campo parece crescer. Quando acelera, mesmo sem a velocidade de outros tempos, continua a acontecer um momento de magia.

Contra o Egito, o futebol decidiu recordar-nos que os deuses também sangram. A Argentina esteve encostada ao abismo. Messi voltou a tocar na angústia de quem vê o sonho escapar por entre os dedos. Mas a equipa levantou-se. Não porque um homem a tenha conseguido salvar sozinho, como tantas vezes aconteceu, mas porque todos acreditaram que, enquanto ele permanecesse em campo, ainda existia uma porta aberta para o impossível.

Quando chegou o apito final, Messi chorou. Não eram lágrimas de campeão. Eram lágrimas de menino. O rapaz de Rosário apareceu por um instante atrás do homem que conquistou o mundo. Naquele momento, o futebol devolveu-lhe a infância. Não jogava para ser o melhor. Jogava apenas para não perder aquilo que sempre o definiu: a capacidade de se emocionar. Em cima de todos os títulos, coletivos e individuais, essa é a maior vitória de Messi. Nunca permitiu que o génio expulsasse a ternura.

Vivemos uma época estranha. Uma época em que elogiar Messi parece obrigar a pedir desculpa aos admiradores de Cristiano Ronaldo. Como se a beleza tivesse de escolher uma única morada. Como se o aplauso fosse um bem escasso. Como se a admiração precisasse de fronteiras. É uma pobreza que o futebol nunca mereceu.

Cristiano pertence à mesma galeria dos homens que desafiaram o impossível. Messi apenas ocupa outra parede desse museu. Quem entra no Louvre não escolhe olhar para um único quadro. Caminha devagar. Contempla todos. Sai maior do que entrou.

Mas hoje nem sequer é dia de falar dessa comparação. Hoje é dia de olhar para um argentino que continua a brincar com uma bola como se a tivesse encontrado numa rua perto de casa. Alguém que já marcou golos suficientes para escrever uma enciclopédia, que já levantou taças que podiam encher um museu, que já cravou o seu nome no coração da eternidade. Mas continua a celebrar cada vitória como se fosse a primeira.

Eduardo Galeano escreveu um dia que «o futebol é a única religião que não tem ateus». Messi é um dos seus maiores devotos. Continua a amar o jogo como um principiante. Continua a fazer do futebol, o princípio, o meio e o fim para mergulhar na emoção. Não estamos apenas a assistir aos últimos capítulos de uma carreira. Estamos a ver um homem negociar, jogo após jogo, mais alguns minutos de pureza. Sem adornos, sem camadas, sem as dúvidas e as barreiras do mundo dos adultos. Apenas a bola. Porque, como dizia Maradona, «la pelota no se mancha».

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