4.º - Vozinha, de Cabo Verde (18 defesas) - Foto: Imago
4.º - Vozinha, de Cabo Verde (18 defesas) - Foto: Imago

Os avançados continuam a decidir jogos. Harry Kane continua a marcar. Erling Haaland continua a impor-se. Lionel Messi continua a fazer história. Kylian Mbappé continua a ser decisivo. Mas, neste Mundial, há uma posição que conquistou um protagonismo invulgar: o guarda-redes.

Esta edição da prova está a confirmar algo que o futebol moderno já vinha anunciando há vários anos: os guarda-redes deixaram de ser apenas os últimos homens da equipa. Hoje são, muitas vezes, os primeiros. São os primeiros a construir. Os primeiros a organizar. Os primeiros a orientar. E, sobretudo, os primeiros a transmitir confiança. Durante a fase de grupos vimos vários erros na construção desde trás. A insistência em sair a jogar curto, característica do futebol moderno, expôs algumas equipas e mostrou que a evolução da posição também trouxe novos riscos. Ultrapassada essa fase, o torneio revelou a outra face dessa transformação.

Quando o jogo aperta, quando o adversário domina e quando as oportunidades surgem em catadupa, continua a existir uma qualidade que nenhuma ideia de jogo consegue substituir: a capacidade para defender. E foi precisamente aí que os guarda-redes voltaram a assumir o protagonismo.

Este não tem sido apenas um Mundial das grandes estrelas. Tem sido também um Mundial dos homens da baliza.

O mais interessante é que esta evolução já não pertence apenas às grandes potências do futebol. Também seleções de menor expressão competitiva apresentaram guarda-redes capazes de decidir jogos e de manter as respetivas equipas competitivas durante largos períodos. Eloy Room, por Curaçau. Mohammed Al-Owais, pela Arábia Saudita. Alireza Beiranvand, pelo Irão. E Vozinha, por Cabo Verde.

Mesmo em países onde a tradição futebolística, os recursos e as estruturas de formação continuam distantes das grandes escolas europeias, a posição evoluiu de forma notável. Muitos destes guarda-redes competem hoje em campeonatos estrangeiros, trabalham diariamente com metodologias de treino altamente especializadas e chegam às grandes competições com um nível competitivo que, há duas décadas, seria difícil de imaginar. O resultado está à vista. Jogos cada vez mais equilibrados. Equipas mais competitivas. E guarda-redes capazes de manter seleções «vivas» durante noventa minutos.

Durante muitos anos dizia-se que as seleções de menor dimensão sobreviviam graças aos seus guarda-redes. Este Mundial mostrou-nos algo diferente. Hoje, muitas delas já não sobrevivem apenas por causa deles. Competem graças a eles. E isso explica, melhor do que qualquer estatística, a extraordinária evolução que esta posição conheceu nas últimas duas décadas.

Entre todos, o caso de Vozinha merece um destaque especial. O antigo guarda-redes do Grupo Desportivo de Chaves ultrapassou largamente o impacto desportivo. A consistência ao longo do Mundial e as exibições frente à Espanha e à Argentina de Messi transformaram-no numa das grandes figuras deste Campeonato e conquistaram a admiração de adeptos dos quatro cantos do planeta. Essa notoriedade refletiu-se nas redes sociais. Chegou ao torneio com menos de 50 mil seguidores no Instagram e, durante o encontro frente à Espanha, viu esse número ultrapassar um milhão em menos de noventa minutos. O crescimento continuou de forma impressionante. Hoje soma 28 milhões de seguidores, tornando-se o guarda-redes mais seguido do mundo, à frente de Manuel Neuer (15 M), Thibaut Courtois (17.9 M), Keylor Navas (19.1 M) e Iker Casillas (20.4 M). Mais do que um fenómeno das redes sociais, Vozinha tornou-se o símbolo de uma ideia que este Campeonato do Mundo tem vindo a confirmar: um grande guarda-redes pode projetar uma seleção, inspirar um país e conquistar o reconhecimento do mundo inteiro.

Portugal teve em Diogo Costa o exemplo mais completo desta realidade. Destaco particularmente as suas exibições frente à Colômbia, à Croácia e à Espanha. Foi, na minha opinião, a par de Renato Veiga, o jogador português mais consistente da competição. Em várias ocasiões, foi ele quem manteve Portugal vivo nos jogos.

Muito se falou da infelicidade na eliminação frente à Espanha. É verdade que houve um momento que podia ter mudado o resultado – o remate de Nuno Mendes à trave. Mas também é verdade que, antes disso, Diogo Costa já tinha impedido, por diversas vezes, que o desfecho chegasse mais cedo.

Há ocasiões em que chamamos sorte àquilo que, na realidade, foi competência. Aquilo que mais me impressiona em Diogo Costa - e isso percebe-se com enorme facilidade em quem acompanha o FC Porto - nunca foi apenas aquilo que faz. É aquilo que provoca. Quando um guarda-redes transmite confiança, toda a equipa joga de forma diferente. Os centrais arriscam mais. Os laterais sobem mais. Os médios pressionam mais alto. Os adeptos respiram melhor.

Há efeitos no futebol que nunca aparecem nas estatísticas. Não surgem nos mapas de calor. Não entram nos relatórios de desempenho. Mas sentem-se. Diogo Costa é um desses jogadores. Muda o comportamento de uma equipa inteira sem precisar de tocar constantemente na bola. Tecnicamente, representa quase o retrato perfeito do guarda-redes moderno. É rápido entre os postes. Domina o jogo aéreo. Lê a profundidade com inteligência. Sai da baliza no momento certo. É forte no um para um. É especialista na defesa de grandes penalidades. E possui uma qualidade com os pés que lhe permite participar na construção do jogo como se fosse mais um elemento da linha defensiva.

Não é apenas um guarda-redes que evita golos. É um guarda-redes que permite à equipa jogar melhor. Mas reduzir Diogo Costa às suas qualidades técnicas seria profundamente injusto. Porque aquilo que verdadeiramente o distingue não cabe numa ficha de observação. É a serenidade. É a personalidade. É a capacidade de transmitir calma quando todos os outros sentem pressão.

Não é apenas uma perceção portuguesa. Ainda muito antes de assumir definitivamente a baliza do FC Porto, Iker Casillas viu nele o guarda-redes capaz de lhe suceder. Não era um elogio qualquer. Vinha de um campeão da Europa e do Mundo. De um dos melhores guarda-redes da história. Alguém que conhecia e conhece, como poucos, o peso daquela posição.

Hoje, custa-me encontrar três guarda-redes melhores do que Diogo Costa. E, sinceramente, não me surpreenderia vê-lo, num futuro próximo, assumir a baliza de qualquer um dos maiores clubes da Europa. Pela forma como interpreta o jogo, pela qualidade na construção, pela serenidade com que vive os momentos de maior pressão e pela capacidade de decidir partidas, encaixaria naturalmente em equipas como o Paris Saint-Germain de Luis Enrique, onde o guarda-redes é uma peça fundamental na primeira fase de construção; no FC Bayern Munich, quando chegar o inevitável momento da sucessão de Manuel Neuer; ou até no Real Madrid CF, como um dos candidatos naturais a assumir a baliza quando terminar o ciclo de Thibaut Courtois.

Digo-o não porque deseje vê-lo sair do FC Porto. Bem pelo contrário. Enquanto símbolo, capitão e uma das maiores referências do balneário portista, a sua permanência seria, por si só, uma das melhores notícias que os adeptos azuis e brancos poderiam receber. Mas há jogadores cujo talento acaba inevitavelmente por ultrapassar fronteiras. E Diogo Costa pertence, sem qualquer dúvida, à elite dos guarda-redes mundiais.

Quanto à Luva de Ouro, é provável que o prémio acabe nas mãos do guarda-redes da seleção campeã. A história da competição mostra que assim acontece com frequência. Mas, se o critério fosse apenas o impacto que cada guarda-redes teve no percurso da sua equipa, a minha escolha seria outra. Entregá-la-ia ao Bono de Marrocos ou a «nosso» Diogo Costa.

Os golos continuarão sempre a decidir jogos. E acabarão, também, por decidir quem levanta o troféu de campeão do mundo. Mas este Campeonato do Mundo voltou a lembrar-nos uma verdade que o futebol, por vezes, insiste em esquecer: antes de um avançado poder ganhar um Mundial, há quase sempre um guarda-redes que impede que ele seja perdido.

A final de 2022 talvez seja o exemplo perfeito. Todos recordamos a consagração de Lionel Messi. Mas, para que esse momento pudesse existir, houve primeiro uma defesa que mudou a história. Aos 123 minutos, quando Kolo Muani surgiu isolado perante a baliza argentina, Emiliano Martínez fez uma daquelas defesas que valem títulos. Se aquele remate entra, a Argentina provavelmente perde o Mundial. Messi continuaria a ser um dos maiores jogadores de sempre, mas talvez lhe faltasse o troféu que tantos diziam faltar à sua carreira.

Uma defesa alterou o destino de uma final. Talvez até a forma como a história recorda um dos maiores protagonistas do futebol mundial.

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».

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