Em entrevista a A BOLA, Leonardo Jardim lamenta que haja gente no futebol disposta a passar por cima de outras pessoas, algo que não se revê.

«Relação com jogadores é próxima… mas no futebol todos passam por cima uns dos outros»

Leonardo Jardim lembra que não se obtêm resultados sem haver boa ligação entre todos, enquanto rejeita comparações com o antecessor, mais jovem e com passado de colega de alguns membros do plantel

—  O Leonardo disse, ainda enquanto treinador do Cruzeiro, que não está no Brasil para fazer amigos. Acha que, num clube como o Flamengo, em que há tanta paixão, tanta força à volta, o equilíbrio certo para ter sucesso é ser alguém mais distante ou isso é uma preocupação para si? Se calhar não ter aquele relacionamento de balneário que se calhar Filipe Luís tinha, como antigo jogador, que fazia com que fosse muito próximo dos ex-colegas… No seu caso, paira essa ideia de afastamento em relação aos jogadores. Acha que isso pode servir para ser positivo ou pode, de certa forma, acabar por prejudicá-lo?

— Não. Em primeiro lugar, em relação à minha relação com os jogadores…

— Não estou a dizer que é má, atenção!

— Vou tentar explicar. Não vou fazer comparações e vou falar da minha relação com os jogadores e com as pessoas que trabalham connosco, ou seja, não só com os jogadores, mas também com os roupeiros, com todo o staff. É uma relação muito próxima, porque acredito que só na proximidade é que a gente consegue os melhores resultados e retirar o melhor de todos. Com o afastamento, não se tira o melhor de todos. Não é com vinagre que a gente apanha as moscas. E, por isso, eu acredito nessa forma de gerir. E essa forma é a minha forma de gerir ao longo dos anos. Quando eu falo que não venho para o futebol para criar amizades, não é no Brasil, mas em qualquer sítio em que trabalhei. Já trabalhei em vários países e o que é que acontece? Criei uma ou outra amizade. O futebol é um negócio muito competitivo, por isso, hoje em dia, as minhas melhores amizades não são pessoas de dentro do futebol. No futebol, as pessoas às vezes têm de passar por cima uns dos outros e isso não está bem nas noções de amizade que eu tenho. Por isso, daí essa minha afirmação, que não é no futebol que eu procuro amizades de certeza. Tenho meia dúzia de amizades que construí ao longo da carreira, pessoas que respeito, mas não estou aqui à procura de, nem com jornalistas, nem com elementos do staff, criar relações de amizade, mas sim relações de colaboração de trabalho. Sabendo que se o resultado final tem de ser sempre benéfico para todos e então temos de trabalhar em prol desse desejo de vitória.

Às vezes, os media tentam desenvolver uma ideia do título ou não-título, e temos também de ser um pedacinho mais irónicos para dar resposta a essas pessoas que veem o futebol dessa forma, não é? Pronto. E, por isso, às vezes temos de fazer afirmações bombásticas para ver se as pessoas caem na realidade. Porque a crítica hoje em dia está demasiado fácil de fazer

— No fundo, o que interessa é que a mensagem chegue aos jogadores e a toda a gente… Classificou o ano sem títulos do Cruzeiro como um dos maiores fracassos da carreira, mas agora a exigência em termos de Flamengo, digo eu, duplicou, não é? Sente que tem ainda mais pressão?

— Não. É assim. Eu já trabalhei em alguns países e, graças a Deus, tenho conseguido títulos em quase todos os países em que trabalhei. E no Brasil, no ano passado, estivemos perto na meia-final da Taça. Não conseguimos superar o nosso adversário e fomos eliminados nos penáltis. Claro que gostaria de ter um título. Acabei por ganhar um logo no primeiro jogo que fiz aqui [pelo Flamengo] no Carioca. Mas isso é uma resposta àqueles que olham o futebol só pelos títulos, não é? Eu até podia responder dessa forma e dizer “ah, e não tenho nenhum”, mas graças a Deus tenho. Tenho o título numa das Ligas top-5, que, em Portugal, depois do Mourinho e do Artur Jorge, não tem mais ninguém. Fui o único português a ganhar a Champions League asiática, que também não tem mais ninguém. Sou o único português a ter estado numa meia-final da Champions League sem ser o Mourinho. Por isso, já tenho tido alguns títulos na minha carreira. Mas eu costumo dizer que o futebol é muito mais do que isso. Eu, às vezes, valorizo. Por exemplo, no ano passado o Mirassol fez uma grande campanha, tal como o Cruzeiro, devido também às contingências, e também não ganharam títulos. Mas vocês sabem que às vezes os media tentam desenvolver uma ideia do título ou não-título, e temos também de ser um pedacinho mais irónicos para dar resposta a essas pessoas que veem o futebol dessa forma, não é? Pronto. E, por isso, às vezes temos de fazer afirmações bombásticas para ver se as pessoas caem na realidade. Porque a crítica hoje em dia está demasiado fácil de fazer. As pessoas deviam inteirar-se mais do que se passa e do trabalho que as pessoas desenvolvem nos clubes. Muitas vezes, é a gente ter de ver as coisas da parte mais positiva. Hoje, vê-se tudo de forma muito negativa.

A pressão que eu crio a mim próprio é maior do que qualquer pressão que possa existir em qualquer clube

— Repito a pergunta: sente mais pressão neste clube ou não?

— Sinceramente, a maior pressão que sinto é aquela que imponho a mim mesmo naquilo que faço. Não é neste momento, mas em toda a minha vida. Porque, já disse anteriormente, tive, para chegar a alto nível, uma pressão sobre mim próprio… Tinha atrás de mim a minha família, queria impor-me num mundo que não é para todos. E essa pressão que eu crio a mim próprio é maior do que qualquer pressão que possa existir em qualquer clube. Mas é certo que aqui no Flamengo existe uma dimensão mediática e torcedores que, pelo seu amor, pelo seu carinho ao clube, querem ganhar. E isso para nós é fantástico, porque é um apoio-extra para os jogos e também para o nosso trabalho.

Flamengo faz treino de recuperação depois da vitória sobre o Estudiantes — Foto: Maycon Quiozini
Flamengo faz treino de recuperação depois da vitória sobre o Estudiantes — Foto: Maycon Quiozini

— Acha que a Imprensa brasileira exige mais dos treinadores portugueses do que dos brasileiros, por exemplo?

— Acho que não. Acho que a imprensa brasileira é como em todos os outros países. Procura dar notícias como em todos os países. Com certeza que olha se muito para o copo meio-vazio, não é? Porque o copo meio-vazio vende mais do que o copo meio-cheio. E no futebol é assim que funciona, é assim que temos que jogar o jogo.

*A BOLA viajou a convite da Betano

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