Cariocas têm marcado muitos golos e o treinador acredita que, com o tempo, as dinâmicas vão aumentar ainda mais a produtividade da equipa

«Defensivo, eu? Ideia-base das minhas equipas é a criação de situações de golo»

Português recusa o rótulo de treinador mais defensivo e lembra temporadas goleadoras no Mónaco. Faz balanço positivo aos primeiros meses no Flamengo e acredita que a equipa está a evoluir na fase de criação

— Leonardo, começaria por lhe pedir um balanço destes primeiros meses ao serviço do Flamengo.

— Há um balanço… Em primeiro lugar, a entrada aqui no Flamengo teve de ser muito rápida, porque entrámos quatro dias antes de uma final, do primeiro troféu que podíamos ganhar, num momento difícil, uma vez que a equipa tinha acabado de perder dois troféus, um nacional e outro internacional [a Supercopa Rei (Supertaça do Brasil), diante do Corinthians; e a Recopa Sul-americana (Supertaça sul-americana, diante dos argentinos do Lanus] e é um clube intenso, e de que toda a gente conhece a sua dimensão, no Brasil, na América do Sul e Mundial. É um clube que vive de vitórias, por isso não existem projetos a longo prazo. São imediatos e é isso que tentamos vincar logo de início. Mostrar rapidamente o nosso trabalho, a nossa competência, de forma a jogarmos todos os jogos para vencer, mas também com um futebol agradável. Um futebol agradável para os adeptos do Flamengo, que são exigentes e gostam de uma equipa dominante e enérgica. Por isso, tentámos planear um conteúdo de jogo que permitisse dar essa satisfação também aos adeptos. E, com certeza, os resultados são a peça fundamental.

— Mas sente que houve aqui algum risco por entrar já numa 5.ª jornada do Brasileirão, por exemplo? E ao ter como herança futebolística uma bocadinho diferente da sua. O Flamengo está habituado a uma equipa de muita posse, de percentagens elevadas de posse de bola, longe do perfil que o Leonardo tem, em que é visto como mais reativo, mais direto e também com uma abordagem mais de transição…

— Depende sempre daquilo que temos, não é? Durante a minha carreira, já tive equipas com uma transição mais rápida e outras equipas mais em posse. Tento sempre… Há sempre uma ideia-base naquilo que são os meus trabalhos e essa é a criação de situações de golo. Acredito que os adeptos vão ao estádio para ver golos, gostam de equipas que criem. Se criam em posse ou criam mais em dinâmicas rápidas, isso não é importante. O importante é a criação, porque os adeptos vão ao estádio para ver o espetáculo. Ainda esta semana falei para um canal francês e eles referiram o Mónaco, que chegou a fazer 103 golos numa época e 80 e tal noutra. Acontece em todas as minhas equipas e este ano está a passar-se o mesmo aqui no Brasil: o Flamengo é uma das equipas que mais marca e já tinha acontecido no Cruzeiro também, que era uma equipa que marcava muitos golos, porque eu acredito que, independentemente do método, o resultado final de criar e ser ofensivo é que é importante quando trabalhas numa grande equipa, seja no Sul da América, na Europa ou mesmo na Ásia.

O reencontro com Abel Ferreira, no Maracanã, para o Brasileirão
O reencontro com Abel Ferreira, no Maracanã, para o Brasileirão

Até uma das equipas com maior posse de bola no mundo, que é o City, contratou há três ou quatro anos o Haaland, que é dos atacantes que mais joga em profundidade. Por isso, as equipas têm de ter meios para resolver as necessidades que estão no jogo, seja em momentos mais de transição ou mais de ataque apoiado. E isso é o que faz uma grande equipa, não somente um estilo.

— Sendo que depois depende também dos jogadores, não é? Há jogadores que estão mais bem preparados para o tipo de futebol que o Leonardo vê como melhor. Há outros que não estão estão bem preparados, têm de ser trabalhados e este plantel, se calhar, está um bocadinho fora desse âmbito ou precisasse um bocadinho mais de tempo para que chegasse ao Flamengo perfeito, perfeito entre aspas, claro…

— Obviamente, existe uma substituição de treinador porque as coisas não estão perfeitas. Essa é a primeira diretriz. Não é aqui no Flamengo, mas em todos os clubes. Quando trocam o treinador é porque existe qualquer coisa que há que mudar. Os jogadores? Os jogadores, hoje em dia, são de alto nível, conseguem adaptar-se com alguma facilidade. E a gente tem essa vantagem de ter jogadores experientes, jogadores dinâmicos, que podem entender muito bem algumas alterações em termos da forma de jogar. E foi nessa base que nós criámos algumas nuances no jogo do Flamengo. Com certeza que não há muito tempo a trabalhar, jogos de três em três dias, mas foram essas nuances que criámos e, aos poucos, vamos evoluindo para uma equipa competitiva e, volto a referir, uma equipa de criação, uma equipa que não espera um lance ou dois para resolver o jogo, mas uma equipa que cria várias situações, que normalmente é uma marca das minhas equipas.

— De qualquer forma, acabou por fazer a promessa de que o seu futebol ia ficar mais ou menos próximo do do seu antecessor…

— Não. O que eu disse é que havia ideias e conceitos que se iam manter. O Filipe [Luís] é um treinador que conheço muito bem, até tenho uma boa relação com ele. E falamos às vezes de futebol, principalmente quando eu estava no Cruzeiro. A ideia de pressionar, de linhas compactas, a ideia de ter posse quando o adversário está mais baixo e não dá para para transitar mais rápido. Existem alguns conceitos que, com certeza, nós passámos de uma fase para outra. Mas há outras ideias, que são o meu cunho pessoal e que tentei colocar na equipa, que, hoje em dia, apresenta estas nuances. Mas em termos gerais, em termos mesmo de elenco, foi um elenco preparado pelo Filipe [Luís], pelo Boto [José Boto, diretor técnico], pelo Flamengo, em que não tivemos ainda possibilidade de intervir.

Aos poucos, vamos evoluindo para uma equipa competitiva e, volto a referir, uma equipa de criação, uma equipa que não espera um lance ou dois para resolver o jogo, mas uma equipa que cria várias situações, o que normalmente é uma marca das minhas equipas

— Mas sente que a equipa já está naquele ponto de rebuçado ou perto do ponto de rebuçado em termos de ataque posicional, por exemplo? Digo isto porque tenho lido algumas críticas em relação a isso, de que às vezes a equipa tem alguma posse de bola, mas não é muito efetiva…

— Quanto à posse de bola a gente costuma… Costumo brincar muito aqui no Brasil. O que é a posse de bola? Na minha opinião, se é uma posse de bola estéril, não a defendo muito. Aquela posse de bola de andar a circular de central para central ou de central para lateral e andar só a circular a bola. Se a posse de bola tem como objetivo criar situações ofensivas, então aí sim. E é por isso que muitas vezes, perante equipas de bloco mais baixo, nós temos que ter uma maior posse de bola. Ainda agora tivemos 65% de posse de bola num jogo da Libertadores com o segundo classificado do grupo [o Estudiantes, da Argentina]. Porquê? Porque estava em bloco baixo. Deixou de pressionar. Depois dos primeiros 15 minutos, começou a baixar linhas e nós tivemos pouco espaço para transitar. Tínhamos que utilizar mais a posse para criar essas situações ofensivas. Mas a ideia acaba por ser geral para todas as equipas de alta competição. As equipas de futebol, hoje em dia, não podem jogar só no momento. Aquela equipa de que toda a gente fala, que é uma das equipas com maior posse de bola no mundo, que é o City, contratou há três ou quatro anos o Haaland, que é dos atacantes que mais joga em profundidade. Por isso, as equipas têm de ter meios para resolver as necessidades que estão no jogo, seja em momentos mais de transição ou mais de ataque apoiado. E isso é o que faz uma grande equipa, não somente um estilo. Falar num estilo só de jogo é para os jornalistas ou para os adeptos, porque os jogadores das grandes equipas, e o Flamengo é uma grande equipa. têm de ter competência para resolver as situações consoante elas acontecem.

— Acha que, se um dia, o Flamengo, tiver de jogar com um bloco um bocadinho mais baixo, os adeptos do Maracanã vão compreendê-lo, já que estão habituados ao futebol mais ofensivo?

— Dificilmente acontecerá, porque o Flamengo é um grande clube e todos os adversários, quando estão em posse… podem pressionar em algum momento, mas depois vão estar mais baixos. Mas com certeza que também vamos estar num ou noutro momento mais baixos porque o futebol é dinâmico. Não podemos ver o futebol de forma estanque. Às vezes, fico preocupado com tanta gente a falar de conceitos de forma estanque. Os 90 minutos têm uma diversidade muito grande nos seus momentos. Já vi jogos que começaram de uma forma a acabarem de outra, mudarem a meio. Por isso, acredito que a gente tem de ter essa capacidade, de sempre dar resposta àquilo que está a acontecer. E isso aumenta o nível do treinador e dos seus atletas, quando eles são capazes disso.

*A BOLA viajou a convite da Betano

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