João Cancelo - Foto: IMAGO

Vivemos na era das estatísticas. Nunca soubemos tanto sobre os jogadores. Sabemos quantos quilómetros percorrem durante um jogo. A velocidade máxima a que sprintam. A percentagem de passes certos. O número de ações defensivas. Os mapas de calor. Os índices físicos. As métricas de rendimento. Conhecemos tudo. Ou, pelo menos, gostamos de acreditar que sim. Mas continua a existir uma pergunta para a qual o futebol raramente procura resposta. Quem é verdadeiramente a pessoa que entra em campo?

O futebol moderno tornou-se extraordinariamente competente a medir rendimento. Mas continua surpreendentemente limitado a compreender seres humanos. Talvez seja por isso que, tantas vezes, confundimos um jogador com os noventa minutos que acabámos de assistir. Se joga bem, transformamo-lo num herói. Se erra, julgamo-lo como se conhecêssemos toda a sua história. A verdade é que quase nunca conhecemos.

Decidi escrever este artigo há algumas semanas, quando o João Cancelo conquistou a LaLiga e se tornou no primeiro jogador a vencer as principais ligas europeias. Um feito absolutamente extraordinário e sem precedentes no futebol. Enquanto o via levantar o troféu, não pensei apenas no título. Dei por mim a recordar as críticas que tantas vezes o acompanham, as dúvidas que continuam a surgir sempre que muda de clube e a facilidade com que, tantas vezes, se confunde esse percurso com falta de estabilidade, apesar de ter deixado um rendimento consistente e um contributo decisivo por onde passou. Mas, mais do que tudo isso, a memória levou-me até uma manhã de há mais de dez anos. À Igreja de São Lourenço, em Almancil. Numa manhã tranquila, visitei aquela que é uma das igrejas mais emblemáticas do Algarve. Um lugar onde os azulejos azuis e brancos parecem contar histórias em silêncio e o tempo abranda sem pedir licença. Quando saía, cruzei-me com o João Cancelo - Portugal jogaria apenas algumas horas depois no Estádio Algarve. Não trocámos uma palavra. Vi apenas um jovem futebolista que procurava alguns minutos de tranquilidade antes de representar o seu país. Nada mais. Cada um seguiu o seu caminho.

Algumas semanas mais tarde, ao conhecer melhor a sua história, aquele encontro ganhou um significado completamente diferente. Percebi que aquela visita talvez tivesse sido muito mais do que um simples momento de tranquilidade antes de um jogo. Talvez fosse um momento de silêncio. De recolhimento e proximidade. Uma pausa antes de entrar em campo com um peso que ninguém à sua volta conseguia ver.

Porque escrevo este artigo agora? Quis publicá-lo no primeiro fim de semana depois de 1 de julho. Para a maioria das pessoas, será apenas mais uma data no calendário. Para mim, é um dia que regressa todos os anos para me lembrar de que há acontecimentos capazes de dividir uma vida em duas partes: antes e depois. Talvez tenha sido essa experiência que me permitiu reconhecer, na história de João Cancelo, muito mais do que um futebolista de excelência. Vi um homem de família, moldado pela adversidade, pelo sacrifício e por valores que nenhuma estatística consegue medir.

Nenhum jogador nasce apenas do talento — nem mesmo os extraterrestres Cristiano Ronaldo e Messi. Um jogador nasce da educação que recebeu. Dos exemplos que teve. Das dificuldades que enfrentou. Das pessoas que lhe ensinaram, muitas vezes sem uma única palavra, o verdadeiro significado de esforço, responsabilidade e resiliência.

Há jogadores que aprendem primeiro a ganhar. Outros aprendem primeiro a perder. João Cancelo pertence claramente ao segundo grupo e, para compreendê-lo, é preciso começar no Barreiro. Numa casa onde o pai passava grande parte do ano emigrado, na Suíça, e onde a mãe acumulava três empregos para garantir aos filhos novas oportunidades.

Começou no futsal. Depois dedicou-se ao futebol. Enquanto muitos viam apenas um rapaz talentoso com uma bola nos pés, havia uma mãe que saía de casa antes de nascer o sol e regressava já noite dentro. Limpava um café. Trabalhava numa escola. Terminava o dia noutro emprego. Ao sábado continuava a trabalhar. Muitas vezes, João Cancelo via-a apenas ao domingo, quando ela marcava presença nos seus jogos. 

Foi ali, muito antes de aprender a defender ou a atacar, que João Cancelo percebeu que nada de verdadeiramente importante se conquista sem sacrifício. A maior lição da sua infância nunca aconteceu dentro de um campo de futebol. Aconteceu em casa, nos dias em que via a mãe sair antes de nascer o sol e regressar já noite dentro. O pai, pela sua família, passava grande parte do ano emigrado, na Suíça. Não precisou de discursos. Bastou-lhe o exemplo dos pais.

São histórias como estas que raramente aparecem nas estatísticas. E, no entanto, são elas que explicam quase tudo. Costumamos dizer que o desporto forma pessoas. Mas talvez a verdade seja exatamente a inversa. Já pensaram nisto? São, na minha opinião, as pessoas que acabam por explicar os jogadores. A infância não ensina apenas valores. Não ensina apenas a viver. Constrói personalidade. Ensina a levantar depois de cair. Ensina a lidar com a frustração. Com a espera. Com a responsabilidade. Com a capacidade de continuar quando tudo parece difícil. Competências essas que, anos mais tarde, aparecem disfarçadas daquilo a que chamamos «mentalidade vencedora».

Mas houve um momento em que tudo mudou. Há acontecimentos que dividem uma vida em duas partes: antes e depois. Para o João Cancelo, esse momento chegou demasiado cedo. O acidente que vitimou a mãe não foi apenas uma perda familiar. Foi uma rutura definitiva na forma de olhar para o mundo. Nas suas palavras permanecem imagens impossíveis de esquecer: o grito da mãe, o choro do irmão, a tentativa desesperada de a retirar debaixo do carro, a fatídica notícia que recebeu no hospital. Memórias que nenhum filho deveria transportar. Memórias que o tempo não apagou. Memórias que ele foi obrigado a aprender a viver com elas.

A partir desse dia, teve de crescer demasiado cedo. Teve que assumir responsabilidades. Cuidar. Liderar. Proteger e lutar. O futebol nunca substituiu a mãe. Tornou-se num lugar onde a dor encontrava, por momentos um intervalo. Deixou de ser apenas um sonho. Passou também a ser uma forma de continuar. De resistir e, principalmente, de honrar a memória de quem sempre acreditou nele.

Há uma tendência para romantizar estas histórias, como se a adversidade fosse condição necessária para o sucesso. É frequente ouvirmos dizer que as grandes adversidades fazem nascer grandes campeões. Nunca gostei dessa ideia. O sofrimento não torna ninguém melhor. A dor não é uma escola. A tragédia não é um privilégio escondido. Há perdas que deixam cicatrizes eternas, mas é a forma como escolhemos caminhar com essas cicatrizes que acaba, muitas vezes, por definir quem somos.

Há, ainda, um fenómeno curioso no desporto de alto rendimento. Admiramos a força mental dos grandes campeões, mas raramente nos perguntamos de onde ela nasceu. Não nasce quando se assina pelo primeiro grande clube. Não nasce quando chegam os títulos. Muito menos quando aparecem os aplausos. Constrói-se muito antes. Nas dificuldades. Nos sacrifícios. Nas perdas. Nas ausências. Nas pequenas batalhas que ninguém vê.  A verdadeira força nunca foi e nunca será a ausência de sofrimento. Foi, é e será a capacidade para continuar apesar dele.

Há uma frase que me surgiu no pensamento enquanto escrevia este artigo: a mochila invisível. E é verdade. Todos nós carregamos. Há quem carregue inseguranças. Há quem carregue perdas. Há quem carregue culpa. Há quem carregue saudades. E depois há quem, apesar desse peso, continue a correr. Talvez seja por isso que nunca devêssemos julgar alguém apenas pelos noventa minutos que vemos dentro de campo. Porque nunca conhecemos o peso da mochila que transporta.

Hoje, um erro ou uma má prestação, já não termina quando o árbitro apita para o término do jogo. Continua nas redes sociais. Nos vídeos. Nos reel’s. Nos comentários. Nos debates. Nos memes. Nunca os jogadores viveram tão expostos. E, paradoxalmente, talvez nunca os conhecêssemos tão pouco. O futebol habituou-nos a avaliar rendimento. Mas rendimento nunca será sinónimo de identidade. Há muito mais por detrás de um atleta do que aquilo que vemos durante um jogo. Há famílias. Há perdas. Há medos. Há responsabilidades. Há histórias invisíveis.

Um dos maiores desafios do futebol moderno é precisamente este: aprender a olhar para os jogadores como pessoas antes de os avaliarmos como profissionais. Porque os títulos explicam e engradecem carreiras. As estatísticas explicam rendimento. Mas são as histórias que explicam pessoas.

Ao longo da carreira, o João Cancelo vestiu algumas das camisolas mais exigentes do futebol mundial. Jogou perante milhões de pessoas. Foi aplaudido. Foi criticado. Marcou golos e fez assistências. Cometeu erros. Tomou decisões que dividiram opiniões. Como qualquer jogador de elite. Mas a sua mochila nunca desapareceu. Apenas aprendeu a transportá-la. É essa mochila que torna tão injusta a facilidade com que é julgado. Focam-se no gesto técnico ou no erro tático, mas nunca percebem o caminho que levou aquele ser humano até ali. Nunca têm consciência das conversas que ficaram por ter. Dos abraços que já não podem ser dados. Dos conselhos que já não voltarão a ser ouvidos. Das pessoas que gostariam de estar na bancada e já não estão.

Hoje, quando vejo o João Cancelo entrar em campo e a apontar para o céu, continuo a ver um dos melhores futebolistas da sua geração. Não é um lateral tradicional. É um jogador que utiliza a posição como ponto de partida e nunca como limite. Tem uma capacidade invulgar jogar com os dois pés e para interpretar o jogo em diferentes espaços. Tecnicamente muito evoluído. Não joga para cumprir a posição. Joga para transformar a forma como a posição pode ser interpretada. Mas vejo também o exemplo que ele é enquanto ser humano e algo que passa completamente despercebido a muitos: a sua mochila.

Talvez seja essa a maior lição que o João Cancelo nos deixa em todos os jogos. O futebol ensinou-o a vencer partidas e a conquistar trofeus. A vida ensinou-o a vencer muito mais do que isso. É aí que, na minha opinião, está a diferença entre um grande jogador e uma grande pessoa. Os grandes jogadores ficam na história pelos títulos que conquistam. As grandes pessoas inspiram e permanecem na memória pela forma como enfrentaram as derrotas que a vida lhes impôs. Porque, depois de terminar a carreira, ninguém se lembrará apenas dos clubes por onde passou ou dos troféus que levantou. Lembrar-se-ão, sim, da forma como continuou a caminhar quando tinha todas as razões para parar. 

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».

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