Reportagem de A BOLA com um refugiado somali que deixa forte mensagem aos portugueses

Do campo de refugiados no Quénia ao sonho de ver CR7: a força de Abukar

Jovem somali que fugiu à guerra recorda infância difícil ao longo da qual a determinação de Ronaldo foi o farol de esperança. Celebra o apuramento de Portugal com réplica do troféu do Mundial

TORONTO — O futebol tem a capacidade singular de erguer pontes invisíveis entre os cenários mais díspares do planeta. Nas imediações do quartel-general de Portugal em Toronto, onde a Seleção Nacional preparou nos últimos dias o decisivo embate dos oitavos de final frente à Espanha, segunda-feira, em Dallas, as atenções dividiram-se por momentos entre as grandes estrelas do relvado e um jovem adepto que carregava nos braços uma réplica dourada da Taça do Mundo.

Chama-se Abukar, mas no universo digital e entre os amigos que fez no Canadá atende pela alcunha de Power Play. Vestido dos pés à cabeça com as cores nacionais e exibindo com orgulho o número sete nas costas, ele sorri.

Um sorriso que, porém, esconde uma rota de sobrevivência que começou muito longe dos relvados imaculados deste Mundial. Abukar é natural da Somália, país fustigado por décadas de uma violenta guerra civil.

Ainda criança, a sua realidade imediata resumia-se à dureza extrema de um campo de refugiados no Quénia. Sem os privilégios da eletricidade constante ou das comodidades ocidentais, a vida desenrolava-se sob a lona de pequenas tendas improvisadas.

Foi precisamente no interior desse cenário de privação que o pequeno Abukar descobriu o futebol e, com ele, a figura que mudaria a sua perspetiva sobre o mundo. Através de ecrãs partilhados e transmissões intermitentes, o jovem começou a acompanhar Cristiano Ronaldo.

Eu não lhe chamo soccer, como fazem os canadianos. Eu chamo-lhe futebol!

«Sabe, eu sou fã do Ronaldo desde que era um bebé. Acompanho a sua carreira desde os campos de refugiados no Quénia, a viver numa pequena tenda», confessa Abukar com a voz embargada pela emoção das memórias.

Para o jovem somali, os golos do capitão português não eram apenas estatísticas de um jogo de bola. Eram demonstrações vivas de que o destino não está obrigatoriamente selado pelo local onde nascemos.

Cada cabeceamento monumental ou cada arrancada furiosa do craque português serviam de lição prática de resiliência. Quando Ronaldo desenhou aquele pontapé de bicicleta inesquecível em Turim, Abukar assistia a milhares de quilómetros de distância, retirando dali a força necessária para continuar a caminhar.

«Não importa quão difícil a vida possa ser, o futebol tem o poder de nos fazer felizes. E o Cristiano trouxe-nos muita vida, muita paixão. É por isso que ele é o ser humano mais famoso do planeta. Ele alcançou tudo e merece todo o respeito», acrescenta.

Hoje, estabelecido em Toronto, Abukar recusa-se a adotar o léxico desportivo local. Para ele, a palavra «soccer» é uma heresia que não faz justiça à herança do jogo.

«Eu não lhe chamo soccer, como fazem os canadianos. Eu chamo-lhe futebol! O povo português sabe bem que é futebol», afirma com convicção e um brilho nos olhos, erguendo o troféu em direção ao céu limpo de Toronto.

A comunidade portuguesa na cidade acolheu-o como um dos seus, algo que Abukar não se cansa de agradecer. A hospitalidade que encontrou nas ruas reforçou a sua ligação afetiva a um país que nunca visitou, mas que sente como seu.

Para Abukar, ver Cristiano Ronaldo de perto, em carne e osso nesta rota norte-americana, representa a validação de que os sonhos de infância sobrevivem mesmo aos invernos mais rigorosos e às guerras mais sangrentas.

«Se tu perseguires o teu sonho o tempo todo, tu podes vencer. O Ronaldo provou isso em Toronto. Marcou de penálti e teve aquele golo anulado, ele é fenomenal. E os portugueses são incríveis, nunca desistem», sublinha, antes de simular no asfalto o célebre festejo do capitão, gritando um audível e sentido «Siuuu!» que ecoou pela avenida.

Na segunda-feira, quando Portugal subir ao relvado em Dallas para defrontar a vizinha Espanha, Abukar estará a sofrer à distância, mas com a certeza absoluta de quem acredita no destino.

Para quem já venceu as barreiras de um campo de refugiados, ver a Seleção Nacional erguer o verdadeiro troféu em Nova Jérsia seria apenas o fecho perfeito de uma história escrita com lágrimas, suor e uma fé inabalável no futebol.

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