Nos Açores, mobilidade não é luxo
Já lá vai o tempo em que Portugal era Lisboa e o resto paisagem. Bonita, sim, diversa também, mas paisagem. A consciência de uma realidade muito diversa, de um país multifacetado e de uma riqueza dificilmente mensurável para uma tão pequena dimensão geográfica foi chegando com a multiplicação e diversificação da informação, e com a certeza de que, do ponto de vista do desenvolvimento sustentado, o conceito de justiça era cada vez mais percebido e adotado: justiça não é tratar tudo por igual; é tratar igual o que é igual, e diferente o que é diferente.
Daí que a discriminação positiva deva imperar, sempre que falamos de um todo com partes distintas, e seja ainda mais significativa e determinante quando aludimos às regiões autónomas, também elas, por sinal, bem diferentes entre si.
Porque a verdadeira dupla insularidade, a real ultraperiferia só é notória nos Açores, considerando que a Madeira, mais próxima geograficamente do território continental (e até da costa africana!…), se concentra numa ilha principal (com dez municípios), e num Porto Santo muito atraente, do ponto de vista turístico, mas bem resumido em termos de superfície.
Portanto, os Açores concentram, em si, problemas de gestão que se multiplicam por nove ilhas, por uma descontinuidade geográfica que assume, na sua génese, uma dupla insularidade, tão distintos, porém complementares e essenciais, são os desafios da governação.
No desporto (e no futebol em particular), a dimensão arquipelágica encerra a divisão em três associações distintas (Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta), herdando a antiga divisão administrativa digital, sobretudo por questões que se prendem com o conhecimento do terreno, a implantação de medidas específicas para cada associação e, admitamos, uma rivalidade regional dificilmente ultrapassável.
Por isso, quando, do ponto de vista competitivo, se tem no Santa Clara a ponta do icebergue, importa não reduzir a medida e a compreensão da realidade açoriana à visibilidade que é dada pela SAD presidida por Bruno Vicintin, desde logo porque ela representa apenas a cidade de Ponta Delgada e a ilha de São Miguel, mas essencialmente porque está longe de concatenar a verdadeira realidade do futebol e do desporto açorianos.
É necessária uma visão de perspetiva sobre o arquipélago, percebendo que é muito distinto pugnar pelo desenvolvimento sustentado em nove ilhas de realidades muito díspares. Instalações, técnicos credenciados, desafios competitivos, estruturas organizadas. Por isso — também por isso — o desporto escolar assume uma vertente determinante no desenvolvimento do ecossistema desportivo açoriano, sendo, muitas vezes, porta de entrada e saída para a atividade física, e pólo aglutinador de jovens, despistagem de talentos e progressão de aprendizagens.
Unir as ilhas é essencial. Falamos de uma região que se estende por mais de seiscentos quilómetros, da ilha mais oriental (mais próxima do território continental), Santa Maria, ao extremo mais ocidental, geograficamente situado já na placa tectónica americana (a ilha das Flores), com uma diversidade de 19 concelhos em nove ilhas (quatro delas — Faial, Graciosa, Santa Maria e Corvo — monoconcelhias). E a unidade consegue-se com ligações frequentes, garantidas pela SATA Air Açores, tantas vezes em condições atmosféricas muito adversas e em situações de necessidade extrema, como o abastecimento de bens essenciais ou o transporte de doentes.
De há alguns anos a esta parte, o Governo dos Açores projetou uma medida estruturante: a chamada Tarifa Açores, aplicada a residentes, e que, na génese, constituía uma ferramenta essencial da mobilidade inter-ilhas, facultando viagens aéreas de ida e volta a um preço condicionado não superior a 60 euros. Quer os movimentos internos na região, quer a capacidade de proteção ao passageiro residente, eram motivos mais que suficientes para justificar a medida, aplaudida por todos os quadrantes políticos e, sobretudo, saudada pela generalidade da população açoriana, sendo que, do ponto de vista social e (também) desportivo, muito auxiliou a que se ascendesse a um patamar antes dificultado pelos elevados preços das ligações.
Se olharmos ao conceito de mobilidade, rapidamente percebemos que, nos Açores, em pleno Atlântico norte, a quase meio caminho entre a Europa e a América, essa ideia ganha foros de essencial, qual respiração garantida para mais de 250 mil habitantes. Já não abordo — pelo menos aqui e agora — as ligações com o exterior, resumidas à Azores Airlines e à TAP Air Portugal, num contexto económico cada vez mais difícil e exigente, e com repercussões diretas que não se resumem à simplicidade dos dados estatísticos, mas encontram eco e respaldo numa significativa diminuição do número de desembarques e dormidas, generalizado a todas as ilhas do arquipélago, mas com especial incidência, claro, nas que se constituem como principais receptadoras do mercado turístico.
Ora, aqui chegados, a correção dos preços para residentes das viagens aéreas inter-ilhas, plasmada na proposta de orçamento regional para 2027, de 60 para 70 euros, é pouco razoável e, até, para determinadas franjas da população, alarmante. Dez euros (em sessenta) representa, para todos mas, concretamente, para as associações de modalidades com múltiplos desafios competitivos nas diversas ilhas, um aumento dificilmente comportável, talvez definitivamente limitativo de uma normal e saudável capacidade de intercâmbio e desafios para dirigentes e praticantes, e de estímulos para o desenvolvimento das próprias atividades.
Aplica-se ao desporto mas, genericamente, a todas as atividades económicas desenvolvidas nas nove ilhas açorianas, e é uma medida que, a confirmar-se, é um importante retrocesso na mobilidade, na facilidade de ligação e na mensagem enviada pelos responsáveis políticos, mesmo sabendo as implicações financeiras no orçamento muito limitado de uma região como os Açores.
O dinheiro público tem múltiplas vertentes, e a sua aplicação também. Afinal, olhando à atual proposta de orçamento regional, acabamos por verificar que, como tantas vezes no futebol, também na política e nas suas opções estruturantes, o que hoje é verdade, amanhã é mentira.
A CAF (Confederação Africana de Futebol) não se entende. Ora é a manutenção da regra de desempate por golos fora, ora é o imbróglio, administrativo com a definição do campeão africano (Senegal ou Marrocos), ora é o sorteio com duas equipas angolanas (Petro de Luanda e Wiliete de Benguela) no mesmo grupo da Liga dos Campeões.
E, agora, é o regresso à periodicidade bienal da CAN (Taça de África das Nações), depois de ter ficado oficialmente definido o caráter quadrienal da competição.
Por mais que Patrice Motsepe, o milionário sul-africano que preside à organização, tente demonstrar alguma visão e ideia de futuro, é muito difícil acreditar nos projetos da CAF, tantas, tamanhas e tão frequentes são as contradições no seu seio…