Portugal, juntamente com Espanha e Marrocos, vai organizar o Campeonato do Mundo de 2030 - Foto: Imago
Portugal, juntamente com Espanha e Marrocos, vai organizar o Campeonato do Mundo de 2030 - Foto: Imago

O futebol português deve enterrar o machado de guerra

'Choques de Realidade' é o espaço de opinião em A BOLA de Rui Pedro Soares, consultor

Houve um tempo, já distante, em que ser campeão nacional era o objetivo único e último de uma época desportiva. Ganhar significava conquistar um título, entrar para a história e proporcionar aos adeptos a alegria de serem os melhores.

Com o crescimento exponencial das receitas da Liga dos Campeões e a dependência financeira que os clubes rapidamente desenvolveram dessas verbas, ser campeão passou também a significar arrecadar dezenas de milhões de euros.

Num futebol excessivamente dependente das receitas provenientes da venda de jogadores e das competições da UEFA, não ser campeão deixou de representar apenas uma derrota desportiva.

O adversário deixou de ser apenas um concorrente desportivo e passou a ser encarado como uma ameaça à própria sobrevivência económica.

Foi assim que a rivalidade se transformou em hostilidade e a competição deu lugar a um estado de guerrilha permanente, que há demasiado tempo carateriza o futebol português.

Mas Portugal prepara-se para ser um dos três países anfitriões do Mundial de 2030.

Uma oportunidade histórica para mostrar ao mundo a nossa cultura, afirmar a capacidade de organização do país e promover um turismo de maior qualidade, capaz de atrair visitantes com maior poder de compra.

Uma oportunidade que não podemos desperdiçar e que, provavelmente, não voltaremos a ter até ao final deste século.

O futebol português não pode querer apresentar-se ao mundo como anfitrião de uma grande celebração universal e continuar a viver, dentro de portas, num ambiente de ressentimento e hostilidade permanente.

Os adversários não são inimigos.

E o futebol, que tantas vezes reproduz os piores defeitos da sociedade portuguesa, pode desta vez dar um exemplo das suas melhores virtudes.

Uma 'Team of Rivals' no futebol português

Em 1860, Abraham Lincoln conquistou a nomeação presidencial do Partido Republicano, derrotando vários adversários que, um ano depois, já eleito presidente dos Estados Unidos, surpreendentemente convidou para integrarem o seu Governo.

Em vez de os afastar, inclui-os. Esta decisão ajudou-o a conduzir o país durante a Guerra Civil americana e a preservar a União, o grande objetivo da sua presidência.

Lincoln reconhecia o valor dos seus adversários e sabia que muitos deles se consideravam mais preparados do que ele para exercer a presidência. Tinham disputado o mesmo lugar, defendido projetos diferentes e recusado apoiá-lo.

Mas compreendeu que o país precisava também do talento daqueles que o tinham combatido.

A reconciliação exigia, porém, dois movimentos igualmente indispensáveis: Lincoln tinha de convidar os seus antigos adversários e estes tinham de aceitar.

Nenhum dos gestos seria natural. O primeiro exigia grandeza de quem tinha vencido; o segundo, humildade de quem tinha sido derrotado.

Mas foi precisamente essa capacidade de colocar um objetivo comum acima das rivalidades pessoais que tornou a decisão de Lincoln um exemplo para a História.

Cento e sessenta e cinco anos depois, salvaguardadas todas as proporções, o futebol português precisa de aprender com Abraham Lincoln.

Até 2030, o futebol português precisa de uma paz assente no respeito, na confiança e na capacidade de Federação Portuguesa de Futebol e Liga trabalharem em conjunto, apesar das divergências.

A dependência financeira dos clubes exige reformas estruturais que a reconciliação, por si só, não resolve. Mas nenhuma reforma será possível num ambiente em que todos guerreiam todos.

E não haverá paz sem reconciliação.

O futebol português também tem demasiadas pessoas afastadas por terem estado do lado vencido de uma disputa ou por não se terem alinhado com quem venceu.

Não se trata de distribuir lugares pelos derrotados, nem de substituir os leais pelos adversários. Trata-se de compreender que o mérito não depende da lealdade pessoal e que a competência não desaparece quando alguém discorda de quem venceu.

Quem dirige o futebol português deve escolher os melhores, não apenas aqueles que estiveram ao seu lado.

Jorge Jesus é um exemplo de como o mérito deve prevalecer sobre a conveniência de escolher personalidades mais consensuais.

Uma personalidade forte, independente e longe de ser conhecida pela docilidade do seu feitio.

Não pode ter sido escolhido pela facilidade de relacionamento ou pela disponibilidade para concordar com quem manda, mas, simplesmente, por ter sido considerado o melhor para a função.

E é precisamente esse o princípio que deve orientar a escolha de quem serve o futebol português: procurar os melhores, mesmo quando são difíceis, incómodos ou discordam de nós.

A responsabilidade não pertence exclusivamente aos vencedores. Também os vencidos têm de estar disponíveis para a aceitar, colocando o interesse coletivo acima dos ressentimentos pessoais.

A reconciliação não exige que ninguém abdique das suas convicções, nem que os adversários deixem de competir. Exige apenas que compreendam que há objetivos comuns mais importantes do que as suas rivalidades.

O Mundial de 2030 oferece-nos um desses objetivos.

Será uma oportunidade para mostrar ao mundo o melhor de Portugal. Mas seria igualmente importante que nos ajudasse a descobrir o melhor de nós próprios.

Se o futebol português, onde os interesses económicos são tão elevados e as rivalidades tão profundas, conseguir enterrar o machado de guerra, talvez o país descubra que também é possível fazê-lo.

E essa seria uma das mais importantes vitórias de Portugal no Mundial de 2030. Mesmo que não seja dentro das quatro linhas.

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