Zlatan Ibrahimovic foi um dos jogadores que recuperaram totalmente de lesão no ligamento cruzado anterior. Foto André Alves/A BOLA
Zlatan Ibrahimovic foi um dos jogadores que recuperaram totalmente de lesão no ligamento cruzado anterior. Foto André Alves/A BOLA

Um desportista com Ligamento Cruzado Anterior (LCA) operado volta a jogar ou arrisca o fim da carreira?

'Mito ou Realidade' é um espaço de opinião de João Espregueira-Mendes (presidente da Sociedade Internacional de Artroscopia, Cirurgia do Joelho e Medicina Desportiva Ortopédica — ISAKOS) e, neste caso, de Tiago Lopes, especialista de medicina física e de reabilitação

A rotura do Ligamento Cruzado Anterior (LCA) continua a ser uma das lesões mais temidas no futebol porque envolve instabilidade articular, défice de controlo neuromuscular e uma recuperação longa, que exige paciência, método e confiança. Durante anos, foi encarada como o fim de uma etapa. Hoje, graças à evolução das técnicas cirúrgicas e à melhoria dos programas de reabilitação, representa um desafio exigente, mas totalmente superável.

A evidência científica confirma esta mudança. Os atletas regressam à competição com grande probabilidade, após reconstrução do LCA e, muitos, conseguem recuperar o nível de desempenho pré-lesão. Estes resultados, descritos em publicações recentes no Sports Medicine – Open e no British Journal of Sports Medicine, refletem o impacto de uma abordagem mais precisa, baseada em critérios objetivos e no trabalho coordenado de equipas médicas multidisciplinares. Contudo, necessitam de um apoio competente e altamente especializado que, sobretudo nos atletas amadores, nem sempre acontece.

O diagnóstico correto é crucial e o Porto Knee Testing Device (PKTD), inventado na Clínica Espregueira — Dragão, é o único aparelho do mundo que permite medir a instabilidade na ressonância magnética e ajudar numa indicação cirúrgica correta.

O sucesso começa no bloco operatório e estende-se até ao último exercício de reabilitação. As técnicas atuais privilegiam o uso de autoenxertos — como o tendão patelar, os isquiotibiais ou o tendão quadricipital — pela sua melhor integração biológica e resistência mecânica. Nos casos de instabilidade rotacional significativa, a novidade e associação frequente da tenodese extra-articular lateral (LET), que reforçam o controlo rotacional do joelho e diminuem o risco de nova rotura. Outra inovação relevante é a avaliação pré-operatória da forma do osso como fator de risco. Estas técnicas permitem uma reabilitação progressiva mais estável e um retorno gradual à carga sem comprometer a cicatrização biológica do ligamento.

Na fase de reabilitação, o foco já não está apenas no fortalecimento muscular, mas na restauração completa da função articular e do controlo motor. O treino proprioceptivo, o trabalho de desaceleração e de mudança de direção e os exercícios específicos de gesto desportivo são fundamentais para restabelecer padrões de movimento seguros e eficientes. A componente psicológica, por sua vez, é cada vez mais reconhecida como determinante. A confiança no joelho e a superação do medo de nova lesão são fatores críticos para o regresso bem-sucedido à competição.

Muito são os exemplos de atletas que voltaram ao topo após esta cirurgia e que são inspiradores. Philipp Lahm, Zlatan Ibrahimović e Alexia Putellas recuperaram plenamente e prolongaram carreiras de excelência. Estes casos mostram que o êxito depende tanto da técnica cirúrgica e do rigor da reabilitação como da dedicação e resiliência do próprio atleta.

Romper o LCA já não significa o fim de uma carreira.

Com cirurgia precisa, reabilitação personalizada e uma equipa médica experiente, o praticante de exercício físico pode regressar com segurança, estabilidade e confiança.

A ciência e o progresso transformaram a rotura do LCA: de um pesadelo, esta etapa difícil e trabalhosa, enche-se de esperança.

Hoje, voltar ao topo não só é possível, como é cada vez mais provável!