Técnico do Benfica foi apanhado desprevenido durante conversa sobre continuidade no Benfica

Gargalhadas sobre a continuidade no Benfica, ambição para vencer o Sporting e algumas revelações, tudo o que disse Mourinho antes do dérbi

Treinador não consegue garantir que fica na próxima época, mas acrescenta, em fase animada da conferência de Imprensa, que as notícías sobre interesse de vários clube nele podem ser falsas. Promete equipa em Alvalade para vencer. Falou também de Aursnes, Tomás Araújo, Richard Ríos...

— Rui Costa já falou esta semana sobre este dérbi, disse que um dérbi é sempre um dérbi, que acaba por transcender um pouco os momentos que as equipas estão a atravessar. Concorda com esta ideia e de que forma é que a equipa do Benfica está a abordar este jogo? 
— Concordo. Um dérbi é um dérbi. Não há necessidade de motivações extra. Independentemente de classificações, independentemente de objetivos, trata-se de um jogo importante de campeonato, obviamente que sim, mas se fosse no verão, no torneio do Algarve, seria sempre um dérbi também. E é como eu disse, gosto de os jogar. Sei das dificuldades, mas sei também do prazer que é jogar jogos desta dimensão. Objetivos são os de sempre: ganhar. E, obviamente, respeitar a natureza, respeitar a essência daquilo que é um dérbi. Mas, já disse e repito, são dos jogos que menos preocupam ao nível motivacional, do foco, da atitude e da vontade de jogar. São jogos que a esse nível me preocupam menos.

— Duas perguntas . Uma é muito direta, a outra um bocadinho mais filosófica. A direta é: pode-nos o onze inicial para amanhã? E a mais filosófica: olhando para a época do Benfica, não é muito comum ver uma equipa sem derrotas chegar a esta fase do campeonato e não estar no primeiro ou, no limite, no segundo lugar; Como é que encara esta invencibilidade, é a parte doce ou a parte amarga da temporada?
— É filosófica, mesmo. Não, a equipa não lhe dou. O Rui [Borges] também não dá a dele. Se ele quisesse trocar, trocaria, sem qualquer problema. Não é que veja grande vantagem em escondê-la ou não, mas, não, não vou dar. Eventualmente também não haverá assim grandes surpresas que justifiquem este meu secretismo, digamos assim. Mas não vou dar. A situação de não termos sofrido derrotas: há muitas maneiras de olhar para ela. Um bocadinho como a filosofia, não é? Há empates daqueles que tivemos que não enobrecem, que não fazem do Benfica maior do que aquilo que é, que não fazem de nós, profissionais, melhores do que aquilo que somos. Há empates que, pelo contrário, que foram sentidos como derrotas. Aqueles em que desperdiçámos as vitórias nos últimos minutos, aqueles em que, como com o Casa Pia, não fizemos um bom jogo. Depois tivemos outros empates em que nos sentimos verdadeiramente prejudicados e que teriam sido vitórias se não tivéssemos sido prejudicados. Portanto, há muita maneira de olhar para estes empates. Mas, depois, de uma maneira muito objetiva, diria: uma equipa que não está nem nunca esteve à frente do campeonato, precisa de ser resiliente, séria, honesta, respeitadora dos valores do clube, respeitadora dos sentimentos dos adeptos. E isto esta equipa representou sempre até agora, lutando sempre, lá está… ‘se não ganho não perco, mas vamos com tudo até ao fim de cada jogo’. Neste sentido, é muito positivo. O lado negativo da coisa é exatamente olharmos para alguns jogos, tipo Santa Clara em casa, Rio Ave em casa, Casa Pia fora… Há alguns jogos em que olhamos e dizemos: isto são derrotas. Isto não são pontos ganhos, são pontos perdidos. E pontos perdidos que depois na tabela têm obviamente significado. Depois há um aspeto que esconde um bocadinho a época com alguns contornos positivos que estamos a fazer, que é o facto de termos os mesmos pontos da época passada, exatamente à mesma jornada. Pontos esses que permitiram ao Benfica lutar pelo campeonato praticamente até ao último minuto do último jogo e que este ano, em função, do número de pontos que o FC Porto tem feito, deixa o Benfica a sete pontos do primeiro classificado. Ou seja, digo sempre que as classificações dizem muito sobre o teu mérito ou demérito, mas dizem também muito do mérito ou demérito dos teus adversários mais diretos. E o FC Porto, se eu não erro, tem 17 pontos a mais do que aquilo que tinha na época passada. O Sporting não terá 17 mas terá também dois ou três ou quatro, andará por aí. Ou seja, tendo feito até agora uma época não boa, porque no Benfica época boa é ganhar campeonatos, mas uma época em que em condições normais nos permitiria estar numa situação diferente. Se me perguntares diretamente se me dá muito prazer não ter derrotas até agora, não me dá muito. Não me dá muito. Preferia ter um par de derrotas e menos empates e mais pontos. Mas, como dizia anteriormente, diz qualquer coisa de positivo sobre esta equipa.

— Num tom menos filosófico, talvez mais leve, embora também sério, já disse que assinaria por 10 anos pelo Benfica. Seria capaz de dizer, como um político português que se candidatou à Câmara Municipal de Lisboa há 25 anos e que também se tornou célebre pela demissão irrevogável, ‘eu fico’?
— Não, não posso dizer. Como é que eu posso dizer uma coisa dessas?

— Porquê? Por que é que não pode dizer?
— Porque não depende só de mim! É óbvio. Um treinador na estrutura de um clube, um treinador, um jogador, um diretor de imprensa, um roupeiro, um fisioterapeuta, todos numa estrutura de um clube… Da mesma maneira como acho que se calhar, como jornalista d'A BOLA, não pode garantir que vai estar n'A BOLA nos próximos 10 anos. Não pode! Se calhar quer, mas não pode garantir. Obviamente que não... que não posso garantir.

Aursnes e Tomás Araújo estão disponíveis? E, se sim, o que é que o meio-campo do Benfica ganha com o médio em campo?
Aursnes está. Treinou-se a semana toda. Já viram que ele jogou 15 minutinhos no jogo contra o Nacional, que foi no fundo o culminar de uma semana... não a full time, mas o culminar de uma semana já de algum trabalho. E, depois, esta semana trabalhou a semana toda sem qualquer tipo de limitação. Está bem, está para jogar e vai jogar. E o que é que ele pode dar? Dá-nos muita coisa. Depende da posição em que jogue, mas dá-nos muita coisa. Uma das coisas que nos dá é equilíbrio. É um jogador de uma inteligência muito específica, importante. Sabe ler o jogo como poucos. Sabe jogar em diferentes posições, em diferentes contextos, em diferentes conceitos. Vai jogar porque considero um jogador fundamental. O Tomás treinou-se connosco sem limitação ontem e hoje. Apesar de termos amanhã ainda uma breve sessão de manhã, considero que também está em condições jogar.

— Os clássicos esta época têm sido assim um bocado aborrecidos, muito fechados, sobretudo para os adeptos, se calhar para os treinadores têm sido até jogos ricos. Mas este clássico tem a particularidade de as duas equipas terem de ganhar para alcançar os objetivos. Espera um jogo mais e espectacular por isso? 
— Não sei. Não sei. E se calhar não estou assim tão de acordo consigo. O jogo em casa com o FC Porto Porto teve quatro golos. Foi um jogo em que uma equipa foi dominadora, quase diria arrasadora nos primeiros 20/30 minutos de jogo. E depois teve outra equipa que foi dominadora e quase arrasadora nos últimos 20/30 minutos. Foi um jogo forte de duas equipas fortes. O jogo com o Sporting, também na Luz, é um bom começo do Sporting, que se superioriza no marcador e também no próprio no próprio jogo. E depois é um jogo em que a partir dos 25 minutos o Sporting não voltou a rematar à baliza do Benfica, em que o Benfica dominou e dominou e dominou, apesar de não ter vencido. Ah... e o jogo em Braga, porque o pessoal gosta muito de esquecer o SC Braga. Apesar de não estar, obviamente, perto dos três primeiros lugares, é uma equipa de um grande nível. O jogo de Braga foi outro jogo com quatro golos. Diria cinco, porque fizemos um golo que nos daria a vitória no jogo. Portanto, outro jogo ultra-animado. O jogo no Porto é o único que termina 0-0. E esse jogo, sim, numa altura em que as equipas estavam ali ainda no primeiro terço do campeonato, foi se calhar mais tático, mais calculista de parte a parte. Mas é o único jogo em que estaria de acordo com o seu comentário relativamente aos jogos entre as quatro grandes equipas.

— Como está Richard Ríos. E, em relação ao campeonato, se o Benfica não vencer, fica afastado do segundo lugar?
Ríos está bem. Como disse a seguir ao jogo do Nacional, não me parecia uma coisa preocupante. Como dizia também, tenho medo de músculos, de joelhos e tenho pouco ou menos medo de tornozelos. Portanto, nada. Não se treinou no primeiro dia da semana e a partir daí treinou full time, sem qualquer tipo de problema. Em relação à segunda pergunta, é a velha história da matemática. Se a faltar quatro jogos para o final do campeonato, com 12 pontos em disputa, se não ganharmos, matematicamente ainda será possível. Mas,  apesar de me terem trucidado pela minha honestidade e pelo meu pragmatismo, continuo a repetir uma coisa é a matemática pura e outra coisa é o pragmatismo dos números. Se não ganharmos, vamos dar tudo até ao final. Enquanto for matematicamente possível, vamos atrás. Se deixar de ser matematicamente possível, continuamos a ir atrás daquilo que é a natureza e a história do clube. Mas ficaria, obviamente, muito mais difícil. Agora, prefiro ser otimista e pensar que amanhã podemos ganhar.

— Já disse que não pode garantir que fica. Mas o presidente também já disse que é um não tema porque vai continuar na próxima temporada.
— Então é um não tema.

— Então por que é que há este impasse?
— Qual impasse?

— O impasse de não conseguir garantir que não fica, o presidente diz que...
— [interrompe] Já falei para aí há há dois meses sobre essa situação. Já falei há 15 dias, já falei a semana passada. Arranja aí outra perguntinha que esta não tenho nada para dizer.

— E por que é que não garante que fica?
— Porque é que não garanto que fico? Podes garantir que ficas na RTP para a próxima época?

— Posso, porque ninguém me quer!
[José Mourinho perde-se em gargalhadas]

— Ficamos assim então?
— Ficamos. Tem direito a uma segunda pergunta.

— Não sou como José Mourinho que é pretendido em Inglaterra, Espanha e por aí fora.
— Se calhar... se calhar é mentira.

— Muito bem. Tendo em conta que o Sporting tem jogado melhor, pelo menos nos últimos jogos, o que é que o faz acreditar que consegue ir a Alvalade e ganhar o jogo? 
— O que me faz acreditar? Faz-me acreditar a nossa história no campeonato, somos uma equipa difícil para qualquer adversário. Ainda nenhuma equipa conseguiu ter um jogo fácil contra nós. Diria que a equipa que teve o jogo mais fácil contra nós foi o Casa Pia. Todas as outras equipas tiveram jogos muito difíceis com o Benfica. Mesmo as equipas que empataram, podiam ter perdido. Quero acreditar nesta linha de comportamento e no nosso nível competitivo. Quero acreditar no trabalho que fizemos durante esta semana. Não tenho razão nenhuma para não acreditar. Estando absolutamente de acordo consigo, quando diz que o Sporting está bem, muito bem, está a jogar muito bem. E que fez agora recentemente dois jogos muito bons na Champions. Temos de ser pragmáticos, coerentes e até humildes, no sentido de reconhecer que vamos ter um jogo muito difícil. Não sou propriamente top em estatísticas, mas parece-me que o Benfica há muito tempo que não ganha o dérbi de Alvalade. Mas vamos lá para ganhar.

— Que diferença espera em relação ao jogo da primeira volta? E, já agora, o que espera da arbitragem de João Pinheiro, que já mereceu críticas suas no passado?
— Mas só critico os árbitros depois dos jogos. Não critico antes. Antes dou sempre a maior confiança aos árbitros. Não me parece correto duvidar da competência e muito menos da honestidade de cada um deles. Antes dos jogos para mim ver o João Pinheiro, o [Fábio Veríssimo] Veríssimo, qualquer um deles para mim dá-me exatamente igual. Antes do jogo não digo nada. Depois do jogo sinto-me na liberdade de poder analisar e dizer: gostei, gostei pouco, não gostei, acho que falhou aqui. Mas, antes do jogo, nada. Portanto, a nomeação do João Pinheiro não me diz nada de positivo ou negativo. Ser o João Pinheiro ou outro árbitro não me diz grande não me diz grande coisa.

— Já agora sobre as diferenças que podem existir amanhã.
— Não sei. É muito difícil, lá está, é dérbi. O Sporting precisa de ganhar, o Benfica precisa de ganhar, única coisa que o empate dará é ao Sporting maior segurança relativamente ao segundo lugar, mas se calhar é uma coisa que não lhes interessa, se calhar aquilo que é verdadeiramente o foco do Sporting é ganhar o campeonato e ganhar e ganhar o título. Mas, independentemente de todas estas variantes, dérbi é dérbi e não consigo imaginar aquilo que possa acontecer. Aquilo que posso tentar fazer é tentar reduzir ao máximo a imprevisibilidade daquilo que é a natureza de um jogo de futebol. Que foi aquilo que fizemos durante a semana a tentar trabalhar diferentes conceitos, diferentes cenários e estarmos o melhor preparados possível para o jogo.