Funeral Blues
Eis que o impensável sucedeu. De facto. Logo na folha da primeira semana dos calendários que marcam a época futebolística, o FC Porto perdeu dois em três jogos. O primeiro em Barcelos, face a uma equipa que apenas está a disputar a Liga doméstica por razões outras que não exclusivamente as de índole desportiva. Seja como for, o desastre ocorreu mesmo. Frente a um elenco de atletas contratados à pressa, de perfis distintos e origens as mais diversas, os quais ainda nem sequer devem saber os nomes uns dos outros. Pior começo de campeonato seria virtualmente impossível. Mas como se tal não fosse suficiente para quase esgotar de uma só vez o meu cantil de mágoas desportivas, supostamente com capacidade para o ano inteiro, três dias depois do ora mencionado desastre sofro o mais inesperado dos golpes: a eliminação da Liga dos Campeões infligida por um desconhecido adversário russo que, ainda antes do intervalo, chegou a estar a vencer por três a zero! Agora, afastados que estamos das principais arenas desportivas, só falta perder também contra o Benfica - o campeão em título, recorde-se de novo - para que os sonhos de toda uma época inteira se possam vir a esfumar. Ainda antes do encerramento do mercado.
Nessa catastrófica eventualidade - que os Deuses não a permitam! - o que restaria para o resto do que resta da temporada? Focar como objectivo a tacita da carica? Mas é coisa demasiado insignificante para quem já conquistou tão magnas taças e ofereceu tão gloriosos feitos, não é verdade?
Em nada me interessa agora protestar contra a forma como o plantel foi concebido ou contestar modelos de jogo, manobras tácticas ou substituições.
Hoje não é tempo de enunciar explicações ou de apontar culpados.
Hoje é dia de queimar as aparas do desgosto e começar a fazer tudo, mas mesmo absolutamente tudo, para jogar o melhor futebol alguma vez já visto em Portugal.
Hoje tem de ser o último dia da tristeza e a dolorosa véspera da gloriosa alegria!
Mas é isto possível? Claro que sim, porque não é por um homem cair que se percebe a sua natureza. Cada homem só mostra quem verdadeiramente é pela forma como se volta a reerguer.
Já não vamos a tempo de disputar a Champions, mas ainda sobram desafios suficientes para compensar todos e cada um dos seus adeptos, oferecendo-lhes um futebol contrário às médias e às mediocridades, um futebol tão puro quanto devastador, tão belo quanto mortifero. E, obviamente, com o mais profundo desprezo pelos calculistas&resultadistas. Enfim, que cada jogo constitua um momento de exaltação para o povo do Dragão e de medo, muito medo, para os adversários. Se tal vier a verificar-se, garanto que esta equipa, precisamente esta, para sempre perdurará na memória dos seus fabulosos adeptos. Porque há pelo menos uma coisa mais forte do que um título de campeão: o respeito e a admiração de quantos amam este maravilhoso jogo. Que seja então incinerado o livro das desgraças anunciadas e, de imediato, se abra a Canção 9 do livro Twelve songs, de W. H. Auden, intitulada Funeral Blues, musicada por Benjamin Britten e internacionalmente famosa devido ao filme Quatro casamentos e um funeral. Segue-se a tradução de Vasco Graça Moura, um Amigo de quem serei para sempre tão admirador quanto devedor:
«Parem já os relógios, corte-se o telefone,
dê-se um bom osso ao cão para que ele não rosne,
emudeçam pianos, com rufos abafados
transportem o caixão, venham enlutados.
Descrevam aviões em círculos no céu
a garatuja de um lamento: Ele Morreu,
no alvo colo das pombas ponham crepes de viúvas,
polícias-sinaleiros tinjam de preto as luvas.
Era-me Norte e Sul, Leste e Oeste, o emprego
dos dias da semana, Domingo de sossego,
meio-dia, meia-noite, era-me voz, canção;
julguei o amor pra sempre: mas não tinha razão.
Não quero agora estrelas: vão todos lá para fora;
enevoe-se a lua e vá-se o sol agora;
esvaziem-se os mares e varra-se a floresta.
Nota 1 - Atendendo à natureza do texto principal, esta edição não contempla as habituais secções de Cromos, Joker e Entrevista Rápida.